Além do diagnóstico: câncer de mama pode pesar no bolso da mulher

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Toxicidade financeira afeta diversas pacientes |  Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Você já ouviu falar de toxicidade financeira? O termo pode causar uma certa estranheza e até ser difícil de falar, mas, na prática, é o impacto negativo sofrido por pacientes e suas famílias devido ao acúmulo de gastos causados por tratamentos médicos prolongados. Muitas mulheres que lutam contra o câncer de mama sabem muito bem como suas vidas foram afetadas por esse baque econômico.

Tendo sido diagnosticada com câncer de mama aos 29 anos, Carolina Magalhães, hoje com 39, conta que o caminho até a cura não foi fácil, mesmo tendo suporte, teve que arcar com diversos custos durante o tratamento. “Apesar de ter um plano de saúde, ainda assim, a gente têm alguns gastos para ter um ‘conforto’ maior durante o processo, como por exemplo, a compra de medicações extras para alívio de dor no pós-tratamento, remédios para acelerar a cicatrização, entre outros”.

Carolina foi diagnosticada com câncer de mama aos 29 anos

Carolina foi diagnosticada com câncer de mama aos 29 anos | Foto: Arquivo pessoal

Além disso, a publicitária conta que assim como ela, outros pacientes precisam ter gastos para judicializar a operadora de saúde, quando negam algum tipo de atendimento ou medicação. Ela revela que uma das cirurgias que precisou fazer foi negada, então a solução foi processar o plano de saúde. Carolina teve que ficar sem tratamento médico até que a operadora resolvesse o problema.

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O diagnóstico nunca vem sozinho, ele sempre vem com os determinantes sociais agregados nele.

Carolina Magalhães, ex-paciente oncológica

Como alguém que foi paciente oncológica e desenvolveu uma iniciativa de acolhimento e de busca de equidade racial na saúde, o Se Cuida Preta, Carolina também sabe dos dilemas sofridos pelas mulheres que utilizam o Sistema Único de Saúde (SUS). Mesmo com a gratuidade do tratamento, muitas precisam de grana para se deslocar e para custear necessidades básicas dos acompanhantes, como alimentação e transporte.

Por esses motivos, Carolina acredita que falar de dinheiro também é falar de saúde, já que a parte econômica acaba impactando todas as áreas da vida da paciente. “O diagnóstico nunca vem sozinho, sempre vem com os determinantes sociais agregados nele, vem a raça, vem o trabalho ou a falta dele e vem o dinheiro. Então está tudo interligado”, diz.

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Muitas deixam de realizar o tratamento porque não tem um suporte

Carolina Magalhães, ex-paciente oncológica

“Não tem como falar que essa mulher recebeu o diagnóstico e vai seguir o tratamento. […]. Precisam trabalhar, colocar a comida dentro de casa e a saúde vai deixando de ser prioridade naquele momento, mesmo passando por um tratamento de câncer”, relata Carolina.

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A vida após o câncer

Para além do dinheiro, a publicitária conta que algumas pessoas acham que a vida volta ao normal logo após o tratamento, porém, essa não é uma realidade. Muitas pacientes não são mais as mesmas. Algumas descobrem que aquele trabalho já não faz mais sentido, outras precisam lidar com os efeitos colaterais que podem persistir por anos e, diante desse cenário, a sociedade precisar entender que, por vezes, conviverá com novas mulheres.

Outubro Rosa é o mês destinado a campanha mundial contra o câncer de mama

Outubro Rosa é o mês destinado a campanha mundial contra o câncer de mama | Foto: Reprodução/magnific/Ilustrativa

“Quando eu tive o diagnóstico, eu estava no auge da minha vida profissional, amorosa, viajando, vivendo bastante, mas também uma vida muita acelerada, perdendo noite me alimentando mal”, lembra. “Quando o câncer veio, me forçou a recomeçar. Eu percebo que esse recomeço é muito mais legal e saudável do que eu vivia antes. Eu comecei a priorizar a minha família, as coisas que eu quero fazer, estar em um trabalho que eu realmente seja do meu interesse e façam meus olhos brilharem“.

A psicóloga Amine Lira (CRP 03/3532) explica que a transição do tratamento para a fase de sobrevivência é um verdadeiro turbilhão na vida da paciente. A cura, atrelada a ausência da rotina intensa do processo oncológico com a retomada da “vida normal”, pode ser um verdadeiro choque de realidade.

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O alívio se mistura, diariamente, com o medo de que a doença volte.

Amine Lira, psicóloga
Amine Lira explica a  transição do tratamento para a fase de sobrevivência

Amine Lira explica a transição do tratamento para a fase de sobrevivência | Foto: Arquivo pessoal

“Sem a rotina frequente de exames e consultas, é comum surgir uma forte sensação de desamparo. […] A paciente passa a ter que lidar com a cobrança de estar sempre feliz e grata, enquanto, por dentro, ainda está juntando os pedaços de tudo o que enfrentou“, diz a profissional.

Amine explica que o primeiro passo para reconstruir a vida é tentar entender que a pessoa de antes ficou no passado. “Não tente vestir a ‘velha você’. Aquela mulher de antes do diagnóstico ficou para trás, e você tem todo o direito de chorar e viver o luto por ela. A reconstrução da sua identidade começa quando você olha para as suas novas marcas não como defeitos que precisam ser escondidos, mas como os mapas da sua sobrevivência”, finaliza.

Se Cuida, Preta

Lembra do projeto criado por Carolina e mencionado acima? Ele já impactou a vida de cerca de quatro mil pessoas. Através de palestras, rodas de conversas, distribuições de guias de saúde e acolhimente, o Se Cuida, Preta tem ajudado milhares de mulheres enquanto busca alcançar a equidade racial na saúde.



Fonte: A Massa

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