“A ultradireita transformou a liberdade em arma política”, diz pesquisador

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A disputa pelo significado da liberdade se tornou um dos eixos centrais da política contemporânea — e, segundo o filósofo e pesquisador Thor Veras, esse terreno vem sendo ocupado de forma estratégica pela ultradireita. “Ninguém se declara inimigo da liberdade”, afirma, ao explicar por que a palavra se tornou um instrumento poderoso de mobilização no debate público.

Nesta entrevista ao A TARDE, o professor analisa o que chama de “captura populista da liberdade”, fenômeno em que o vocabulário de lutas históricas é apropriado para justificar retrocessos democráticos. O tema é aprofundado na tese A captura populista da liberdade: crítica imanente da regressão democrática, vencedora do Prêmio CAPES na área de Filosofia.

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Para ele, essa mudança tem efeitos profundos: “Historicamente, liberdade significava derrubar correntes. Hoje, muitas vezes, significa derrubar direitos”. Ao longo da conversa, Veras também discute o papel das redes sociais na radicalização do debate público. Saiba mais na entrevista a seguir.

Em sua tese, você analisa o fenômeno da “captura populista da liberdade” pela extrema direita e como esse conceito tem sido utilizado para justificar retrocessos democráticos. Para iniciar nossa entrevista: como se deu esse processo de captura e em que momento ele começa a ganhar força?

Muito antes de Jair Bolsonaro bradar “liberdade acima de tudo” em suas moticatas golpistas e passeatas saudosistas da ditadura, de Donald Trump invocar a liberdade em suas recentes invasões neoimperialistas e, de Javier Milei transformar “libertad, carajo” em slogan político para o desmantelamento de direitos sociais, demagogos já exploravam o vocabulário da libertação.

Desde o início do século XX, movimentos autoritários aprenderam a usar a linguagem da liberdade para mobilizar massas enquanto desmontavam instituições democráticas. E o fascismo clássico já utilizava uma estética política transgressiva e uma retórica de libertação para conquistar trabalhadores enquanto promovia retrocessos autoritários. Isso foi posto em experimento nos laboratórios das ditaduras latino-americanas e o que vemos hoje é uma atualização dessa lógica.

Na última década, o velho lema “Deus, Pátria e Família” foi reembalado com um novo significante: liberdade. A palavra permaneceu a mesma, mas seu conteúdo foi radicalmente invertido. O resultado é perverso: em nome da liberdade, vende-se uma política que destrói direitos, ataca a ciência, desmonta instituições públicas e corrói as próprias condições da vida democrática. Em outras palavras: a linguagem da emancipação foi transformada em instrumento de regressão.

O que chamo de “populismo tardio” é a atualização contemporânea desse mecanismo. Trata-se de uma estratégia política profundamente digitalizada, influenciada pelo paleolibertarianismo e pelo tradicionalismo moral. Ela combina ultraliberalismo econômico com neoconservadorismo cultural e usa as próprias liberdades democráticas como instrumento para corroer a democracia liberal. Como o próprio Milei já declarou em entrevistas, a estratégia é clara: infiltrar-se no Estado para destruí-lo por dentro. Obviamente, há um profundo cinismo nesse processo. Lideranças que apoiam neonazistas na Alemanha, supremacistas brancos nos Estados Unidos ou grupos autoritários no Brasil apresentam-se, paradoxalmente, como os verdadeiros defensores da liberdade.

Minha pesquisa identifica três processos que permitiram essa inversão semântica. O primeiro foi a redução neoliberal da liberdade. Com a ascensão do neoliberalismo, a liberdade passou a ser entendida quase exclusivamente como ausência de interferência do Estado. Doutrinas libertarianas e a ideologia do “empreendedor de si” transformaram autonomia em mera escolha no mercado, esvaziando seu conteúdo coletivo e solidário.

O segundo processo foi a reação neoconservadora, que redefiniu a liberdade moral como defesa de uma autenticidade tradicionalista e excludente. Nesse discurso, apenas um “povo verdadeiro”, aqui definido por raça, religião ou tradição, seria legítimo portador da liberdade, enquanto minorias e movimentos progressistas passaram a ser retratados como ameaças.

