Panorama Coisa de Cinema começa na próxima quarta-feira

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A Máscara da Traição (1969) será um dos filmes da abertura do festival –

Em um cenário de aumento da produção audiovisual no país e dificuldades para garantir circulação e público, o Panorama Internacional Coisa de Cinema chega à 21ª edição, em Salvador e Cachoeira, propondo um duplo movimento: ampliar o acesso a filmes fora do circuito comercial e discutir os limites do modelo atual de exibição no Brasil.

O festival começa nesta quarta-feira, 25, com abertura no Cine Glauber Rocha e segue até 1º de abril na capital baiana e até o dia 29 em Cachoeira, reunindo mais de 130 títulos, entre curtas e longas-metragens, distribuídos em mostras competitivas, sessões especiais e atividades formativas.

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Segundo a curadora e coordenadora do festival, Marília Hughes, o crescimento da produção audiovisual brasileira nos últimos anos impacta diretamente a curadoria. O aumento no número de inscritos é atribuído, em parte, a políticas públicas recentes de incentivo ao setor.

“A gente teve um número recorde de inscritos. Isso é reflexo de políticas como a Lei Paulo Gustavo e a Lei Aldir Blanc. Houve um aumento muito grande, principalmente de curtas-metragens. Ao mesmo tempo, o festival tem um limite de exibição. Chegar a 130 filmes já é um número alto, então a seleção precisa dar conta de representar esse conjunto de produções. O que a gente buscou foi um recorte que mostrasse diferentes regiões, diferentes formas de fazer cinema e diferentes temas”, afirma Marília.

De acordo com ela, a curadoria parte de critérios ligados à linguagem cinematográfica e à forma como cada obra constrói sua narrativa.

“O nosso interesse principal é a linguagem. Como o filme trabalha som, imagem, enquadramento, movimento de câmera. A gente não está em busca de filmes perfeitos, mas de filmes que proponham alguma coisa, que tenham uma tentativa de invenção. Depois disso, também olhamos para os temas e para a diversidade dos universos retratados, porque o festival precisa refletir essa diversidade”, diz.

Vale destacar que além das mostras competitivas, o Panorama mantém uma programação que inclui sessões especiais, retrospectivas e filmes restaurados, buscando estabelecer relações entre o cinema contemporâneo e sua história.

“Existe um movimento hoje de produzir muito, mas nem sempre de conhecer o que já foi feito. O festival tenta articular essas duas dimensões. A gente exibe filmes restaurados que ajudam a entender o cinema brasileiro e também a compreender obras atuais que dialogam com essas referências”, enfatiza.

A abertura do festival reúne dois momentos distintos do cinema brasileiro. O longa A Vida de Cada Um, dirigido por Murilo Salles, será exibido com a presença do diretor e da atriz Bianca Comparato, que participa do debate após a sessão. Na mesma noite, o público assiste ao clássico restaurado Máscara da Traição (1969), de Roberto Pires, que parte de um roubo ocorrido durante um jogo no Maracanã para construir uma trama policial.

Sambadores | Foto: Divulgação

Após a sessão, Petrus Pires, filho do diretor, apresenta o processo de restauração do filme e comenta a trajetória do cineasta. Em Cachoeira, a abertura acontece com o documentário O samba que mora aqui, de Vítor Rocha, seguido de conversa com o diretor.

Novas circulações

A presença de realizadores no festival reforça o papel do Panorama como espaço de circulação para filmes que não chegam ao circuito comercial. O diretor André Morais, que apresenta o longa Malaika, destaca a importância dessas janelas para o percurso das obras.

“A gente está vivendo um momento em que muitos filmes são produzidos, mas nem todos conseguem circular. Os festivais acabam sendo fundamentais para isso. É onde o filme encontra o público pela primeira vez. Depois desse circuito, a gente tenta entrar na exibição comercial, mas esse caminho ainda é difícil e depende de vários fatores, inclusive de políticas públicas”, afirma.

