Milton Santos foi correspondente e redator de A TARDE

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Pouco depois de se formar em Direito pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), aos 22 anos, em 1948, Milton Santos entrou para a equipe de A TARDE como correspondente na zona cacaueira do Estado.

Dez anos depois, ao concluir o doutorado em Geografia pela Université de Strasbourg, na França, já ocupava há quatro anos o cargo de redator principal do jornal. Nascido em Brotas de Macaúbas, na Chapada Diamantina, em 03 de maio de 1926, o homem que revolucionou a geografia faria 100 anos neste domingo.

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Milton Santos é o único intelectual brasileiro a receber o Prêmio Vautrin Lud, que equivale ao Nobel de Geografia. O feito ocorreu em 1994, trinta depois do tempo em que escreveu para A TARDE, de 1949 até 1964.

Milton Santos foi redator de A TARDE | Foto: Cedoc A TARDE

Em paralelo à atividade como jornalista, desenvolveu a carreira acadêmica e de pesquisador. Também dava aulas de geografia humana na Universidade Católica de Salvador (Ucsal) e era professor catedrático da mesma disciplina na Ufba, onde criou o Laboratório de Geociências.

Nesse intervalo de 15 anos, também dirigiu a Imprensa Oficial da Bahia e presidiu a Fundação Comissão de Planejamento Econômico do Estado.

O perfil multitarefa do intelectual baiano tem explicação no seu espírito crítico e inquieto, como afirma a professora Maria Encarnação Beltrão Sposito, em artigo publicado no final de abril, no Jornal na Unesp (Universidade Estadual Paulista), em homenagem ao centenário de nascimento de Milton Santos.

“Esse geógrafo tinha, ao mesmo tempo, grande capacidade de absorver o novo e de pensar o futuro. Seu espírito crítico, vez ou outra irônico, o levaria a leituras severas sobre o presentismo que nos cerca”, escreve a professora.

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No artigo em homenagem ao geógrafo, Maria Encarnação especula como Milton Santos, morto em 2001, lidaria com os tempos pós-modernos:

“Faz todo sentido conjecturar como agiria Milton Santos, com sua vitalidade intelectual e capacidade de observação, se estivesse hoje entre nós. Escreveria posts nas redes sociais comunicando suas ideias mais recentes? Alcançaria milhares ou milhões de seguidores no Instagram? Difundiria suas obras em podcasts?”. De uma coisa a professora não tem dúvida, ele seria severamente crítico às Inteligências Artificiais e à subserviência humana a essa ferramenta.

Jornalista de opinião

A verve crítica de Milton Santos e sua capacidade de analisar a realidade pensando sempre além do óbvio, é perceptível na vasta coleção de seus textos, preservados nas edições históricas de A TARDE sob a guarda do Centro de Documentação e Memória (Cedoc) do jornal. Parte desse material também foi reunido no livro “Milton Santos: Correspondente do Jornal A Tarde 1950 – 1960”, publicado em 2019, pela Labeur – IIG.

As reportagens e artigos de Milton para o jornal abordam desde as condições climáticas da Bahia até literatura, passando pelas notícias da zona cacaueira, policultura, desenvolvimento urbano e social, matriz energética e economia.

Chama a atenção os artigos sobre a geografia enquanto ciência social, já estabelecendo as bases para a disciplina como ela é vista na atualidade.

Capa do livro que reúne textos de Milton Santos para A TARDE

Capa do livro que reúne textos de Milton Santos para A TARDE | Foto: Divulgação

Sobre isso, o também jornalista, professor e historiador Cid Teixeira afirmaria sobre Milton Santos, em entrevista concedida ao A TARDE em 10 de julho de 2002: “Milton Santos é o divisor do pensamento geográfico. A geografia, antes dele, era apenas descritiva. Passou a ser interpretativa com Milton. A geografia, hoje, não se limita ao quê, mas ao porquê. É uma geografia que participa das coisas”.

Nos anos 1990, quando já não era redator, correspondente ou articulista do jornal, Milton Santos apareceria muitas vezes nas páginas de A TARDE como palestrante em seminários sobre urbanismo e desenvolvimento social e como fonte para comentar o então recente fenômeno da globalização.