O terceiro elemento é a síntese populista-digital. Operando em uma esfera pública globalizada e altamente mediada por plataformas digitais, a ultradireita funde essas duas distorções e produz aquilo que chamo de “autoritarismo libertário”: um discurso que transforma a liberdade em arma contra o próprio sistema democrático. Sucateiam a escola e a universidade pública para propagar a sua privatização (homeschooling) ou sua militarização; usam ministérios de promoção racial para serem racistas; ministérios de direitos humanos para atentar contra minorias; ministérios da saúde para propagar negacionismo científico ; enfim, todo uma rede do sistema político para propagar o inverso e se legitimam ideologicamente como a verdade é única noção de liberdade e povo acessíveis

Você afirma que a liberdade, historicamente associada a lutas emancipatórias, foi ressignificada pela ultradireita. Por que a disputa em torno da liberdade se tornou tão central no debate público?

Porque ninguém se apresenta como inimigo da liberdade. Ela é provavelmente a palavra mais poderosa da modernidade, o ideal que legitima projetos políticos, mobiliza afetos e organiza esperanças coletivas. Justamente por isso, tornou-se o principal campo de batalha simbólica do nosso tempo. A ultradireita percebeu algo estratégico: em vez de atacar a liberdade, seria muito mais eficaz redefini-la. Assim, um conceito historicamente associado à dignidade, à igualdade e às lutas por emancipação passou a ser mobilizado contra direitos sociais, políticas públicas e inclusão. O que era liberdade para viver com dignidade virou, muitas vezes, liberdade para excluir, agredir ou negar solidariedade.

Essa operação funciona porque a liberdade sempre foi um conceito ambíguo. Ela pode significar não interferência, autonomia pessoal ou realização coletiva. O que a ultradireita faz é hipertrofiar apenas a primeira dimensão — a liberdade como ausência de limites — distorcer a ideia de autenticidade e apagar completamente sua dimensão social. O resultado é uma liberdade paradoxal: uma liberdade que destrói as condições que a tornam possível.

Ao mesmo tempo, parte da esquerda deixou de disputar esse terreno simbólico com a mesma intensidade. Durante décadas de hegemonia neoliberal, muitos partidos progressistas passaram a falar sobretudo em gestão, políticas públicas e justiça distributiva — o que é importante, mas frequentemente em uma linguagem técnica e pouco mobilizadora. Enquanto isso, a direita passou a prometer algo emocionalmente mais potente e revolucionário: a libertação do “Estado opressor”.

Criou-se assim uma assimetria perigosa. De um lado, a esquerda prometia administrar melhor o Estado; de outro, a direita prometia libertar o povo dele. No fundo, a disputa pela liberdade é uma disputa pelo próprio sentido da política. Quem consegue convencer a sociedade de que representa a “verdadeira liberdade” já conquistou uma vantagem decisiva na batalha cultural. E é por isso que essa disputa se tornou tão central: definir o significado da liberdade hoje é decidir se ela será um projeto de solidariedade ou um escudo para privilégios.

Você aponta também a ascensão do chamado “batalhador da liberdade”, formado por sujeitos expostos à desinformação digital, que acabam aderindo ao autoritarismo em busca de reconhecimento. Quem são esses indivíduos, quais frustrações ou expectativas os mobilizam?

Os “batalhadores da liberdade” são, na minha análise, a nova figura antropológica do autoritarismo libertário contemporâneo. Trata-se de sujeitos formados pela precarização econômica, pela frustração social e pela desorientação política, mas que encontram na ultradireita uma forma regressiva de reconhecimento. O termo foi inspirado na maneira como Steve Bannon celebrou os golpistas que atacaram Brasília em 8 de janeiro de 2023.

Retomo essa expressão para descrever um tipo social que se percebe como rebelde, perseguido e antissistema — embora, na prática, esteja aderindo a projetos profundamente excludentes e autoritários. Esses sujeitos aparecem em várias versões ao redor do mundo: os “Proud Boys” nos Estados Unidos, conspiracionistas do QAnon, mejoristas, militantes ultraliberais na Argentina ou os “patriotas” e “cidadãos de bem” no Brasil. Em geral, tratam-se de pessoas que ascenderam via políticas públicas nas últimas décadas, beneficiários do reformismo fraco lulismo, do neoliberalismo progressista obamismo, do keynesianismo difuso do kirchnerismo, da social democracia do merkelismo, e que hoje compõem uma classe média pulverizada que condensou uma visão de mundo profundamente antiestatal.