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Malaika acompanha um dia na vida de uma adolescente albina no interior da Paraíba e foi desenvolvido em etapas que passaram pelo próprio Panorama, como o laboratório de montagem.

“Eu participei do festival como espectador, depois com o projeto no laboratório e agora estou na mostra competitiva. Isso mostra como o festival acompanha o processo do filme. E esse contato com o público, depois das sessões, é parte do próprio filme. Eu trabalho com uma narrativa que deixa espaços para o espectador construir sentido, então ouvir essas leituras faz parte do processo”, diz.

O diretor também destaca os desafios enfrentados durante a realização e circulação da obra. “O processo de fazer o filme envolve várias etapas, desde a pesquisa até a produção e a escolha do elenco. Encontrar a atriz foi um momento decisivo. E depois vem outro desafio, que é fazer o filme circular. As janelas de festivais ajudam a construir esse caminho antes da chegada ao circuito comercial”, afirma.

Exibição e formação

Além das sessões, o Panorama realiza, pelo segundo ano, o Seminário de Exibição, que discute a relação entre produção, distribuição e público no cinema brasileiro.

Para o cineasta Cláudio Marques, idealizador do festival, a ausência de políticas voltadas à exibição é um dos principais problemas do setor. “Existe um investimento grande na produção e algum na distribuição, mas a exibição não entra de forma estruturada nas políticas públicas. E, ao mesmo tempo, é o exibidor que sustenta o cinema no dia a dia. Muitas salas são pequenos negócios, empresas familiares, que operam com dificuldade e sem apoio”, afirma.

Ele aponta que o aumento da produção não tem sido acompanhado por uma ampliação equivalente do público. “A gente está produzindo muitos filmes, mas esses filmes não estão sendo vistos. Eles entram em cartaz e não têm público. Isso gera prejuízo para as salas. No Cine Glauber Rocha, exibimos mais de 130 longas brasileiros em um ano. A pergunta é: quantos desses filmes as pessoas assistiram? Esse descompasso precisa ser enfrentado”, diz.

Segundo Marques, a questão envolve desde estratégias de lançamento até a formação de público. “Quando um filme é financiado, já deveria existir um planejamento de como ele vai chegar ao espectador. Quanto será investido em divulgação, como será feita a distribuição. E também é preciso trabalhar a formação de público, criar o hábito de ir ao cinema, entender o cinema como linguagem. Isso não acontece de forma automática”, afirma.

Ele também menciona o impacto das plataformas digitais e a fragilidade das salas de cinema.

“O streaming tem um poder econômico muito grande e disputa a atenção do público o tempo todo. Ao mesmo tempo, as salas ainda se recuperam da pandemia. Mesmo assim, a experiência coletiva do cinema continua sendo fundamental. Ir ao cinema envolve convivência, troca, presença no espaço urbano. Isso precisa ser preservado”, diz.

A realização do festival em Salvador e Cachoeira amplia o alcance da programação e conecta diferentes públicos. As duas cidades recebem sessões e atividades ao longo da semana. Para Marques, essa circulação contribui para aproximar o público das produções e estimular novos espectadores.

“O Panorama apresenta filmes que muitas vezes não chegam ao circuito comercial. Isso desperta o interesse, principalmente entre os mais jovens, que passam a ver o cinema como possibilidade. Ao mesmo tempo, existe um público que acompanha o festival há anos. Essa combinação é importante para a formação de público”, afirma Marques.

Programação completa

As mostras competitivas são o eixo central da programação e reúnem 72 filmes selecionados entre 1.937 inscritos. Na Competitiva Nacional, a seleção de longas inclui: “Cais”, de Safira Moreira;“Até Onde a Vista Alcança”, de Alice Villela e Hidalgo Romero; “Dolores”, de Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar;“Espelho Cigano”, de João Borges; “Malaika”, de André Morais; “Morte e Vida Madalena”, de Guto Parente; “Para Vigo Me Voy!”, de Lírio Ferreira e Karen Harley; “Uma Baleia Pode Ser Dilacerada como uma Escola de Samba”, de Marina Meliande e Felipe M. Bragança.

