Cristianismo de fachada

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José Medrado é médium, idealizador e fundador da Cidade da Luz –

A Semana Santa é um calendário católico, todavia, e pessoalmente, não vejo problema algum, sendo espírita, em buscar uma reflexão sobre o cristianismo em si, nas reais propostas de Jesus para a Humanidade. Assim, nesta Semana Santa, o que se celebra não é um símbolo vazio, mas uma ruptura ética profunda. Antes o ‘Olho por Olho”, com Ele surge o indigesto “amar o próximo”. Assim, a cruz não legitima discursos – ela expõe incoerências. E uma das mais evidentes é o chamado “cristianismo de fachada”: aquele que se apresenta como fé, mas funciona, na prática, como justificativa para atitudes que o próprio Cristo confrontou. Não se trata de um desvio pontual. Trata-se de um uso estratégico da religião.

Ao longo da história – e ainda hoje – há quem recorra ao nome de Deus para sustentar preconceitos, validar exclusões e dar aparência moral a práticas que nascem do medo, do orgulho ou da ignorância. Discrimina-se e, em seguida, cita-se um versículo. Segrega-se e, logo depois, invoca-se a tradição. Julga-se o outro com rigor, enquanto se reserva para si mesmo uma compreensão conveniente. Isso não é fé. É instrumentalização.

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Jesus não construiu um sistema para proteger privilégios morais. Ao contrário, Ele rompeu com estruturas que colocavam pessoas em categorias de pureza e impureza, dignos e indignos, aceitos e rejeitados. Sentou-se com quem era desprezado, tocou quem era evitado, e confrontou diretamente os que usavam a religião como mecanismo de poder e exclusão. O problema não era a lei em si, mas o uso que se fazia dela. E é exatamente esse padrão que se repete quando a fé se torna um escudo para torpezas sociais. O preconceito ganha linguagem religiosa. A intolerância passa a ser chamada de “posicionamento”. A falta de empatia se disfarça de “defesa da verdade”.

Mas há um ponto que não pode ser contornado: o Evangelho não sustenta esse tipo de postura sem ser distorcido. Quem usa Cristo para legitimar discriminação não está sendo fiel – está sendo seletivo. Escolhe trechos que confirmam suas inclinações e ignora tudo aquilo que exige transformação real. É uma fé sem risco, sem confronto interno, sem mudança de atitude. E, por isso, profundamente confortável – e profundamente incoerente.

A cruz, no entanto, não é confortável. Ela exige revisão. Exige que o indivíduo confronte não apenas seus erros visíveis, mas também suas convicções mais arraigadas, especialmente aquelas que parecem “justificáveis”. Nesta Semana Santa, a reflexão honesta não é sobre o quanto se acredita, mas sobre o que essa crença produz. Se gera aproximação ou afastamento. Se constrói pontes ou levanta muros. Se humaniza ou rotula.

Porque, no fim, o problema nunca foi a falta de religião. Foi o excesso de uma religião que não transforma – apenas legitima.



Fonte: A Tarde

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