Para os turistas que sonham com Buenos Aires, preparem o bolso

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Buenos Aires continua sendo um destino que conquista pela gastronomia, pela arquitetura e pela oferta cultural. Mas quem planeja conhecer a capital argentina precisa preparar o bolso. Entre carnes tradicionais, alfajores, museus e passeios por pontos turísticos, a experiência segue atraente, embora os preços tenham mudado significativamente para o turista brasileiro desde o início da gestão do presidente Javier Milei.

Entre os dias 6 e 9 de outubro, o portal A TARDE esteve na capital argentina para uma imersão durante o evento Technovation, realizado pela Philip Morris. A viagem incluiu hospedagem no Hilton Buenos Aires, em Puerto Madero, uma das áreas conhecidas da cidade, além de visitas a restaurantes e atrações turísticas.

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A experiência teve um recorte específico: a reportagem circulou principalmente por áreas turísticas e estabelecimentos de padrão elevado, em uma viagem a convite da Philip Morris. Portanto, os gastos relatados não representam necessariamente o custo de uma viagem econômica. Ainda assim, os preços encontrados ajudam a entender por que o planejamento financeiro se tornou tão importante para quem pretende visitar Buenos Aires.

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Carne argentina continua protagonista

A gastronomia foi um dos pontos altos da viagem. Em três dias, a reportagem passou por restaurantes de diferentes especialidades, com destaque para cortes tradicionais da carne argentina, empanadas e sobremesas.

Na noite de 6 de outubro, o jantar no Michel Rolland Grill & Wine teve como destaques a provoleta (um queijo provolone frito), as empanadas, o bife de chorizo — corte semelhante ao contrafilé — e o lomo, equivalente ao filé mignon. A refeição terminou com uma mousse acompanhada de farofa de chocolate, que também chamou a atenção.

  • 1 de 3Lomo no Michel Rolland Grill & Wine
    Lomo no Michel Rolland Grill & Wine |
  • 2 de 3Empanada com vinho no Michel Rolland Grill & Wine
    Empanada com vinho no Michel Rolland Grill & Wine |
  • 3 de 3Provoleta no Michel Rolland Grill & Wine
    Provoleta no Michel Rolland Grill & Wine |

A qualidade da comida e o atendimento fizeram da experiência uma das referências gastronômicas da viagem. A carne, preparada de acordo com a tradição local, continua sendo um dos atrativos para quem visita a Argentina. Eu, como um bom baiano, costumo ser “bairrista”, mas aqui preciso saudar nossos hermanos pela qualidade das carnes.

No dia seguinte, a reportagem esteve no Estilo Campo, restaurante que serviu empanadas, T-bone — que estava incrível acompanhado de um típico chimichurri — e “flan de la caza”, uma espécie de pudim acompanhado de doce de leite. A sobremesa tinha uma apresentação pouco convencional, mas agradou pelo sabor.

  • 1 de 2T-bone do Estilo Campo
    T-bone do Estilo Campo |
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    “Flan de la caza” do Estilo Campo |

Foi nesse estabelecimento que tivemos acesso ao valor total da conta: 2,5 milhões de pesos argentinos para 12 pessoas, mais de R$ 8 mil na conversão utilizada pela reportagem. O montante oferece uma referência concreta do custo de uma refeição em grupo em um restaurante desse perfil, embora não possa ser tomado como parâmetro para todos os estabelecimentos da cidade.

Já em 8 de outubro, a visita ao La Alacena Trattoria trouxe uma experiência diferente, com “salumi & farinata” — basicamente um prato de frios —, lasanha (a melhor de minha vida) e tiramisù. Além da comida, uma conversa com um argentino ajudou a compreender como a situação econômica do país tem repercutido na vida cotidiana, com críticas ferrenhas à condução econômica do atual presidente Javier Milei.