Em grande parte, são filhos da promessa neoliberal. Foram educados a acreditar que esforço individual produziria sucesso, ascensão e reconhecimento. Quando essa promessa falha, o resultado nem sempre é crítica ao sistema — muitas vezes é ressentimento. É aí que entra a ultradireita. Ela oferece o que chamo de “reconhecimento ideológico” ou uma forma de “identarismo”. Em vez de inclusão igualitária, oferece distinção excludente. Diz a esses sujeitos: “Você não fracassou — foi traído. Você não está invisível — está desperto. Você não é apenas mais um — faz parte da verdadeira nação.” Assim, o ressentimento vira identidade política e a humilhação se converte em orgulho guerreiro. A dor social não desaparece — ela é reorganizada politicamente em chave autoritária.

Esse processo também dialoga com novos imaginários de poder e sucesso. Figuras como Elon Musk simbolizam um tipo de utopia tecnolibertária que promete superar o Estado, a política e até a própria democracia por meio de tecnologia, criptomoedas e novas formas de soberania privada. Em contextos periféricos, essa lógica aparece em versões locais — líderes que misturam empreendedorismo digital, religião, finanças e guerra cultural. No Brasil, o “batalhador da liberdade” pode assumir diferentes perfis: o influencer liberal, o fiel neopentecostal empreendedor, o coach motivacional, o militarista nostálgico da ditadura ou o conspiracionista digital. Minha pesquisa identifica três variações recorrentes desse tipo social. O “patriota entreguista”, mobilizado por nostalgia da ditadura e nacionalismo defensivo. O “anarcomonarquista”, que combina ultraliberalismo econômico com tradicionalismo religioso. E o “hacker-sanctus”, forjado nas redes digitais, nas bolhas de Telegram e nos fóruns da internet, especialista em memes, desinformação e guerra cultural. Em sua forma mais radicalizada, esse processo pode levar até mesmo ao terrorismo doméstico, com indivíduos influenciados por redes neonazistas ou neointegralistas que assumem o papel de “lobos solitários”. No fundo, estamos diante de um fenômeno social mais amplo. A ultradireita não cria a dor — ela a organiza politicamente. E faz isso transformando frustração em identidade, ressentimento em mobilização e ansiedade social em guerra cultural.

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Sua pesquisa reconstrói historicamente a ideia de liberdade na modernidade, mostrando sua vinculação a projetos coletivos de emancipação — presentes em revoltas anticoloniais, lutas antiescravistas e movimentos operários, ecológicos, feministas e antirracistas. O que se perde quando a liberdade é dissociada desses compromissos coletivos?

Perde-se a própria ideia de liberdade. A ultradireita oferece apenas o “sabor” da liberdade, tal como as lojas de departamento oferecem réplicas grotestas da Estátua da Liberdade acompanhada de sonegação e culto a personalidade autoritária. Como diria o velinho: primeiro como tragédia e depois como farsa. Quando a liberdade é arrancada de sua história, isto é, das lutas antiescravistas, feministas, operárias, anticoloniais e antirracistas, ela deixa de ser prática de emancipação e se transforma em privilégio sem responsabilidade. Historicamente, liberdade significava derrubar correntes. Hoje, em muitos discursos da ultradireita, ela passa a significar derrubar direitos.

A primeira perda é a dimensão relacional da liberdade. Ninguém é livre sozinho. A liberdade real depende de instituições, garantias sociais, reconhecimento mútuo e condições compartilhadas de vida digna. Quando essa dimensão desaparece, a liberdade vira caricatura: o direito de abandonar o outro, negar solidariedade e transformar exclusão em virtude. É a velha liberdade dos senhores reaparecendo como se fosse rebeldia moderna. Também se perde a memória histórica. As liberdades de que dispomos hoje, ainda incompletas e desiguais, foram conquistadas por gerações que lutaram e morreram por elas. Não é a toa que o cinema brasileiro bem sucedido no mundo inteiro tematiza isso. Quando líderes autoritários falam em liberdade enquanto celebram ditaduras ou hierarquias sociais, produzem uma espécie de amnésia política.

