Sem bets, clubes encaram rombo e buscam novos milhões

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Clubes se organizam após fim do patrocínio das bets |  Foto: Raphael Muller/Ag. A Tarde

O futebol brasileiro entrou em uma nova realidade. Depois de alguns anos com casas de apostas dominando camisas, placas de publicidade e contratos milionários, os clubes agora precisam descobrir como será a vida sem uma das principais fontes de dinheiro do mercado esportivo nacional.

A mudança ficou ainda mais evidente após a Medida Provisória do Governo Federal que proibiu a operação e a publicidade das bets no país. Desde então, clubes começaram a retirar marcas das camisas, suspender contratos e correr atrás de empresas de outros setores para ocupar espaços que, até pouco tempo atrás, valiam dezenas, e até centenas, de milhões de reais.

Só para ter ideia do tamanho da bolada, as casas de apostas colocaram cerca de R$ 1,03 bilhão nos clubes da Série A em 2025. O valor foi 66% maior do que os R$ 618 milhões registrados em 2024. As bets responderam por aproximadamente um terço de toda a receita comercial da elite naquele ano.

Os números fazem parte do Relatório Convocados 2026, produzido pela Convocados e OutField.

Quando a conta considera todo o dinheiro movimentado pelos clubes, porém, o tamanho da dependência muda. Os times da Série A arrecadaram R$ 14,3 bilhões em 2025, o que significa que o dinheiro das apostas correspondeu a 7,2% do faturamento total. Direitos de transmissão, venda de jogadores, bilheteria, premiações e outras receitas ainda representaram uma fatia bem maior.

É possível manter os clubes mesmo sem o dinheiro das bets, mas algumas equipes vão sentir bem mais o baque do que outras.

Antes das bets, a camisa valia bem menos

Voltar para 2018 ajuda a entender o tamanho da transformação. Naquele ano, antes da explosão das casas de apostas no país, a Caixa Econômica Federal era uma das grandes financiadoras das camisas brasileiras.

Entre os clubes da Série A patrocinados pelo banco, Bahia e Vitória embolsavam R$ 6 milhões cada. OFlamengo recebia R$ 25 milhões anuais;Atlético-MG, Cruzeiro, Botafogo e Santos tinham contratos na faixa dos R$ 10 milhões. .

Somados apenas os valores fixos divulgados de 12 clubes da Série A patrocinados pela Caixa naquele ano, a média ficava em aproximadamente R$ 8,1 milhões por equipe. É uma comparação imperfeita, já que não inclui todos os patrocinadores de todos os clubes, mas serve como retrato do patamar comercial daquele momento.

Sete anos depois, o cenário parecia outro planeta

Em 2025, os R$ 1,03 bilhão colocados pelas bets nos 20 clubes que disputaram a Série A representariam, em uma divisão simples, aproximadamente R$ 51,5 milhões por clube. Esse número não significa que cada time recebeu essa quantia nem corresponde exclusivamente ao patrocínio máster, mas mostra a dimensão do salto provocado pelo setor.

Em março de 2025, todos os 20 clubes da Série A tinham algum acordo com empresas de apostas, e 18 deles carregavam uma bet como patrocinadora máster. Ou seja: a exceção havia virado regra.

Bahia sentiu o salto no bolso

Em 2018, o Bahia recebia R$ 6 milhões fixos da Caixa pelo patrocínio máster, com possibilidade de alcançar R$ 9,5 milhões caso determinadas metas esportivas fossem cumpridas.

Cinco anos depois, já na era das bets, o Esquadrão fechou com a Esportes da Sorte por aproximadamente R$ 57 milhões em três temporadas — cerca de R$ 19 milhões por ano. Na época, o acordo já foi tratado como o maior patrocínio da história do clube.

Mas em 2025, o Bahia assinou com a Viva Sorte Bet por cerca de R$ 40 milhões anuais. Comparando apenas os valores nominais, o patrocínio máster saiu de R$ 6 milhões, em 2018, para R$ 40 milhões, em 2025: um aumento de aproximadamente 567%.

