A história recente do Comando Vermelho na Bahia pode ser contada a partir de seus líderes. Alguns estão presos em penitenciárias federais, outros permanecem foragidos e há aqueles que foram mortos ao longo das últimas duas décadas. Ainda assim, a facção segue expandindo sua influência em diferentes regiões do estado, sustentada por uma estrutura que sobrevive à queda de seus principais chefes.
A presença do grupo criminoso na Bahia não surgiu de forma repentina. Ela foi construída ao longo de anos, inicialmente por meio da Comissão da Paz (CP), organização criada dentro do sistema prisional baiano e que manteve vínculos históricos com o Comando Vermelho do Rio de Janeiro. Dessa relação nasceu uma das mais importantes transformações do crime organizado no estado, culminando na consolidação da bandeira do CV em bairros populares de Salvador e em municípios estratégicos do interior.
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A herança de Pitty
O processo atravessa diferentes gerações de lideranças. Da era de Éberson Souza Santos, o “Pitty”, considerado uma das figuras centrais da expansão da Comissão da Paz, até nomes que atualmente exercem influência sobre o tráfico em Salvador, Feira de Santana, Ilha de Itaparica e Extremo Sul baiano, a facção desenvolveu uma estrutura capaz de manter operações mesmo diante de sucessivas prisões e operações policiais.
Ao mesmo tempo, a expansão do Comando Vermelho ocorreu em meio a uma das disputas mais violentas já registradas na Bahia. O avanço da facção encontrou resistência do Bonde do Maluco (BDM), rival histórico que disputa territórios, rotas do tráfico e áreas de influência em diferentes regiões do estado. O confronto entre os dois grupos passou a ser apontado por autoridades como um dos principais fatores para o aumento dos homicídios e episódios de violência armada em bairros periféricos da capital e em cidades do interior.
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Os chefes da nova geração
As investigações policiais apontam que a atual estrutura do Comando Vermelho na Bahia é sustentada por uma rede de lideranças regionais que atuam de forma descentralizada, mas com forte conexão entre si. Esses nomes, segundo apurações, são responsáveis por administrar territórios, coordenar o tráfico de drogas, ordenar ataques e manter a ligação com integrantes presos em unidades prisionais dentro e fora do estado.
Val Bandeira
Entre os principais apontados está Josevaldo Bandeira, o “Val Bandeira”, identificado como uma das figuras mais antigas e influentes da organização no estado. Apontado como um dos fundadores do extinto Comando da Paz (CP), ele teria participado da transição que aproximou o grupo baiano da facção carioca Comando Vermelho.
Atualmente custodiado em presídio federal, Val Bandeira é tratado dentro da estrutura como uma liderança simbólica, ainda que, segundo investigações, não atue diretamente na linha de frente das operações. Sua influência, no entanto, ainda ecoaria na formação da hierarquia interna que atua especialmente no Complexo do Nordeste de Amaralina, em Salvador.
Pai Pequeno
Na linha de comando local, aparece “Pai Pequeno”, apontado como uma das principais lideranças operacionais do CV no Nordeste de Amaralina. Ele é descrito por investigações como uma espécie de autoridade interna responsável por decisões cotidianas da facção, incluindo julgamentos informais e resolução de conflitos entre integrantes.
Mesmo sem exposição pública, seu nome é associado ao funcionamento da chamada “gestão do território”, atuando como elo entre a base e lideranças de maior escalão. Ele é apontado como o principal operador da região nos dias atuais, especialmente após o enfraquecimento da atuação direta de lideranças presas.
Zói de Gato
Em Salvador, outro nome citado é José Carlos Ferreira dos Santos, o “Zói de Gato” ou “Olho de Gato”, apontado como liderança criminosa com atuação em bairros como Cosme de Farias e áreas adjacentes. Segundo investigações, ele teria histórico de envolvimento com crimes violentos e é citado como possível mandante de uma chacina ocorrida em Periperi, em 2014, que deixou seis mortos. Seu nome aparece em apurações como uma das peças responsáveis pela manutenção da influência da facção em áreas de forte disputa urbana na capital baiana.
Buel
Fechando o núcleo de maior prioridade das investigações está Anderson Souza de Jesus, conhecido como “Buel”, “Cris” ou “Esquerdinha”, apontado pelo Denarc como uma das principais engrenagens do tráfico e da logística armada da facção em Salvador e Região Metropolitana. Ele é investigado por tráfico de drogas, associação criminosa e aparece como alvo prioritário das forças de segurança da Bahia.
Segundo apurações policiais, “Buel” estaria escondido no estado do Rio de Janeiro e seria um dos principais fornecedores de armas para integrantes do grupo na capital baiana. Além disso, é apontado como mandante de dezenas de homicídios e exerce influência direta em áreas como Tancredo Neves, Engomadeira e Narandiba, onde manteria forte atuação no controle do tráfico local. As forças de segurança da Bahia e do Rio atuam de forma integrada na tentativa de localizar o foragido, considerado um dos nomes mais sensíveis dentro da estrutura investigada.
Tio Chico
Na Ilha de Itaparica, as investigações apontam a atuação de Angelo Martins de Cerqueira Neto, o “Tio Chico”, considerado um dos traficantes mais procurados da região. Ele é investigado por envolvimento em homicídios, tráfico de drogas e roubos, além de ser suspeito de ordenar ataques contra grupos rivais com o objetivo de ampliar o domínio territorial na ilha. Relatórios policiais indicam que ele teria papel de comando sobre ações coordenadas em pontos estratégicos de circulação e comércio local, o que o coloca como uma das principais lideranças do CV no Recôncavo e entorno de Salvador.
Juba
Em Feira de Santana, segunda maior cidade da Bahia, o destaque é Juliana de Almeida Leite, conhecida como “Juba”, apontada como uma das principais lideranças femininas da facção no estado. Segundo o Ministério Público da Bahia (MP-BA), ela atua na gestão direta do tráfico e na coordenação de uma célula conhecida como “Tropa da Juba”, com base no bairro da Queimadinha. Investigada em operação que denunciou mais de 30 integrantes do grupo, ela teve prisão decretada, mas segue foragida. Apurações indicam que estaria fora da Bahia, possivelmente sob proteção de integrantes da cúpula nacional da facção, o que reforça sua relevância dentro da estrutura.
Dada
Já no extremo sul do estado, o nome mais citado é o de Ednaldo Pereira Souza, o “Dada”, apontado como chefe do tráfico em áreas turísticas estratégicas como Caraíva e Trancoso, no município de Porto Seguro. Ele teria ligação com o Primeiro Comando de Eunápolis (PCE), posteriormente alinhado ao Comando Vermelho. Após uma fuga em massa registrada em 2024 no Conjunto Penal de Eunápolis, investigações indicam que ele passou a se esconder no Rio de Janeiro, circulando entre comunidades como Rocinha e Vidigal, com apoio de integrantes da facção. Em operações recentes, ele voltou a ser alvo de ações policiais que tentam localizar foragidos da fuga, mas permanece não localizado.
A influência
Em conjunto, essas lideranças formam o que investigações descrevem como uma estrutura pulverizada, mas funcional, que permite ao Comando Vermelho manter atuação em diferentes regiões da Bahia, mesmo diante de prisões, mortes e operações policiais. A lógica, segundo apurações, é de substituição constante de operadores locais, mantendo a continuidade das atividades criminosas sem depender de uma única liderança central.