Por fim, perde-se a própria democracia substantiva. Sem igualdade e solidariedade, a liberdade se reduz a uma forma vazia: escolher entre opções que não controlamos, competir em uma ordem desigual e chamar de autonomia aquilo que é, na prática, abandono social. Sem a dimensão da solidariedade e da igualdade como condições da liberdade, o que temos é uma “modernização regressiva”: ultraliberalismo financeiro convivendo com arcaísmos escravocratas. Na intimidade, o retorno ao patriarcado; no mercado, o individualismo possessivo, egoísmo financeirizado e a brutalização das relações; na política, a eliminação do outro. Perde-se, em suma, a utopia de um mundo onde a liberdade de cada um é a condição para a liberdade de todos.

Ao ganhar clamor social, o populismo de extrema direita ultrapassa as estratégias eleitorais e econômicas tradicionais ao reconfigurar a liberdade como símbolo antissistêmico. Como se constrói essa dimensão emocional do discurso e por que ela tem força suficiente para corroer instituições democráticas?

Minha tese é que a ultradireita, diferente do processo de melancolia que assolou a esquerda tradicional, fez o trabalho de luto e contornou o esgotamento das energias utópicas do século XX em um projeto de renovação de forças contrarevolucionárias. Daí que surgiu o populismo tardio, uma performance carismática regressiva resultante da sintese digital entre paleolibertarianismo neoliberal e neoconservadorismo tradicionalista, que descobriu que não se vence a batalha da liberdade pelo argumento, mas pelo afeto. Em vez de oferecer um diagnóstico racional do sofrimento social, ela oferece uma direção emocional para esse sofrimento. Medo, raiva, ressentimento, nostalgia e humilhação são capturados e reorganizados como energia política.

O mecanismo segue um roteiro relativamente claro. Primeiro, constrói-se uma fronteira moral entre “nós” e “eles”: de um lado, o povo autêntico; do outro, elites, instituições, intelectuais, minorias ou inimigos internos. Em seguida, ocorre uma inversão simbólica: grupos historicamente privilegiados passam a se apresentar como vítimas de um sistema que, supostamente, só protege minorias. Depois entram as narrativas conspiratórias — “marxismo cultural”, “globalismo”, “nova ordem mundial” — que simplificam a complexidade do mundo e oferecem culpados claros. Por fim, surge a promessa de restauração narcísica: “você não foi derrotado, foi roubado”. Essa política funciona como uma espécie de psicanálise reversa. Em vez de elaborar a dor social, ela a instrumentaliza. Eles colocam todos progressos morais como revolucoes culturais. O ressentimento vira identidade e a perda de status se transforma em orgulho guerreiro.

Há também uma dimensão estética muito forte. A política se torna espetáculo: memes, vídeos virais, trilhas sonoras, marchas, palavras de ordem e símbolos patrióticos substituem o debate racional. A liberdade deixa de ser um conceito político e passa a ser uma sensação — a sensação de poder dizer tudo, atacar qualquer instituição e chamar isso de coragem.O problema é que essa excitação emocional corrói exatamente as instituições que tornam a liberdade possível. Em nome da liberdade, atacam-se tribunais, universidades, imprensa, ciência e direitos constitucionais. O caos passa a parecer autenticidade, e a violência ganha aura de heroísmo.

Outro elemento central é a nostalgia. O populismo de ultradireita promete um futuro que, na verdade, é a restauração de um passado imaginário um tempo de hierarquias claras, comunidades homogêneas e valores supostamente incontestáveis. Esse passado é reescrito por meio de uma memória nacional conservadora que glorifica ordem, autoridade e até regimes autoritários. Nesse processo, a política deixa de ser deliberação pública e se transforma em experiência emocional de pertencimento. O meme substitui o argumento, o viral substitui o debate e a liberdade se reduz à sensação de “poder dizer qualquer coisa sem ser cancelado”. É assim que o populismo contemporâneo transforma mal-estar social em guerra cultural e converte emoções difusas em um projeto político autoritário.

Se o enfrentamento da crise democrática vai além do combate à desinformação e exige reconstruir as bases materiais e simbólicas da liberdade, que medidas práticas poderiam tornar isso possível?

É preciso disputar o futuro e reconstruir as bases materiais, simbólicas e institucionais da liberdade. Esse é o ponto central. Combater desinformação é importante, mas insuficiente. A adesão ao autoritarismo não nasce apenas de erro cognitivo; nasce também de precariedade, humilhação, insegurança e falta de pertencimento. Uma pessoa exausta, endividada, sem tempo e sem horizonte dificilmente se sente realmente livre — mesmo que tenha direitos formais.