Bahia segue sem patrocínio master

Bahia segue sem patrocínio master | Foto: Rafael Rodrigues/EC Bahia

A parceria, no entanto, acabou antes do previsto. Em janeiro deste ano, Bahia e Viva Sorte Bet anunciaram uma rescisão amigável. A Viva Sorte Capitalização permaneceu como patrocinadora secundária, enquanto o espaço máster ficou disponível.

O caso tricolor também mostra por que é complicado colocar toda a evolução financeira na conta das apostas. O Bahia passou a integrar o City Football Group em 2023 e recebeu uma injeção pesada de recursos. Somente entre 2023 e 2025, os aportes do grupo passaram de R$ 1 bilhão, enquanto centenas de milhões foram investidos em contratações.

Vitória também multiplicou valor

O Leão também recebia R$ 6 milhões da Caixa em 2018. Em 2024, já com as casas de apostas dominando o mercado, o clube fechou com a Betsat por aproximadamente R$ 10 milhões.

No ano passado, a 7K fechou um contrato de três temporadas com o Vitória por cerca de R$ 20 milhões anuais, maior patrocínio máster da história do Rubro-Negro. Em sete anos, portanto, o espaço principal da camisa saltou de R$ 6 milhões para R$ 20 milhões por temporada, aumento nominal de aproximadamente 233%.

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Com a proibição das apostas, a relação entrou em turbulência. A empresa notificou o Vitória sobre a intenção de rescindir o acordo, enquanto a diretoria rubro-negra contestou a decisão e defendeu que o contrato deveria apenas ficar suspenso enquanto a medida provisória estivesse em discussão.

Torcedor do Vitória, Lucas Silva, de 45 anos, defende que uma mudança dessa proporção precisava de um período maior de adaptação, principalmente porque os clubes montaram seus planejamentos financeiros contando com contratos de longo prazo. Para ele, a maneira como a medida foi apresentada também levanta questionamentos sobre o momento político escolhido para a decisão.

“Eu acho que uma medida dessas não poderia ser tomada de uma hora para outra. Os clubes fizeram contratos, montaram planejamento e contavam com esse dinheiro. Na minha opinião, faltou pensar nas consequências antes de simplesmente proibir. Também vejo essa decisão como uma medida tomada neste momento com interesse eleitoral, para tentar ganhar votos”, afirmou Lucas.

Vitória segue no imbróglio com a 7K Bet

Vitória segue no imbróglio com a 7K Bet | Foto: Victor Ferreira/EC Vitória

E os salários? As bets inflacionaram o mercado?

Os gastos dos clubes brasileiros com jogadores dispararam durante o mesmo período em que as casas de apostas cresceram no futebol. Isso não significa, porém, que uma coisa tenha sido causada exclusivamente pela outra.

Segundo levantamento da Sports Value, os principais clubes do país gastaram aproximadamente R$ 4,1 bilhões com salários, direitos de imagem e bonificações em 2023. Em 2024, a conta saltou para R$ 5 bilhões, crescimento de 22%.

Na metodologia da própria Sports Value, o Bahia apareceu com cerca de R$ 294 milhões em gastos com jogadores em 2024, enquanto o Vitória registrou R$ 71 milhões. Os números consideram salários e outros pagamentos relacionados aos atletas.

Em 2025, a escalada continuou quando se olha para os custos gerais do futebol. Segundo outro estudo da Sports Value, os 20 clubes analisados gastaram R$ 11,6 bilhões com o departamento, contra R$ 8,9 bilhões no ano anterior. Nesse cálculo entram salários, operação do futebol, contratações e custos relacionados às transferências.

No mesmo levantamento, as receitas de marketing cresceram 45% e atingiram R$ 3,2 bilhões em 2025. A Sports Value aponta os valores elevados desembolsados pelas casas de apostas como um dos fatores que puxaram essa alta.

Só que as bets dividem espaço com outros motores dessa inflação. SAFs passaram a injetar capital em equipes como Bahia, Botafogo, Cruzeiro e Atlético-MG; direitos de transmissão cresceram; clubes brasileiros passaram a arrecadar mais com venda de atletas; premiações internacionais aumentaram; e as receitas totais bateram recordes.

