Gisele e Adriana –
Se o Carnaval de Salvador é uma engrenagem gigante, o combustível é o suor de quem não parou de trabalhar. Mas, para o legítimo soteropolitano, o cansaço parece ter um limite que o som do percussivo ignora. Entre o fim do expediente e o início da escala de sábado, uma legião de trabalhadores transformou o Circuito Barra-Ondina em seu momento de alívio.
Para muitos, a folia é uma corrida contra o relógio. A soteropolitana Larissa Alves, de 22 anos, sentiu o “aperto no coração” ao ver a festa começar na quinta, enquanto precisava descansar para o turno das 6h da manhã. Nesta sexta, porém, a vontade venceu o sono.
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“Para mim o Carnaval é uma festa incrível, que se eu pudesse eu viria todos os dias. Como eu trabalho, tipo ontem, por exemplo, quinta-feira, quando começou, eu tive muita vontade de vir, mas como eu trabalho seis horas da manhã, eu não consegui. Hoje eu vim na força da vontade, mas amanhã, sábado cedo, eu estou lá no trabalho, seis horas da manhã. Pretendo vir curtir sábado também, porque domingo eu tô de folga, então vou curtir à vontade, sábado, domingo, segundo e terça que eu tô de folga”, afirmou Larissa.
Larissa Alves
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O sentimento de “perda” por não ter a folga garantida é ecoado por Geovane Sousa, 25 anos. Para ele, o baiano enfrenta uma barreira invisível: trabalhar na “melhor cidade do mundo” justamente quando ela mais brilha. “A pior experiência daqui do baiano é que a gente tem que trabalhar na sexta-feira de Carnaval, desde a quinta, vamos dizer assim, e ainda tem que trabalhar no sábado e a gente não tem essa folga que o Carnaval conhece na melhor cidade do mundo”, desabafa.
Por outro lado, há quem veja na nova dinâmica da festa, com trios saindo mais cedo, uma oportunidade de ouro. A empreendedora Adriana Santana, 42 anos, dona de uma marmitaria, organizou a produção para não ficar de fora. Após uma jornada das 7h às 15h, ela correu para a Barra com um plano estratégico.
“Hoje eu tive o privilégio de vir aqui, comecei a trabalhar às sete da manhã até as três horas da tarde e tirei um tempo pra vir pra aqui. Eu tenho um tempo, mas eu um tempo limitado porque amanhã eu tenho uma nova jornada de trabalho. A gente não pode deixar de vir pra o Carnaval porque a gente precisa prestigiar a nossa cultura, o nosso axé, as bandas que estão aqui. Eu achei que hoje seria o dia ideal, que é um dia mais tranquilo, o pessoal ainda tá começando, é o segundo dia do carnaval então seria o momento ideal pra vir eu e minha amiga, ela trabalha comigo também. Curtir esse carnaval está maravilhoso eu estou achando tudo muito bem organizado, policiamento, muito bem assistido, então para mim hoje está sendo um dia divertido”, celebrou a empreendedora.

Gisele e Adriana
O entusiasmo de Adriana foi o “empurrãozinho” que a chef de cozinha Gisele Lima, 37 anos, precisava. Exausta após um dia de movimento intenso no restaurante, mesmo em um bairro distante da folia, Gisele quase desistiu. “Pra mim hoje foi gratificante, a gente não esperava ter o movimento que teve, por causa da festa em si. A gente tem um estabelecimento num bairro que não tem nada a ver com o Carnaval, mas graças a Deus foi tudo bem. Ela [a amiga] me incentivou a vir porque eu tava muito cansada e assim ela falou, ‘bora amiga, bora’. Eu vim, pra mim tá valendo muita pena”, completou Gisele.
Seja pela “força da vontade” ou pelo incentivo da patroa, o soteropolitano reafirma nesta sexta que o Carnaval é o seu direito de entrega.