Palhaço assassino? Vídeos virais reacendem lendas urbanas em Salvador

9

Boatos de um suposto palhaço com faca na mão tem circulado pelo povo soteropolitano nas redes sociais |  Foto: Reprodução / Imagem feita por I.A

Nas últimas semanas, imagens de pessoas vestidas de palhaço segurando uma faca e andando em diferentes ruas por bairros de Salvador chamaram a atenção do povo soteropolitano. Em meio aos boatos, surgiu o questionamento dos internautas sobre a veracidade dos fatos e a associação com as históricas lendas urbanas. Porém, o período próximo ao dia das bruxas costuma ser de alerta para esse tipo de situação.

Desde já, é importante esclarecer que, por parte das autoridades policiais, não há registro formal e oficial sobre ocorrência envolvendo supostos ‘palhaços assassinos’ ou que tenha ocorrido algum crime com esta característica. Ao MASSA!, uma fonte policial relatou que as imagens se tratam de Inteligência Artificial (I.A) ou pessoas se fantasiando apenas para compartilhar os vídeos e propagar uma história de medo nas redes sociais.

Mas, o que acontece?

Entre os boatos, estavam denúncias na web de que o personagem havia sido supostamente visto em localidades como Subúrbio, São Marcos, Uruguai, Liberdade, Cidade Nova e Alto das Pombas. Para esclarecer a história, o MASSA! procurou o pesquisador e especialista em segurança pública, Jorge Melo, que explicou a situação envolvendo vídeos e imagens falsas ganhando força no período próximo ao Dia das Bruxas.

“O que estamos vivenciando é um caso clássico de pânico moral, não um caso criminal. Todo ano, próximo ao Dia das Bruxas, esse boato retorna. Neste ano, com um agravante: os vídeos gerados por Inteligência Artificial”, aponta.

Leia Também:

Conforme a explicação do professor, o fenômeno pode ser dividido em três etapas que interferem diretamente na percepção e na repercussão, como:

  • O gatilho. Um vídeo mal feito, borrado e noturno. Cerca de 90% desse material é produzido por IA ou oriundo de outros estados;
  • Depois, vem a viralização por grupos de WhatsApp de bairro e páginas que espalham o conteúdo sem checagem;
  • Por fim, a reação desproporcional: pais que não deixam os filhos irem à rua, comércio fechando mais cedo e a PM sendo acionada para “ronda anti-palhaço”.

Relembre o vídeo:

Jorge explica que a definição correta para esse caso é Folk Devil (ou Demônio Popular, conceito criado pelo sociólogo Stanley Cohen em 1972), No conceito, a sociedade idealiza um personagem como rival em comum, que tenha características marcantes e fáceis de idealizar um conflito, que propaga violência e insegurança. Neste cenário, o palhaço se encaixa perfeitamente.

Correlação com lendas urbanas

O suposto conto do palhaço assassino não é a única história assombrosa a repercutir entre a população sem haver fatos concretos ou registro das autoridades. Assim, o fato passa a figurar no grupo das lendas urbanas, como por exemplo o Velho do Saco e a Kombi Branca que raptava crianças, que popularizaram na sociedade baiana nas décadas passadas.

“Nas décadas de 1980 e 1990, em bairros como Itapuã, Liberdade e Plataforma, todos conheciam a história da Kombi branca que levava crianças. Nunca ninguém anotou a placa, nunca houve um B.O. registrado envolvendo essa Kombi. Mas a história servia para o controle social: “não converse com estranhos”, explica.

“Essas lendas urbanas, como o Velho do Saco, a Kombi Branca e o Palhaço de 2026, têm em comum três elementos: a vítima ideal, sempre a criança; o criminoso sem rosto, nunca identificado; e a ausência total de registro oficial. São crimes sem vítima, sem autor e sem local. É rumor, não ocorrência. Mas cumprem uma função social: reforçam a vigilância e justificam o recolhimento”, completa.

Print de palhaço andando pelas ruas nas redes sociais

Print de palhaço andando pelas ruas nas redes sociais | Foto: Reprodução / Imagem feita por I.A

O especialista citou pesquisas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Sociabilidade da UFRJ. Segundo as escrituras, o período de Halloween não tem um grande impacto nos índices de criminalidade no Brasil. No entanto, a presença da I.A nos dias atuais é preponderante para potencializar o pânico, além de que pode causar impactos reais na segurança pública.

“Nesse sentido, o perigo não é o palhaço existir. O perigo é o que o boato causa em termos de desvio de recursos destinados a prover segurança pública, pois cada viatura, cada guarnição que a PM desloca para checar um suposto “palhaço na Boca do Rio” é uma viatura a menos para atender a um roubo ou a uma ocorrência real de violência doméstica”, destaca.

Gatilhos psicológicos

O MASSA! buscou uma psicóloga para entender o quanto um boato assustador pode interferir nos pensamentos e ações da população. Nesse ponto de vista, a doutora neuropsicóloga Fernanda Santiago explicou que uma ameaça não precisa estar comprovada para produzir efeitos emocionais reais, como medo, ansiedade e a sensação de insegurança.

“A repetição dessas narrativas, principalmente por meio das redes sociais e de grupos de mensagens, pode contribuir para a construção de uma percepção coletiva de perigo. As pessoas passam a ficar mais vigilantes, interpretar situações cotidianas como potencialmente ameaçadoras e, em alguns casos, modificar seus comportamentos”, relata.

Doutora neuropsicóloga Fernanda Santiago explicou os efeitos de boatos assombrosos na psicologia humana

Doutora neuropsicóloga Fernanda Santiago explicou os efeitos de boatos assombrosos na psicologia humana | Foto: Arquivo Pessoal

Em um recorte para o período do Dia das Bruxas, a aproximação entre os fatores psicológicos e o sentimento de medo, principalmente ao envolver pessoas fantasiadas. Deste modo, a associação entre o boato e a realidade pode ser associada pela mente humana, gerando desconfiança com qualquer sinal avistado nas ruas.

“Precisamos considerar que o medo também é socialmente compartilhado. Por isso, a responsabilidade na circulação de informações é fundamental. Não se trata de desconsiderar possíveis situações de violência, mas de evitar que informações sem confirmação sejam tratadas como fatos, alimentando um estado de alerta coletivo que pode comprometer a sensação de segurança e a própria liberdade de circulação das pessoas”, finaliza.

Fonte: A Massa

Artigos relacionados

Geral

Novo cantor do Swing do Fora estreia em festa de 23 anos da banda

James é o novo vocalista da banda Swing do Fora |  Foto:...

Geral

Seu corpo esconde outras possibilidades de prazer; descubra quais

O prazer sexual pode começar muito antes de qualquer estímulo nas regiões...

Geral

Tom da Bahia leva axé ao Congresso de Psiquiatria em SP

Tom da Bahia brocou |  Foto: Divulgação A música da Bahia vai...

Geral

Claudya Costta celebra a música negra em Salvador

Espetáculo “Acoustic Portal Afro Sonoro” acontece no dia 8 de novembro, no...