Ou seja: as casas de apostas deram mais munição aos clubes e ajudaram a elevar a capacidade de investimento, mas não há base para afirmar que elas, sozinhas, inflacionaram os salários dos jogadores.

Talvez nenhum clube represente tão bem essa montanha-russa quanto o Corinthians.

Em 2021, a Hypera Pharma ocupava o espaço máster pagando aproximadamente R$ 17 milhões no contrato original, valor que chegou depois a cerca de R$ 22 milhões anuais com correções.

Em janeiro de 2024, a VaideBet apareceu oferecendo R$ 120 milhões por temporada, além de R$ 10 milhões em luvas. O contrato de R$ 370 milhões por três anos virou, naquele momento, o maior do futebol brasileiro.

O acordo acabou meses depois em meio a uma crise envolvendo a intermediação do contrato. A Esportes da Sorte assumiu o lugar por R$ 309 milhões em três anos e, em 2026, renovou aumentando o valor para R$ 150 milhões fixos anuais, com possibilidade de alcançar R$ 200 milhões mediante metas.

A perda de uma fonte tão grande de receita preocupa parte da torcida. Samuel Cerqueira, de 20 anos, lamenta o impacto que a saída das casas de apostas pode provocar nas contas do Corinthians, mas diz que sua relação com o tema mudou depois de acompanhar de perto os efeitos do vício em apostas dentro da própria família.

“Claro que a gente lamenta perder um patrocínio que coloca muito dinheiro no clube, porque isso pode fazer falta. Mas, ao mesmo tempo, eu sou contra as bets. Tenho uma pessoa na minha família que é viciada em apostas e sei de perto o problema que isso pode causar. Então, mesmo pensando no Corinthians, acho que os clubes precisam buscar outras formas de conseguir esse dinheiro”, contou Samuel.

E na Europa?

Uma investigação do grupo Investigate Europe, publicada em 2025, identificou algum tipo de parceria com empresas de apostas em 296 dos 442 clubes europeus analisados em 31 ligas. Em 145 equipes, marcas do setor apareciam na frente das camisas.

A diferença aparece principalmente no peso das bets para os grandes clubes. Na Inglaterra, a própria Premier League decidiu retirar voluntariamente as empresas de apostas da parte frontal das camisas a partir da temporada 2026/27, embora as marcas ainda possam explorar outros espaços comerciais.

Antes da mudança, uma estimativa publicada pelo Irish Times apontava que a substituição desses contratos poderia abrir um buraco de até 80 milhões de libras por temporada. Parece muita coisa, mas os clubes da Premier League faturaram, juntos, 6,8 bilhões de libras em 2024/25, segundo a Deloitte. A perda estimada equivaleria a pouco mais de 1% desse total.

Os gigantes europeus também possuem uma base comercial muito mais diversificada. Segundo o Football Money League 2026, da Deloitte, os 20 clubes de maior receita do planeta arrecadaram juntos 12,4 bilhões de euros em 2024/25. Só as receitas comerciais somaram 5,3 bilhões de euros, enquanto o Real Madrid faturou sozinho quase 1,2 bilhão.

Futebol brasileiro ficou mal-acostumado?

Durante alguns anos, as bets disputaram os principais espaços das camisas e ofereceram cifras que bancos, empresas de varejo, indústrias e companhias tradicionais geralmente não estavam dispostos a acompanhar.

Em 2024, 68% dos patrocinadores máster das Séries A, B e C já eram empresas de apostas. Um ano depois, todos os integrantes da primeira divisão tinham alguma ligação comercial com uma bet. O resultado foi uma valorização brutal dos espaços comerciais. Para os clubes, ótima notícia enquanto a torneira permaneceu aberta.

Agora, o desafio é descobrir quanto essa camisa realmente vale sem empresas dispostas a pagar acima do mercado tradicional. Os primeiros movimentos começaram. Montadoras, bancos, empresas de tecnologia e inteligência artificial aparecem entre os setores interessados.

Fonte: A Massa

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