A busca por músculos maiores e melhora rápida da libido pode trazer consequências graves. Estudo recentemente publicado na revista científica Circulation associou o uso de esteroides anabolizantes a risco três vezes maior de infarto e quase nove vezes maior de cardiomiopatia, doença que compromete o músculo cardíaco. O alerta ganha relevância no Novembro Azul, dedicado à saúde masculina.
Embora a testosterona seja essencial ao organismo e possa ser prescrita diante de deficiência comprovada, seu uso para fins estéticos não deve ser confundido com reposição hormonal. No Brasil, a Resolução nº 2.333/2023 do Conselho Federal de Medicina proíbe a prescrição de anabolizantes para estética, ganho de massa muscular ou desempenho esportivo.
“Quando alguém usa testosterona ou outros anabolizantes para acelerar resultados na academia, não está necessariamente corrigindo uma deficiência. Pode estar expondo o organismo a danos cardiovasculares, sexuais e reprodutivos”, alerta o urologista Augusto Modesto, da Clínica Urológica da Bahia (CUB).

Riscos além da aparência – Além de infarto e cardiomiopatia, o uso indiscriminado pode favorecer hipertensão, alterações do colesterol, trombose, danos ao fígado, acne e mudanças de humor. Os hormônios sintéticos também inibem a produção natural de testosterona, podem reduzir o volume dos testículos e prejudicar a produção de espermatozoides.
“É um paradoxo: muitos jovens buscam os anabolizantes para melhorar a aparência e a vida sexual, mas podem terminar com infertilidade, disfunção erétil, distúrbios de coagulação, infarto fulminante e acidentes vasculares cerebrais! Além é claro, da dificuldade de recuperar a produção hormonal após interromper o uso”, explica Augusto Modesto.
Isso não significa que toda administração de testosterona seja inadequada. Em 2026, a Sociedade Brasileira de Urologia, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e a Associação Brasileira de Estudos em Medicina e Saúde Sexual divulgaram recomendações conjuntas para o diagnóstico e tratamento do hipogonadismo masculino, condição caracterizada por deficiência hormonal associada a sintomas.
Quando a reposição ajuda – Homens com hipogonadismo podem apresentar queda persistente da libido, perda de força e massa muscular, fragilidade óssea e redução da disposição. A deficiência também pode agravar a perda muscular associada à sarcopenia. Quando há indicação clínica, a reposição pode melhorar sintomas sexuais e contribuir para a massa magra e a saúde óssea. Mas envelhecer, sentir cansaço ou desejar hipertrofia não são, isoladamente, motivos para receber testosterona.
“Reposição hormonal não é fórmula de rejuvenescimento. O objetivo é restaurar níveis adequados em quem realmente precisa, depois de investigar possíveis causas dos sintomas, como obesidade, problemas de sono e outras doenças”, esclarece o urologista.
O diagnóstico exige avaliação clínica e pelo menos duas dosagens matinais de testosterona, em dias diferentes. O especialista também considera o desejo de ter filhos e eventuais contraindicações. Durante o tratamento, acompanha resultados, hemograma e saúde prostática, conforme cada caso.
Centro de Andrologia e Infertilidade – Em Salvador, a CUB implantou neste ano seu Centro de Andrologia e Infertilidade, voltado à saúde hormonal, sexual e reprodutiva masculina. Na unidade, o paciente é avaliado integralmente e, se tiver indicação de reposição, é acompanhado por ciclos de seis em seis meses, de perto, com controles bem definidos e ajustes de droga e doses.
Além disso, existe todo um cuidado para tratar a origem, orientando o paciente e encaminhando para outros especialistas, caso seja necessário. “A reposição hormonal é bem diferente da suplementação de testosterona. Esse limite, tênue, é definido pelo especialista, com ética, avaliações e acompanhamento para obter os melhores resultados”, avalia Augusto Modesto.
“Nem usar hormônios para buscar um corpo ideal nem ignorar uma deficiência comprovada. O caminho seguro é investigar, indicar o tratamento quando necessário e acompanhar cada paciente”, conclui o urologista.
Por: Carla Santana