Na dimensão material, isso significa enfrentar a precarização da vida: fortalecer proteção social, garantir renda, moradia, saúde, educação, transporte e trabalho digno. Sem condições reais de existência, a liberdade vira apenas uma palavra abstrata. Na dimensão simbólica, é preciso disputar o significado da própria liberdade. A ultradireita ocupou esse campo porque encontrou um vazio.

Recuperar a história da liberdade como conquista coletiva — das lutas antiescravistas, operárias, feministas e democráticas — é parte essencial dessa disputa. Sobretudo com jovens que estão seduzidos por ideologias masculinistas e exterministas. Democracia também precisa falar a linguagem dos afetos, não apenas da gestão. Já na dimensão institucional, o desafio é aprofundar a democracia. Isso significa democratizar a economia, regular plataformas digitais, ampliar participação política e tornar as instituições mais confiáveis para a população. Defender a democracia apenas como ela é hoje não basta; é preciso torná-la mais concreta na vida cotidiana.

A reconstrução da gênese da “gramática libertária” do populismo tardio — em uma esfera pública digitalizada e articulada por redes da ultradireita — revela que tipo de mudanças na linguagem política e na forma de mobilização desses movimentos?

Revela uma mutação profunda. A linguagem política ficou mais fragmentada, mais rápida, mais agressiva, mais emocional e menos comprometida com coerência ou verdade. O debate mediado por partidos, jornais e intelectuais públicos foi substituído por ecossistemas digitais de nicho, bolhas, canais, grupos e influenciadores. O meme, o vídeo curto, o corte viral e o podcast passaram a valer mais do que o argumento estruturado.

A ultradireita soube explorar isso com enorme inteligência estratégica. Neste aspecto, e espectro de Olavo ronda a ultradireita. Ele foi o mestre do cinismo na periferia do capitalismo. Por ter saído da contracultura esotérica e convivido com parcelas da esquerda anticapitalista, ele conseguiu mimetizar e capturar a linguagem progressista, além de surfar nas novas ferramentas digitais do novo milênio para formar uma nova gramática rebelde e estratégia de mobilização das direitas brasileiras.

Graças ao olavismo, a ultradireita aprendeu a hackear palavras historicamente associadas à esquerda — liberdade, resistência, censura, povo, corrupção, rebeldia — e devolvê-las esvaziadas de seu conteúdo emancipatório. Ao mesmo tempo, misturou política com conspiração, espiritualidade difusa, pseudociência, estética de guerra cultural e linguagem de autoajuda. Isso cria uma sensação de revelação: o seguidor se sente “desperto”, como alguém que enxerga a verdade por trás das aparências.

Na forma de mobilização, também houve uma mudança decisiva. Já não se trata apenas do velho partido de massa, com sede, burocracia e estrutura formal. O populismo tardio opera em rede, de maneira fractal, segmentada e altamente adaptável. Tem aparência horizontal, mas funciona em torno de hiperlideranças e forte centralização simbólica. É uma política em formato de enxame. Organiza-se por WhatsApp, Telegram, Discord, fóruns, podcasts, influencers e financiamento digital. O neofascismo de hoje não desfila apenas em marcha: ele circula por algoritmo. E isso o torna mais barato, mais veloz, mais capilarizado e mais difícil de enfrentar. Esse fenômeno produz o que chamo de “horizontalidade autoritária”: redes aparentemente horizontais de mobilização combinadas com lideranças hipercentralizadas e cultos de personalidade. O resultado é uma estrutura difícil de combater, porque é difusa, viral e altamente adaptável.

No Brasil, esse processo também envolveu captura de pautas, táticas e símbolos. O caso brasileiro é particularmente revelador porque mostra como a captura populista da liberdade opera em múltiplas camadas — pautas, táticas e símbolos. No plano das pautas, a luta contra a corrupção, que foi bandeira importante da esquerda nas décadas de 1990 e 2000, é apropriada pelo lavajatismo e transformada em instrumento de perseguição política e de ataque a direitos.

