Mãe Bernadete foi assassinada no dia 17 de agosto de 2023
No mês da Consciência Negra, período dedicado à valorização da história, da cultura e da resistência do povo negro, a trajetória de lideranças que lutaram pelos direitos das comunidades quilombolas ganha ainda mais destaque. Uma dessas figuras é Maria Bernadete Pacífico, conhecida como Mãe Bernadete, cuja atuação em defesa do território, da memória e da cultura afro-brasileira permanece como símbolo de resistência.
Nascida em 1951, Mãe Bernadete foi ialorixá, ativista e liderança quilombola. Ela ganhou reconhecimento pela atuação no Quilombo Pitanga dos Palmares, localizado em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador.
Como sambadeira e liderança cultural, dedicou parte de sua vida à preservação da memória afro-brasileira. Em 2006, fundou a Casa do Samba de Santo Amaro, espaço voltado à valorização do samba de roda e da cultura popular quilombola.
Ela costumava se apresentar como “pastora e sambadeira”, expressão que reunia sua ligação com a espiritualidade e as manifestações culturais da comunidade.
Além da atuação cultural e religiosa, Mãe Bernadete também participava diretamente da organização econômica do quilombo. Ela coordenava uma associação de aproximadamente 120 agricultores, responsáveis pela produção e comercialização de farinha para vatapá, além de frutas e verduras.
Em 17 de agosto de 2023, Mãe Bernadete foi assassinada aos 72 anos, dentro do Quilombo Pitanga dos Palmares. A liderança foi morta com 25 disparos de arma de fogo. Segundo as investigações, o crime estaria relacionado a conflitos envolvendo o tráfico de drogas e disputas pelo controle territorial na região.
Forte representação na defesa pelas políticas públicas
Mãe Bernadete foi assassinada em agosto de 2023
Entre 2009 e 2016, atuou como secretária de Políticas de Promoção da Igualdade Racial de Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador. Durante o período, desenvolveu ações de valorização da cultura quilombola, como a criação de um selo de certificação de produtos e iniciativas de incentivo à agricultura comunitária. Também articulou intercâmbios internacionais entre comunidades quilombolas brasileiras e outras comunidades negras no exterior.
Além disso, esteve à frente da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), representando comunidades de diferentes regiões do país. Durante sua atuação, denunciou casos de grilagem de terras, exploração ilegal e violência contra povos quilombolas.
Em julho de 2023, ganhou destaque nacional ao discursar diante da então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Rosa Weber. Na ocasião, denunciou a omissão das autoridades e cobrou medidas de proteção aos territórios e às comunidades quilombolas.
Caso Mãe Bernadete evidencia ameaças enfrentadas por comunidades quilombolas
Dados do Atlas dos Conflitos no Campo Brasileiro, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), apontam que 3.017 conflitos envolvendo comunidades quilombolas foram registrados entre 2000 e 2023
A morte de Mãe Bernadete expõe uma realidade enfrentada por diversas lideranças quilombolas no Brasil. Dados do Atlas dos Conflitos no Campo Brasileiro, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), apontam que 3.017 conflitos envolvendo comunidades quilombolas foram registrados entre 2000 e 2023. Desse total, 2.466 estavam relacionados à disputa por terras e 259 envolveram conflitos por água.
No mesmo período, foram contabilizadas 430 ameaças de morte, 69 prisões, 50 tentativas de assassinato e 48 assassinatos. A ameaça de morte aparece como a forma de violência mais recorrente contra essas comunidades.
O cenário também é preocupante quando observados os dados mais recentes da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ). O levantamento Resistência Quilombola identificou 46 assassinatos de lideranças e defensores de direitos humanos entre 2019 e 2024.
Já uma pesquisa anterior, realizada pela CONAQ em parceria com a organização Terra de Direitos, apontou que 32 quilombolas foram assassinados entre 2018 e 2022, número que representa o dobro da média registrada no período de dez anos anterior.
Na Bahia, a situação ganha ainda mais relevância diante da presença expressiva dessas comunidades. O Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) identificou aproximadamente 397 mil pessoas quilombolas no estado, quase 30% de toda a população quilombola do país. O levantamento representou um marco histórico, por ser a primeira vez que o Censo Demográfico incluiu perguntas específicas para identificar essa população no Brasil.
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A luta segue existindo
Jurandir Pacífico, filho de Mãe Bernadete, acompanha mais um julgamento do quarto acusado de participar da morte de Mãe Bernadete
Dando sequência na luta e no legado defendido pela quilombola, o Instituto Mãe Bernadete segue ativo fornecendo um espaço de acolhimento e ajuda para população.
O instituto foi fundado pelo seu filho Jurandir Pacífico e segue com intenção de seguir o compromisso com a defesa dos direitos das comunidades quilombolas, das religiões de matriz africana e da justiça social.
O trabalho é desenvolvido em ações nas áreas de educação antirracista, segurança alimentar, defesa dos territórios quilombolas e apoio a famílias vítimas da violência estrutural do Estado. Além disso, o grupo realiza oficinas, rodas de conversa, formações comunitárias, campanhas de sensibilização, além de promover pesquisas, incidência política e ações de base com foco na reparação histórica e promoção da dignidade.
Memória presente
Uma das principais formas de manter seu legado vivo é continuar falando sobre suas ideias, sua trajetória e seus ensinamentos.
Com esse propósito, em celebração ao mês da Consciência Negra, o MASSA! vai produzir, ao longo de novembro, uma série de reportagens especiais sobre a história e a luta de Mãe Bernadete, com o objetivo de destacar sua contribuição para a preservação da cultura afro-brasileira, a defesa dos territórios quilombolas, o combate ao racismo e à violência contra essas comunidades.