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Azuis e brancos, leves, simbólicos. As guias dos Filhos de Gandhy são, há décadas, um dos maiores símbolos do Carnaval de Salvador. Mas, quando a Quarta-feira de Cinzas chega, para onde vão esses colares tão usados nos circuitos? Viram decoração, proteção ou memória?
Com nove anos de bloco, William Suárez confirma que a entrega das guias faz parte da tradição.
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“A gente distribui, eu mesmo distribuo para crianças e idosos. As pessoas pedem, a gente dá de lembrança, de recordação para guardar”, diz.
Ao lado dele, Zenil da Silva, há 11 anos no Gandhy, reforça que a distribuição é real, mas com critério.
“Tem gente que pensa que é troca por beijo. Não é. A guia é paz, é amor, é carinho, é respeito”, contesta.
Eles explicam que preferem entregar a crianças, idosos e ambulantes: “É para evitar essa interpretação errada. Quando tem respeito, carinho, é positivo”.
Mas são milhares de continhas pelas ruas, e nem todas encontram novos donos. As que ficam, são guardadas por eles com carinho: “Às vezes sobra. Eu mesmo tenho umas dez em casa. Guardo para o outro ano”.
Quanto à proteção que a guia poderia trazer, eles fazem questão de esclarecer: “Quem protege é Oxalá, é Xangô. A guia é símbolo”.
Esquadrão, saúde e proteção
Mas, se para uns a guia é um símbolo coletivo, para outros pode ser um amuleto individual que pede por saúde e proteção em momentos sofridos.
Com cinco anos saindo nas Filhas de Gandhy, Karine Prazeres, 48, carrega uma guia especial. Entre as clássicas contas azuis e brancas, um vermelho forma as cores do Esporte Clube Bahia.
“Essa conta me foi dada de presente por uma senhora. O esposo dela está doente, no hospital. Ela disse que como eu sou apaixonada pelo Bahia e ele também é, e como eu tenho energia positiva, me deu para puxar a saúde dele”, conta ela.
Assim, algumas guias carregam significados e apegos pessoais, como as de Alice Miranda, 44 anos, que estreia nas Filhas de Gandhy este ano. Diferente da tradição masculina do bloco original, ela confeccionou os próprios colares.
“Eu comprei as bolinhas, a linha, fiz todos nesses dois últimos dias. Não sei se vou dar. Talvez numa troca negociada. O bom e velho escambo”, brinca.
Se não houver troca, os colares têm destino certo. “Viram decoração, uso no dia a dia. O branco eu quero usar na sexta-feira. E vou guardar para o ano que vem”, planeja.
Para ela, a quantidade de guias também faz diferença, e embeleza a fantasia. “Eu gostei da coisa da numerologia. Acho representativo, queria sair com várias. Nas roupas das minhas amigas vieram uma, duas, mas eu queria várias. Por isso fui fazer e trouxe”, conta.

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E quem não sabe fazer?
Fora do bloco, há quem viva da procura pelas cores do Gandhy. Aos 61 anos, Jodade vende guias nos circuitos da Praça Municipal à Barra, e já se prepara para o famoso bloco dias antes de sua primeira saída.
“Procuram muito mais as azuis e brancas, as cores dos Filhos de Gandhy”, garante. Os valores variam de R$ 5 a R$ 250, dependendo do modelo. “Depende da guia. Essa normalzinha é cinco reais”, conta.
A demanda começa antes mesmo da entrega oficial das fantasias, e as guias seguem com seus foliões muito depois do final do Carnaval.
Há quem pendure no retrovisor do carro, quem coloque na porta de entrada como proteção, quem dê a pessoas queridas, quem faça a famosa “troca por beijo”.
Quando a festa acaba, o GPS do colar aponta para muitos destinos – todos carregando a necessidade de levar um pedaço do Carnaval consigo, mesmo quando a folia acaba.
