Quando se pensa no Chipre, existem duas possíveis imagens que vêm à mente. Uma parcela das pessoas admite não saber sequer da existência do país de menos de dez mil km² no Oriente Médio. Outras, conhecem a terra pela fama turística que sempre teve. A maioria, no entanto, pensa na palavra que vem definindo a região – guerra.
Perto da Turquia, da Síria e do Líbano, o Chipre está localizado em meio à zona de guerra que vem tomando os noticiários nas últimas semanas, especialmente desde que começaram os ataques entre Estados Unidos, Israel e Irã e, mais intimamente ainda, desde que um drone atingiu justamente seu território.
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No entanto, mesmo em meio ao caos instalado, é possível que um país esteja vivendo em paz, mantendo suas atividades como sempre e até mesmo sabendo se divertir – e o Chipre assume esse papel.
No coração do Mar Mediterrâneo, a ilha se divide entre turismo e bases militares estratégicas para flutuar entre a guerra e a “vida normal”, tanto para cipriotas, quanto para imigrantes.
Um deles é Alexandre Negri, ex-goleiro brasileiro revelado pela Ponte Preta, hoje preparador de goleiros, que personifica a ponte entre a paixão sul-americana pelo futebol e a complexa realidade geopolítica de um país que, embora se sinta em “vida normal”, vive sob sérias angústias no caos geopolítico.
Quem é Alexandre Negri
A trajetória de Negri começou longe das águas de Larnaca. Foram 12 anos vestindo a camisa da Ponte Preta, desde as categorias de base até o profissionalismo, mostrando ao Brasil o talento que o levou às seleções brasileiras de base (Sub-15 e Sub-23) e alavancou sua carreira.
Alexandre Negri no Ponte Preta em 2002
No entanto, em 2004, o destino o chamou para o Velho Continente. Na Europa, passou pelo Ajaccio na França, pela Romênia no Universitatea Craiova e pela Grécia no Aris Thessaloniki, conhecendo diversas realidades e culturas ao longo da carreira.
Mas foi no Chipre que Negri fincou raízes. Atuando por equipes como AEK Larnaca e Doxa, ele se integrou de tal forma à cultura local que, em um movimento raro, obteve autorização da FIFA para se naturalizar e defender a seleção nacional do Chipre, uma vez que suas participações pelo Brasil não haviam ocorrido na equipe principal.

Alexandre Negri pelo APOEL
Hoje, após encerrar a carreira como jogador entre 2017 e 2018, Alexandre Negri dedica-se a formar novos goleiros, tendo passado pelo APOEL, o maior clube do país.
O ataque de drone
No entanto, recentemente, a tranquilidade da ilha em que Negri vive foi abalada por notícias de guerra. No dia 2 de março de 2026, um ataque de drone atingiu a base militar britânica de Akrotiri, no sul do país, deixando o país em certo estado de alarme.
O ataque, no entanto, carrega nuances que revelam a fragilidade da região. Embora o presidente Nikos Christodoulides, do Chipre, tenha identificado o drone como um modelo Shahed, de tecnologia iraniana, investigações subsequentes do Reino Unido e do governo cipriota indicaram que o artefato não foi lançado diretamente do Irã, mas possivelmente do Líbano.
Como o Reino Unido detém a soberania territorial sobre as bases de Akrotiri e Deceleia, que são tecnicamente solo britânico e não cipriota, o ataque foi um recado diplomático violento – mas não necessariamente para o Chipre.

Base militar do Reino Unido no Chipre
É como se fosse um aviso ao próprio Reino Unido de que qualquer país poderia ser atacado na guerra, mesmo os menos envolvidos em conflitos. O último ataque direto desse tipo havia ocorrido apenas em meados da década de 1980, por militantes líbios, mantendo a paz na região desde então.
Enquanto o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, autorizou o uso das bases no Chipre pelos EUA para ataques estritamente “defensivos”, visando destruir lançadores de mísseis iranianos, ele deixou claro que o Reino Unido não participará de ofensivas diretas, buscando uma “solução negociada”.
No outro lado do Atlântico, Donald Trump adotou um tom ambivalente – ao mesmo tempo em que ameaçou o Irã com uma “força nunca antes vista” após a morte do líder supremo Ali Khamenei, afirmou que a nova liderança iraniana já demonstra interesse em retomar o diálogo.
Em meio a esse tabuleiro, surge até a figura de Reza Pahlavi, o herdeiro exilado da monarquia iraniana que vive nos EUA, como um símbolo das incertezas sobre o futuro do regime dos aiatolás e o impacto que uma mudança interna no Irã teria sobre a segurança de toda a bacia do Mediterrâneo.