Lasagna alla bolognese no La Alacena Trattoria
Lasagna alla bolognese no La Alacena Trattoria – Foto: Leo Almeida | Ag. A TARDE

Prato triplicou de preço em três anos

Uma das comparações mais expressivas da viagem está no preço do T-bone. Em julho de 2022, o prato custava 3.950 pesos argentinos, o equivalente a cerca de R$ 84 pela cotação considerada na época. Na visita ao Estilo Campo, em outubro de 2026, o valor encontrado foi de 79 mil pesos, aproximadamente R$ 263 pela conversão usada na reportagem.

A comparação aponta uma alta expressiva em reais. É importante considerar, porém, que se trata do preço de um prato em um restaurante específico e que o resultado também depende da cotação utilizada em cada período.

A conta não se resume à carne. Mesmo despesas menores entram no orçamento de quem passa alguns dias na cidade. Uma garrafa de água comprada em um supermercado custou cerca de R$ 6, enquanto um alfajor da marca Havanna foi encontrado por R$ 7 em uma loja da Galerías Pacífico.

Em outra faixa de preço, um pacote do “alfajor Rasta”, vendido em lojas da região turística do Caminito, custava cerca de R$ 50. Já um doce de leite da marca Cachafaz foi comprado por aproximadamente R$ 40, abaixo dos cerca de R$ 80 encontrados como referência de preço no Brasil. O doce de leite da Havanna, por sua vez, ultrapassa R$ 100 na Galerías Pacífico — essa não tive coragem de comprar.

Os exemplos mostram que a experiência de compra varia bastante de acordo com a marca, o produto e o local. Há itens que podem compensar em comparação com o Brasil, enquanto outros pesam no orçamento, especialmente quando são comprados em lojas voltadas aos turistas.

Museus e passeios culturais

Buenos Aires também mantém uma oferta cultural relevante. Um dos destaques foi o Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (Malba), cuja entrada custou 14 mil pesos, aproximadamente R$ 66 na conversão utilizada durante a viagem.

O museu reúne obras de artistas latino-americanos e abriga trabalhos brasileiros importantes, como Abaporu, de Tarsila do Amaral, além de pinturas de Cândido Portinari e esculturas de Maria Martins. Para quem gosta de arte, a visita vale o espaço no roteiro.

A comparação com 2022 também chama a atenção: naquele período, a entrada variava entre 500 e 700 pesos, com valor de até R$ 30 pela cotação da época. Como ocorre com outros preços, a comparação precisa levar em conta tanto a mudança no valor nominal quanto as diferenças cambiais entre os períodos.

Nas proximidades do Malba, também é possível visitar gratuitamente a Floralis Genérica, uma grande estrutura metálica em formato de flor, e o prédio da Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires (UBA). São alternativas para complementar o passeio sem acrescentar custos de ingresso.

  • 1 de 4Abaporu, de Tarsila do Amaral
    Abaporu, de Tarsila do Amaral |
  • 2 de 4La gran tentación, de Antonio Berni
    La gran tentación, de Antonio Berni |
  • 3 de 4Quadro Simpatía (La rabia del gato), de Remedios Varo
    Quadro Simpatía (La rabia del gato), de Remedios Varo |
  • 4 de 4Floralis Genérica, perto da Faculdade de Direito da UBA
    Floralis Genérica, perto da Faculdade de Direito da UBA |

Câmbio já não garante viagem barata

Na cotação de referência consultada pela reportagem no Banco Central do Brasil em 8 de outubro, R$ 1 correspondia a aproximadamente 303 pesos argentinos. Essa relação pode variar conforme o dia, o tipo de operação e o serviço utilizado para o pagamento ou a conversão.

A comparação com viagens anteriores ajuda a dimensionar a mudança. Em julho de 2016, quando estive pela primeira vez em Buenos Aires, a relação entre as moedas era muito diferente. Desde então, a economia argentina atravessou períodos de inflação elevada e desvalorização cambial, enquanto os preços dos produtos e serviços passaram por reajustes sucessivos.

