A banda Psirico inicia um novo capítulo de sua história com o lançamento de “Samba de Vaquejada”. Mais do que uma aposta musical para o período junino, o projeto encabeçado por Márcio Victor propõe a abertura de um verdadeiro movimento cultural.
O trabalho funde a tradicional batida percussiva do pagodão baiano com elementos marcantes do samba de roda, samba rural e piseiro, em um trabalho de imersão gravado no interior da Bahia, em Barrocas.
Para Márcio Victor, o laboratório para o novo ritmo foi um resgate de sua própria essência e uma resposta ao desejo do público. “Eu sou muito feliz em ver a nossa batida quebrando barreiras. O público hoje entende que no Carnaval nós temos uma tonalidade mais colorida, mais quente, e, quando chega essa época, a turma gosta de uma tonalidade mais terrosa, com esse cheiro de mato, com gostinho de milho e amendoim”, reflete o cantor.
O líder do Psirico relembra que sua base vem justamente dessa época do ano: “O Psirico começou na quadrilha junina Ra tim bum. O começo da nossa história vem de lá, onde eu fui marcador. Morei no sertão da Bahia, no município de Jaguarari, no distrito de Pilar, e conheci muito a nossa cultura”.
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Para a fusão, o artista aliou o uso do pandeiro de couro ao pandeiro de samba, referenciando grandes mestres nordestinos. “Estudei muito sobre Luiz Gonzaga e sobre Jackson do Pandeiro. Sempre vi que no forró tem um pandeiro. Jackson do Pandeiro é tão importante quanto Luiz Gonzaga, e pouco a gente fala dele. Acredito que Luiz Gonzaga está feliz com essas misturas e tem me abençoado e inspirado para continuar fazendo”.
Ele destaca ainda que nomes como BaianaSystem, Attooxxa e João Gomes já flertam com essa mistura rítmica, e que a banda sempre foi “muito corajosa” para experimentar.
O som e o sabor do sertão
O resultado musical é descrito pelo cantor de forma muito visual e sensorial. Segundo ele, a música traduz os sabores e aromas do Nordeste.
“Essa música tem a percussão do piseiro, essa cor do vaqueiro raiz mesmo, do xaxado, do Jackson do Pandeiro. É uma salada musical nordestina bem assim: com queijo coalho, uns pedacinhos de mandacaru. Ela tem esse gosto do pitu, da tripa com limãozinho, da farofa de água com cebola, manteiga de garrafa, carne frita de bode e cheiro de fogueira. Eu fiz juntando tudo isso para mostrar e fortalecer mais ainda toda essa cultura”, explica.
A inspiração veio de uma imersão que passou por nomes como o vaqueiro Alex Filho e os talentos do interior. “Eu vi que Alex Filho representava a galera jovem das vaquejadas. Quando acabava a procissão, eles iam para o paredão, tocava um forró meio xaxado e eles sambavam. Eu percebi o quanto o interior da gente tem essa cultura em lugares como Serra Preta. Fiquei encantado e chorei de primeira quando vi”, revela.

O projeto conta com o protagonismo de figuras reais do interior baiano e expoentes da dança regional, a exemplo de Crispim e do Apocalíptico, dançarino de Barrocas que virou febre nas redes sociais.
“O Apocalíptico é uma das coisas mais bonitas que tem hoje na internet. Tem a história de um vencedor e de uma cultura que ele representa de coração. A forma dele sambar é um samba de roda rural onde você percebe a África nele, você percebe aquele molejo do baiano de verdade. É novo você ver um vaqueiro que vem do interior da Bahia, ‘cabra retado’, sambar daquele jeito”, exalta Márcio.
O cantor detalha a riqueza dos movimentos populares: “Os aboiadores, os vaqueiros mesmos, são pessoas que defendem a boiada, e quando começa a tocar o ritmo, ele tem um molejo, um suingado fechado, e começa a se debochar. O que eles dançam é uma herança cultural rica. A forma de sambar é meio vaqueiro, meio capoeirista. O Crispim fazendo a ‘piega’, que é a forma de sambar mais autêntica ainda do vaqueiro, arrepia o corpo”.
“Os haters me amam”
Antecipando eventuais críticas sobre uma possível apropriação do gênero da vaquejada, Márcio é enfático e defende seu lastro cultural, lembrando que a intenção é jogar luz sobre esses artistas, comparando o movimento ao que ídolos globais fazem.
“Eles sabem que eu não sou um artista tentando entrar em algo nem fazer nada. Eu faço porque é a minha verdade, e eu tenho autorização, tanto ancestral como de amor. Fui muito bem recebido nessas casas”, declara. “Acho interessante a gente fazer isso porque você vê o Bad Bunny, ele acaba fazendo isso também, não com interesse comercial de se aproveitar, e sim de mostrar todo o movimento do qual ele faz parte. Eu vim do samba junino, eu preciso mostrar o samba junino”.
Ele ressalta que o Psirico sempre abriu portas para outros artistas, como É o Tchan e Léo Santana, e que lida bem com as críticas: “Eu já vi alguns comentários, acho que tem muita gente acostumada com a mesmice. Já sei que seria possível surgir algum comentário do tipo ‘não tem nada a ver’, mas no começo do Psirico também tive muita gente que rejeitou. Embora eu ache que os haters me amam, e todos os haters também vêm falando bem da música, quem ainda não entendeu, vai acabar entendendo com um certo tempo”.
Vaquejada no Carnaval?
Com a proximidade dos festejos de junho e o intenso debate do Ministério Público sobre o teto de gastos das prefeituras com atrações, o cantor defende o equilíbrio fiscal, mas faz um apelo contundente pela valorização da classe artística e das tradições locais.
“A cultura precisa ser mantida viva. Todo mundo entende que em todo município deve ter [festa], porque tem verba para isso. Além da verba da saúde, das escolas, do asfalto, tem a verba para isso. Fazer arte no nosso país não é barato, e se a gente sabe que tem um dinheiro voltado para isso, que seja feita essa divisão com respeito a quem faz essa cultura”, pontua Márcio, destacando que essa cadeia movimenta “ambulantes, policiais, médicos” e tantos outros trabalhadores.
O artista ressalta que a prioridade nos palcos deve ser o ritmo tradicional: “Nessa festa, principalmente, deve-se ter a prioridade cultural de responsabilidade com os ritmos nordestinos, o forró, o xaxado, o trio pé de serra. É importante valorizar os forrozeiros e a música do Nordeste. Isso mostra para o Sul que é importante também a gente exportar a nossa cultura”.

Apesar da temática voltada aos meses mais frios, o cantor garante que o “Samba de Vaquejada” será um movimento contínuo. Ele planeja um evento de lançamento onde pretende levar os artistas locais do interior para a estrada “ainda antes do Carnaval”. E não descarta levar a estética rural para a maior festa de rua do planeta:
“Se for para o Carnaval vai ser mais lindo ainda, porque vai ter mais potência do mundo inteiro respeitar a cultura do interior da Bahia, que é linda demais. Pode ser, sim, que a gente apareça no trio misturando tudo isso. Se a gente mostrar todo tipo de música, eu acho que vai ser massa. Tudo é possível na música, desde que seja feito com verdade”, conclui Márcio Victor.