No plano das táticas, mobilizações progressistas são imitadas e ressignificadas: as ocupações de escolas secundaristas em 2015–2016, organizadas por estudantes em defesa da educação pública, são replicadas por movimentos juvenis de direita que ocupam escolas para defender o ensino militarizado e o projeto “Escola sem Partido”. Algo semelhante ocorre com as marchas e protestos populares: iniciativas do MST pela reforma agrária ou do MPL pelo passe livre e tarifa zero acabam convertidas em “caminhadas pela liberdade”, primeiro como tragédia quando o Movimento Brasil Livre se apropria da ideia de marchar até Brasília para impulsionar o processo que levou ao impeachment de Dilma Rousseff, e depois como farsa quando setores bolsonaristas caminham até a capital pedindo a “liberdade” de Bolsonaro — chegando ao ponto de a vice-governadora Celina Leão comparar a caminhada de Nikolas Ferreira às marchas de Martin Luther King pelos direitos civis nos Estados Unidos.

Há ainda a captura simbólica: slogans como Black Lives Matter são esvaziados e convertidos em All Lives Matter, movimentos feministas como MeToo viram WeToo, e até a bandeira do Brasil — que nos anos 1980 e 1990 simbolizava a resistência à ditadura, como nas mobilizações dos caras-pintadas — é sequestrada e transformada em estandarte de uma direita que relativiza a ditadura e celebra torturadores.

Em sua análise, o que caracteriza essa ideia renovada de socialismo e por que ela se apresenta como alternativa viável para uma transformação política radical?

Eu acredito que a defesa da liberdade, se levada às suas últimas consequências, não tem outro nome do que socialismo. Um socialismo como forma de vida democrática. Um socialismo que defende que a liberdade individual só pode ser realizada com os outros e por meio dos outros e de que o progresso humano deve ser perseguido, sem com isso endossar uma visão teleológica e destrutiva da história. Não se trata de abolir a liberdade negativa ou a liberdade reflexiva, típicas de um liberalismo social, mas de integrá-las em uma concepção mais ampla que só se concretiza em relações de solidariedade e cooperação.

Não se trata de repetir nostalgicamente os erros autoritários do século XX, mas de responder às patologias do presente: desigualdade extrema, financeirização, desdemocratização, destruição ecológica e captura oligárquica das instituições. A grande força dessa ideia está em recolocar a liberdade no centro, mas agora em seu sentido pleno: A liberdade defendida pela ultradireita é a liberdade dos fortes contra os vulneráveis. Já uma perspectiva socialista recoloca a liberdade em seu sentido pleno: tempo livre, dignidade, trabalho não degradante, segurança material, poder de decisão sobre a vida comum, democratização da economia, reparação histórica e cooperação social.

Trata-se de um socialismo democrático, experimentalista e profundamente comprometido com a ampliação da autonomia, da igualdade material e da participação coletiva. Em outras palavras: uma forma radical de aprofundar a democracia. O que torna essa perspectiva viável é que ela não parte do zero. Ela se apoia em potencialidades já existentes: direitos sociais, experiências de participação democrática, cooperativas, lutas por moradia, saúde, justiça climática, igualdade racial, direitos reprodutivos, organização do trabalho e defesa dos bens públicos. Não se trata de um modelo fechado, mas de um horizonte normativo capaz de reunir um campo democrático fragmentado, mas possível de reabilitar politicas de classe, genero, ecologia etc.. Chamar isso de socialismo é, no fundo, dar nome político à exigência de que a liberdade deixe de ser privilégio e volte a ser condição compartilhada de vida digna.

Ao observar a repercussão da sua tese nas redes sociais, chama atenção a presença de críticas feitas por pessoas que, obviamente, não conhecem o conteúdo do trabalho. Qual é a influência das plataformas digitais na formação e na disseminação desse discurso mais radicalizado?

As plataformas digitais não são apenas meios de comunicação: são infraestruturas de radicalização. Tampouco são neutras: elas são máquinas de amplificação do choque. Seu modelo de negócio premia indignação, conflito, simplificação e hostilidade. Isto é, elas privilegiam tudo aquilo que aumenta retenção, engajamento e compulsão, e isso significa premiar conflito, simplificação, hostilidade, indignação e medo. Nesse ambiente, a verdade importa menos do que a capacidade de gerar reação.