A combinação desses fatores ajuda a explicar por que o turista brasileiro já não pode presumir que encontrará uma cidade barata apenas por causa da conversão do real para o peso. Um detalhe especial que vale ser ressaltado: muitas localidades estão com preços dolarizados e passaram a aceitar apenas a moeda estadunidense, principalmente nas proximidades do aeroporto.

Logo, o câmbio, isoladamente, não determina quanto custa viajar: também é preciso considerar o preço cobrado por refeições, hospedagem, atrações e produtos.

Um indicador dessa mudança foi o Índice Big Mac, publicado pela revista The Economist. Em janeiro de 2025, o levantamento apontou que o sanduíche custava US$ 7,37 na Argentina, o segundo preço mais alto do mundo naquele momento, atrás apenas da Suíça. O dado não representa os preços atuais de outubro de 2026, mas ilustra como os produtos argentinos ficaram caros em dólares em relação a outros países.

Crise econômica afeta a população

O encarecimento da viagem ocorre em um país que ainda enfrenta dificuldades econômicas e sociais. A inflação anual desacelerou em comparação com os níveis registrados quando Javier Milei assumiu a Presidência, em dezembro de 2023, mas isso não significa que o custo de vida tenha deixado de pressionar o orçamento das famílias.

Dados citados pela BBC News Mundo apontam crescimento de 2,2% do Produto Interno Bruto (PIB) argentino no primeiro semestre de 2026, em relação ao mesmo período do ano anterior. A inflação anual, que havia superado 211% no início do governo Milei, recuou para 33,5%. Ao mesmo tempo, aproximadamente um terço da população permanecia na pobreza, enquanto o desemprego se mantinha próximo de 8%.

Durante a viagem, a conversa com um morador reforçou a percepção de que a situação econômica segue no centro das preocupações cotidianas. Ele relatou a alta dos preços, a perda do poder de compra e a insatisfação com o governo, em um cenário de protestos contra a gestão de Milei.

A realidade de quem vive na Argentina, portanto, é diferente da de quem chega com moeda estrangeira para passar alguns dias. Enquanto o visitante calcula gastos em reais, os moradores precisam lidar com preços e rendimentos que não necessariamente avançam no mesmo ritmo.

Segurança e planejamento

Apesar das dificuldades econômicas, a experiência da reportagem nas regiões centrais e turísticas visitadas foi de sensação de segurança. Essa percepção, no entanto, se limita aos locais e horários em que estivemos e não permite generalizar as condições para toda a cidade.

Também é importante lembrar que Buenos Aires oferece alternativas para diferentes orçamentos. É possível economizar ao escolher hospedagens mais simples, pesquisar restaurantes fora dos circuitos mais caros, utilizar transporte público e selecionar atrações gratuitas. A viagem acompanhada pelo A TARDE teve compromissos ligados a um evento e incluiu estabelecimentos de padrão elevado, o que influenciou os gastos observados.

O que os preços encontrados mostram é que o planejamento deve ir além da passagem aérea e da hospedagem. Alimentação, ingressos, compras e deslocamentos precisam entrar na conta antes do embarque, com uma margem para oscilações cambiais.

Para além dos preços, atente-se para a temperatura. Buenos Aires não é apenas “inverno europeu”. Quando estive por lá agora o clima estava frio, variando entre 8ºC e 16ºC, com ventos fortes. No entanto, conversando com moradores, cheguei a ouvir relatos de temperaturas acima dos 30ºC durante o verão. Logo, se for viajar para a capital argentina, não vá esperando que necessariamente você vai desenterrar as roupas de frio.

Em suma, Buenos Aires continua valendo a visita pela gastronomia, pela arte e pela arquitetura. A carne argentina mantém seu apelo, os museus oferecem experiências relevantes e a cidade segue reunindo atrações para diferentes perfis de viajantes. Mas a imagem de destino barato para brasileiros já não corresponde, necessariamente, à realidade.



Fonte: A Tarde

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