Os longas são exibidos em diálogo com curtas-metragens, formando sessões que estabelecem relações temáticas ou formais entre as obras. Entre os curtas baianos presentes na competição nacional estão “Restauro”, de Josi Varjão e Lilih Curi, e “Couraça”, de Susan Kalik e Daniel Arcades.

A Competitiva Baiana reúne oito longas e 20 curtas produzidos no estado, exibidos tanto em Salvador quanto em Cachoeira. A mostra inclui ficção, documentário, animação e cinema experimental, funcionando como um panorama da produção recente na Bahia. O público também participa da escolha dos premiados por meio de júri popular.

A produção baiana Xingu à Margem está na competição do Festival de Brasília

A produção baiana Xingu à Margem está na competição do Festival de Brasília | Foto: Divulgação

Além dos prêmios tradicionais, a mostra conta com o Prêmio Flávia Abubakir, que concede R$ 50 mil ao melhor longa e R$ 10 mil ao melhor curta, e o Prêmio Canal Brasil de Curtas, voltado à Competitiva Nacional.

A Competitiva Internacional reúne seis longas e 12 curtas de 28 países, incluindo produções do Sudão, Estônia, Albânia, Singapura, África do Sul e Indonésia, ampliando o contato com cinematografias pouco exibidas no Brasil.

Entre os destaques da programação estão também duas pré-estreias internacionais:“IN-I in Motion”, documentário dirigido e protagonizado por Juliette Binoche, que revisita o processo de criação do espetáculo “In-I”; “Fernão de Magalhães”, do filipino Lav Diaz, que aborda a trajetória do navegador.

O festival dedica ainda retrospectivas a duas cineastas:Agnès Varda, com seis filmes, incluindo “A Ponte Curta” (1955);Sara Gómez, com o longa “De Certa Maneira” (1977) e 14 curtas documentais realizados entre 1964 e 1977.

Na Mostra de Filmes Restaurados, estão títulos como “Eles Não Usam Black-Tie” (1981), de Leon Hirszman, e “Xica da Silva” (1976), de Cacá Diegues, além de obras de Rogério Sganzerla, Arnaldo Jabor, Roberto Pires e André Luiz Oliveira.

O Panorama Brasil reúne produções recentes, como o longa de animação “Nimuendajú”, de Tânia Anaya, além de títulos como “Copacabana, 4 de maio”, de Allan Ribeiro, “Flor do Sertão”, de Thais Laila e Bruno Masi, e “Kaabok: O candomblé de caboclo no sertão de Jequié”, de Zaire Ominira e Adriana Fernandes Carajá.

A programação inclui ainda a mostra “A onda de filmes queer em Super-8 da Paraíba”, com produções realizadas entre as décadas de 1970 e 1980, e o Panorama Infantil, com a animação “Papaya” e a série “Ayô”. O encerramento será marcado pela exibição do documentário “As travessias de Letieres Leite”, de Iris de Oliveira e Day Sena, seguido do anúncio dos premiados.

XXI Panorama Internacional Coisa de Cinema

  • Em Salvador: de 25 de março a 1º de abril, no Cine Glauber Rocha e Sala Walter da Silveira
  • Em Cachoeira: 25 a 29 de março, no Cine Theatro Cachoeirano
  • Sessões: R$ 18 e R$ 9
  • Passaporte por R$ 80
  • Gratuito na Sala Walter da Silveira e no Cine Theatro Cachoeirano
  • Programação completa: panorama.coisadecinema.com.br

*Sob a supervisão do editor Chico Castro Jr.



Fonte: A Tarde

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