Foi isso que se viu, inclusive, na repercussão de minha tese em certos setores das redes. Muitas críticas não se dirigiam ao conteúdo do trabalho, mas ao símbolo que ele representava para determinados grupos: universidade pública, humanidades, pensamento crítico, campo progressista. O julgamento deixou de ser cognitivo e tornou-se performático. Não era necessário ler para atacar; bastava sinalizar pertencimento, fidelidade ideológica e agressividade suficiente para circular no grupo. A reação negativa à minha tese nas redes sociais é, ironicamente, uma confirmação empírica do que ela própria diagnosticou: batalhadores da liberdade organizados em milícias digitais que geram uma espécie de “cultura do cancelamento às avessas”. Essa lógica está inscrutada na arquitetura do algoritmo que transforma julgamento em performance e hostilidade em pertencimento. Não é preciso ler para atacar; basta sinalizar lealdade ao grupo.

O problema democrático é enorme: corroi a esfera publica na medida em que substitui-se debate por engajamento e performance, argumento por tribalismo, complexidade por slogans e memes, verdade por identificação, razão por excitação. As redes vendem pertencimento instantâneo, mas ao custo da radicalização permanente. E enquanto isso seguir sendo altamente lucrativo para as big techs, a degradação da esfera pública continuará sendo tratada como modelo de negócio. É uma nova sociedade do espetáculo que privilegia a atenção do que a informação, a agressão do que a reflexão.

O algoritmo não quer que a sociedade delibere melhor; quer que ela permaneça conectada por mais tempo. E, nesse processo, a hostilidade se torna divertida, a radicalização vira identidade e a desinformação passa a ser estruturalmente vantajosa. Enfrentar isso exige regulação democrática das plataformas, transparência algorítmica, responsabilização, educação midiática e reconstrução de espaços reais de reconhecimento e participação. Sem vida pública concreta, as bolhas digitais continuarão oferecendo uma falsa liberdade baseada em pertencimento paranoico.

Para concluir, o que representa, pessoal e politicamente, receber o Prêmio CAPES de Tese em um momento marcado por polarização e questionamentos às humanidades?

Pessoalmente, representa o reconhecimento de uma longa caminhada de formação filosófica, percorrida graças as fagulhas de liberdade social que permanecem cintilantes em instituições públicas, além da generosidade e interlocução de minha família, muitos amigos e colegas especiais, compartilhada em diferentes e profícuos espaços da universidade, através de seminários de literatura, encontros de psicanálise, grupos de estudos de ciências sociais, eventos de antropologia, núcleos de pesquisa de ciência política, colóquios de direito, fóruns e congressos de filosofia. Politicamente, , o prêmio tem um significado ainda mais forte.

A filosofia, para mim, sempre foi também um esporte de combate. Não se trata de militância, mas sim uma ferramenta crítica, ativa e engajada contra as estruturas de dominação política, desigualdades sociais e discursos arbitrários naturalizados que circulam em toda sorte de espaços do mundo social. A ultradireita ataca as humanidades porque sabe que elas são o espaço onde se aprende a desconfiar das naturalizações do poder, a compreender a complexidade do mundo e a nomear formas de dominação Neste sentido, o prêmio representa uma vitória simbólica contra a barbárie em um tempo em que universidades públicas, professores, pesquisadores, filósofos e cientistas sociais foram frequentemente tratados como inimigos internos, como se pensar criticamente fosse uma ameaça ao país. Nesse contexto, receber um prêmio nacional por uma tese que trata justamente da disputa em torno da liberdade e da regressão democrática é uma afirmação clara da importância das humanidades. Significa lembrar que a crítica ainda tem lugar, que a universidade pública segue viva e que a democracia depende, também, da coragem de pensar.

Raio-X

Thor Veras é filósofo, pós-doutorando em Sociologia e Ciência Política na UFSC, pesquisador do Núcleo de Estudos Internacionais do Cebrap e professor do Instituto Federal do Acre (IFAC). Nascido no Acre, graduou-se, fez mestrado e doutorado em Filosofia pela UFSC, com estágio de pesquisa na Goethe-Universität Frankfurt am Main, na Alemanha, além de passagens por outros centros internacionais. É autor de ‘A fisionomia da vida patológica: crítica ao capitalismo em Axel Honneth’ (Ape ku, 2019) e da tese ‘A captura populista da liberdade: crítica imanente da regressão democrática’, vencedora do Prêmio CAPES de Tese em Filosofia em 2025.



Fonte: A Tarde

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