“A cultura oficial brasileira, a dos homens oficialmente cultos do Brasil, nutriu-se, freqüentemente, de uma visão vesga do mundo. A globalização agrava essa vesguice”, afirmou.

Palestra de Milton Santos

Palestra de Milton Santos | Foto: Walter Carvalho | Cedoc A TARDE

Sobre a desarticulação dos blocos econômicos, especificamente, suas palavras são quase proféticas e ele parece ter previsto crises como a que levou ao Brexit, a saída da Grã-Bretanha da União Europeia em 2020.

“Experiências econômicas como Mercosul, Nafta e até a Comunidade Europeia simplesmente não darão certo. Estamos numa época de valorização da diversidade, nosso horizonte e nosso repertório é muito vasto. Qualquer tentativa de reduzir e normatizar esse horizonte está fadada ao fracasso”, analisou, no final da década de 1990.

Acadêmico de prestígio

Em 1964, após se exilar do Brasil por conta do golpe que levaria à ditadura militar – ele passou 13 anos fora do país – Milton Santos iniciaria a carreira acadêmica internacional que, três décadas depois, culminaria no Prêmio Vautrin Lud, em outras premiações e medalhas e em pelo menos 12 títulos de Doutor Honoris Causa por universidades brasileiras e estrangeiras.

Cerimônia de concessão do titulo de Doutor Honoris Causa pela Ufba

Cerimônia de concessão do titulo de Doutor Honoris Causa pela Ufba | Foto: Arlindo Félix | Cedoc A TARDE

Ele, porém, não se iludia e costumava afirmar: “O fato de eu ser negro e a exclusão correspondente acabam por me conduzir a uma condição de permanente vigília”.

Milton Santos, filho de dois professores primários – Adalgisa Umbelina de Almeida Santos e Francisco Irineu dos Santos – ambos formados pelo Instituto Central de Educação Isaias Alves (ICEIA), onde ele mesmo estudou na adolescência, na sua temporada no exterior deu aulas em universidades de três continentes.

Na Europa, lecionou na França e Itália; na África, ensinou na Tanzânia; e, nas Américas do Norte e do Sul, foi professor nos EUA, Canadá, Peru e Venezuela.

O currículo do intelectual, atualizado em junho de 2001, no mesmo mês em que ele morreu, aos 75 anos, no feriado de São João, tem 87 páginas. Todas as formações, atividades públicas, reconhecimentos em títulos e premiações podem ser consultados na internet, no site miltonsantos.com.br.

É impressionante, mas digno de um pensador que formulou ao menos dois sistemas teóricos completos, a Teoria dos dois circuitos da economia urbana e a Natureza do espaço. O currículo traz ainda a vasta bibliografia do intelectual, composta por 50 livros, além da participação em pelo menos mais 58 coletâneas.

Em Salvador, depois de campanha acirrada e quase 21 anos após a morte de Milton Santos, seu nome batizou a avenida em Ondina onde está situado o maior campus da Ufba.

A prefeitura sancionou a lei que alterava o antigo nome da via em 2022. O anúncio foi feito pelo prefeito Bruno Reis no dia 22 de fevereiro daquele ano, nas redes sociais.

“A Av. Adhemar de Barros agora passará a se chamar Av. Milton Santos, que era baiano e um dos maiores geógrafos da nossa terra. Ele é um dos intelectuais mais renomados do Brasil e contribuiu muito para a formação sociopolítica do nosso país”, escreveu Reis, na ocasião.

Para a professora Maria Encarnação Sposito, mais uma vez citando o artigo em homenagem ao intelectual, lembrar Milton Santos no seu centenário é um tributo da sociedade a um pensador genial e inspirador.

“Era genial porque, tendo se graduado em Direito, destacou-se no Brasil e no exterior pela Geografia que produziu. Suas ideias transcenderam este campo de trabalho e são lidas por pesquisadores de várias disciplinas, viajando além da seara acadêmico-científica para inspirar políticos, movimentos sociais e artistas de vanguarda”.

*Jornalista, Editora e Curadora do Cedoc A TARDE

*Com a colaboração de Rubem Coelho e Valdir Ferreira na pesquisa em acervo



Fonte: A Tarde

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