história revela 40 anos de um verdadeiro amor pelo Carnaval

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Reviver os carnavais passados e os blocos que deixaram de existir devido ao surgimento do trio elétrico. Esse foi o fio condutor para a criação de um dos símbolos do Carnaval de Salvador, que há 40 anos, transforma saudade em tradição: o Bloco da Saudade.

Criado por Aniz Palma Cabral e um grupo de amigos, no verão de 1986, o movimento surgiu quando os trios dominavam os desfiles de Salvador e, desde então, tem se reinventado, conquistando novos públicos e preservando o antigo, sem perder a identidade.

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O grupo surgiu quando Aniz tinha 32 anos, mas o sentimento carnavalesco se manifestou quando ele ainda era um menino. Morador do bairro Saúde, o pequeno folião se apaixonou pela festa ao observar os blocos que passavam na Rua Jenipapeiro.

Em entrevista ao Portal A TARDE ele relembrou o momento em que foi fisgado pela magia do Carnaval.

“Colocavam um palanque e os blocos eram convidados para se apresentar lá. Eu via muitos blocos, pessoas vestidas de careta. Como nós éramos muito pequenos, nossos pais não deixavam que a gente fosse para a Avenida. Então, a gente assistia o Carnaval no próprio bairro mesmo e era muito interessante”, recordou o presidente do bloco.

A partir disso, ele começou a acompanhar o Come Lixo, um dos primeiros blocos criados na capital baiana, que tinha como viés, críticas sociais e políticas. Ao acompanhar os ensaios, o pequeno Aniz tomou gosto pelos instrumentos musicais e se tornou percussionista.

Assim, aos 10 anos veio a ideia de criar seu primeiro bloco: o Filhos da Saúde.

“Nós comprávamos caixotes de madeira e comprávamos couro de cobra curtido e nós fabricávamos os nossos próprios instrumentos, fazíamos os tambores. As frigideiras das cozinhas de nossas mães serviam como se fossem agogô. Coisa bem arcaica. Na época, saíamos em fila indiana tocando esses instrumentos com um estandarte na frente. Aí nós arrecadávamos alguns cruzeiros para tomar guaraná. Coisa de criança mesmo. Foi quando eu aderi à folia momesca”, contou.

Primeiro Carnaval do Bloco da Saudade, em 1986 | Foto: Cedoc A TARDE

Criação do Bloco da Saudade

A criação do Bloco da Saudade veio mais de 30 anos depois, em 1986, época em que os blocos de trio estavam no auge, movimento que Aniz nunca fui adepto, pois sempre gostou de percussão e sopro. Assim, em uma reunião com amigos no bairro da Saúde, veio a ideia de criar um bloco sem corda, que fosse de encontro à febre do momento.

“Era pra sair só um dia, mas o sucesso foi tão grande que saímos no sábado e voltamos a sair segunda-feira. Repetimos a dose. Saímos do bairro da Saúde até a Avenida [Sete de Setembro]. Pegávamos o contra fluxo, íamos de encontro aos blocos de trio. Quando o bloco de trio vinha, nós parávamos. Aí depois continuávamos fazendo a festa. Íamos na contramão”, disse.

No ano de criação, o grupo chegou a estampar o Jornal A TARDE, devido à força do movimento, situação que se repetiu diversas vezes nos anos seguintes.

Imagens publicada na edição de 12 de fevereiro de 1986

Imagens publicada na edição de 12 de fevereiro de 1986 | Foto: Arquivo CEDOC A TARDE

Mudanças necessárias

Com a passar dos anos, o Bloco da Saudade se atualizou, sem perder as raízes, mas entendendo que adaptações eram necessárias para tornar a folia mais ampla e inclusiva.

Tradicionalmente, apenas homens desfilavam e as mulheres começaram a ser aceitas a partir de 1995, quase 10 anos após a criação. “E foi um sucesso! O bloco cresceu assustadoramente”, contou.

Outra mudança marcante foi em relação à banda pois, no início, o bloco era composto apenas por percussão, acordeão, violino, banjo, escatela, entre outros instrumentos. No entanto, com a chegada do público feminino, o grupo aderiu à bateria e deixou somente os equipamentos de sopro.

“O bloco nunca colocou som mecânico, nem alto-falantes. Desde o início é totalmente acústico. Em 40 anos, nunca tivemos caixa de som”, garantiu o presidente.

No mesmo ano, Aniz viveu um momento que ele considera o mais marcante do bloco: quando o então presidente da Bahiatursa, Paulo Gaudenzi, reconheceu a importância do grupo e ofereceu apoio.

“Ele ficou emocionado de sentir aquela maneira espontânea de fazer o carnaval. Ele queria participar do bloco também. Fizemos uma amizade carnavalesca que perdurou. Tivemos a presença no bloco do ator Antônio Pitanga, do sambista Edil Pacheco, além do grande Batatinha, que foi homenageado pelo nosso bloco. São momentos que marcaram muito a nossa trajetória”, destacou.

Seu Aniz, durante ensaio na Saúde, em 2026

Seu Aniz, durante ensaio na Saúde, em 2026 | Foto: Arquivo

Legado

Emocionado, Aniz expressa a felicidade ao ver pessoas mais velhas curtindo a folia. “Me emociona muito ver pessoas da melhor idade em prantos na avenida, sentindo emoção ao relembrar o passado, de relembrar as músicas, verdadeiras melodias cantadas. Isso me emociona muito até hoje”, comemorou.

Aos 72 anos, o presidente do Bloco da Saúde mantém a tradição viva com o intuito de deixar como legado o “verdadeiro amor pelo Carnaval”.

“O legado fica para as pessoas que gostam do verdadeiro carnaval, da verdadeira música popular brasileira. É isso que eu quero: que o bloco perdure por muito mais que outros 40 anos. Que fique para aqueles que amam o verdadeiro carnaval”, desejou.

Quarenta anos depois, no auge da estreia, Seu Aniz ainda desfila com a mesma alegria e vive cada ano de festa com todo o coração.

“Eu não faço nenhum tipo de preparação especial. Eu vivo o carnaval o ano inteiro. Para mim é algo inato. Eu já nasci pronto para o carnaval”, finalizou.

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Programação do Carnaval 2026

Neste ano, o Bloco da Saudade tem como tema “O Jubileu de Esmeralda na passarela do samba!” Os desfiles serão no sábado, 14, segunda, 16 e terça-feira, 17.

Neste ano, serão mais de 1.400 associados seguindo a banda composta por 130 músicos de sopro e percussão.

O grupo embala foliões e associados de todas as gerações com sambas, clássicos e músicas da MPB, resgatando a essência do verdadeiro carnaval de rua.

Veja programação:

  • Sábado, 14 de fevereiro: Circuito Osmar (Campo Grande) ao Batatinha (Pelourinho) – concentração 11h, na rua Araújo Pinho, no Canela;
  • Seguda-feira, 16 de fevereiro: Circuito Osmar (Campo Grande) ao Batatinha (Pelourinho) – na rua Araújo Pinho, no Canela;
  • Terça-feira, 17 de fevereiro: Santo Antônio Além do Carmo -concentração 15h, no Largo do Santo Antônio Além do Carmo.

A fantasia pode ser adquirida por R$ 430,00 no PIX ou cartão em até 5x, através dos números (71) 98141-0026 e (71) 98828-2236.



Fonte: A Tarde

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