Base militar do Reino Unido no Chipre
Mas como isso afeta o Chipre?
Para quem observa de fora, o cenário é apocalíptico: o Irã retaliando contra aliados dos EUA e Israel em uma estratégia de “terra arrasada”, enquanto potências como Reino Unido, Alemanha e França reforçam sistemas de defesa.
Contudo, no cotidiano de Negri, a percepção é diferente. “O Chipre não é um país alvo de país algum”, afirma o preparador, ressaltando que o ataque foi direcionado especificamente à base inglesa – um território soberano britânico dentro da ilha – e não à população civil ou ao Estado cipriota.
As bases Acrotíri e Deceleia, do Reino Unido, ficam no sul do país, sendo ele próprio muito bem policiado até mesmo pela Organização das Nações Unidas, especialmente na chamada Divisão Interna ou Linha Verde, uma zona tampão patrulhada pela ONU que divide a ilha de leste a oeste.

Linha Verde patrulhada pela ONU no Chipre
Assim, os ataques direcionados ao Chipre não atacaram diretamente ciprianos, e muito menos suas atividades. Essa “vida normal” defendida por Negri é, na verdade, um triunfo da diplomacia cipriota de neutralidade.
O país, hoje, serve como um posto de observação privilegiado. De um lado, recebe sistemas de defesa de potências como França e Alemanha, enquanto do outro, observa o tráfego de aeronaves de reabastecimento dos EUA, como os KC-135 que operam na região, cruzando o espaço aéreo vizinho.
Sem se envolver nem com um lado, nem com outro, o Chipre vem mantendo suas atividades mesmo em meio à guerra, oferecendo à sua população uma realidade muito mais tranquila que a de seus vizinhos.

Localização do Chipre no mundo
Futebol em tempos de guerra
Negri relata que, apesar da apreensão inicial e dos protocolos de segurança acionados nas escolas, o futebol não parou. “O campeonato aqui não parou, não teve nenhuma mobilização mais séria por causa disso”, explica ele
Enquanto o mundo acompanhava a morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, e as ameaças de Donald Trump de uma “força nunca antes vista”, as equipes cipriotas continuavam sua rotina de treinamentos e competições continentais, o que marca um fator determinante para a manutenção do futebol no país.
Dentro do Chipre, tudo está bem, possibilitando a permanência de competições nacionais. No entanto, ao redor do país, o Oriente Médio está em guerra, o que teoricamente dificultaria viagens para torneios internacionais.

Mapa do Chipre
Especialmente com a divisão da Linha Verde que separa o território da ilha entre domínio cipriano e turco desde a invasão em 1974, deixando inclusive alguns aeroportos na área turca e impossibilitando a existência de voos diretos entre Chipre e Turquia, tudo indica que a mobilidade seria complicada – mas, por questões políticas, não é.
A explicação para a paz no futebol cipriano é simples. O Oriente Médio pode até estar em guerra, mas o Chipre é membro da União Europeia desde 2004. Com isso, ao invés de disputarem torneios no continente em que se localizam, os clubes ciprianos jogam os torneios da UEFA, precisando viajar apenas para a Europa, que não está em guerra até então.

Invasão da Turquia no Chipre
Refúgio em meio aos conflitos
Assim, aos poucos, o Chipre se tornou uma espécie de refúgio em meio à guerra no Oriente Médio. Hoje, a ilha abriga muitos russos e ucranianos que fugiram de seus próprios conflitos e que, agora, sentem um calafrio ao ouvir sobre drones no Mediterrâneo.
“O cara já pensa: ‘Pô, vou passar aqui agora o que eu não queria passar no meu país'”, comenta Negri sobre o sentimento dos imigrantes. Entretanto, ele reforça a mensagem de que, para os moradores locais, o ataque de drone foi um “fato isolado”, sem oferecer alarme ou risco real.
“Às vezes as pessoas criam uma expectativa de que aqui está passando por problemas sérios e nós não estamos… aqui é vida normal“, enfatiza.

Alexandre Negri pelo APOEL
O Oriente Médio está em guerra, e o conflito tem afetado intimamente a vida de muitas populações – mas não todas. Mesmo em pontos estratégicos cercados por tensões globais, o esporte e a rotina mantêm a estrutura da sociedade em certos locais, possibilitando uma manutenção de “vida normal” em alguns países.
Entre as notícias de drones interceptados e negociações diplomáticas de alto nível entre Trump e a nova liderança iraniana, então, o preparador de goleiros brasileiro continua seu trabalho, vivendo em paz em meio à guerra que vem assolando o planeta.