Forrozeiros discutem sobre espaços para diversos gêneros no São João
O São João nem começou oficialmente, mas uma discussão já tomou conta nos bastidores da maior festa popular do Nordeste: até que ponto artistas de outros gêneros musicais devem ocupar espaço nos palcos juninos?
Enquanto prefeituras anunciam atrações sertanejas, do pagode e até do eletrônico em suas grades, músicos ligados ao forró defendem que a tradição não pode perder protagonismo.
Em entrevista ao MASSA!, o cantor Neto Bittencourt, vocalista da banda Tio Barnabé, fez uma defesa enfática da cultura nordestina e cobrou mais respeito à identidade da festa. Para ele, receber artistas de fora não é o problema. A questão é que muitos chegam ao São João sem qualquer conexão com a essência do evento.
“Se eu vou para a sua casa e você me convida, eu tenho que respeitar a sua casa. Se eu venho para a Bahia e encontro uma tradição centenária, eu preciso respeitar isso. Eu posso cantar meu estilo, mas tenho que respeitar a sanfona, a zabumba e a história que construiu essa festa“, afirmou.
Neto Bittencourt é vocalista da Tio Barnabé
Neto acredita que o forró deveria ocupar posição central nas programações juninas, assim como o axé e os blocos tradicionais são símbolos do Carnaval de Salvador.
“Se você vem para o Carnaval, encontra o trio elétrico, o Ilê Aiyê, os Filhos de Gandhy, o Olodum.Existe uma identidade. Por que no São João tem que ser diferente? Minha cidade está cheia de bandeirolas e fogueiras e você vai tocar sem nenhuma referência ao que representa essa festa?”, questionou.
Críticas aos cachês milionários
Durante a conversa, o cantor também criticou a diferença entre os valores pagos para artistas nacionais de outros gêneros e nomes históricos do forró.
Segundo o artista, existe uma inversão de prioridades quando atrações ligadas à cultura junina enfrentam resistência para fechar contratos, enquanto artistas de outros segmentos recebem cachês milionários.
“Acham caro pagar para artistas que construíram a história do forró, mas pagam R$ 700 mil para outros nomes. Para mim, nesse período, quem deveria ter prioridade são os artistas que representam a cultura junina”, declarou.
“O erro também está na gente”
Apesar das críticas, Neto entende que a responsabilidade não é apenas dos contratantes ou dos artistas de fora. Segundo o cantor, os próprios nordestinos precisam valorizar mais o patrimônio cultural que possuem.
“Se eu não proteger a minha cultura, a minha arte e a minha casa, quem vai proteger? O erro também está na gente. Mas acho que já existe uma conscientização maior dos gestores e do público sobre a importância de preservar essa tradição”, avaliou.
Leia Também:
Natural de Santo Antônio de Jesus, uma das cidades mais tradicionais do São João baiano, o cantor relembrou as próprias memórias para explicar sua relação com o forró.
“Quando eu canto forró, eu sinto o cheiro do milho, sinto o calor da fogueira. Isso faz parte da minha vida. É uma herança que veio dos meus avós, dos meus pais e que precisa continuar viva”, disse.
Cabe um equilíbrio?
Do outro lado do debate está Berguinho, criador do Seu Maxixe e atualmente em carreira solo. Embora concorde que o forró deve ser prioridade nos festejos juninos, ele acredita que a presença de artistas de outros gêneros é algo natural diante da grandiosidade das festas realizadas na Bahia.
“A cultura do forró tem que prevalecer sempre. Assim como no Carnaval os artistas ligados ao axé têm prioridade, no São João os artistas do forró também precisam ter espaço garantido”, afirmou.
No entanto, ele lembra que o calendário junino baiano movimenta centenas de municípios simultaneamente, o que amplia a necessidade de atrações diversas.
“São muitas cidades fazendo festa ao mesmo tempo, muitas atrações por noite e vários dias de programação. Chega um momento em que existe uma demanda muito grande e acaba sendo necessário contratar artistas de fora também”, explicou.
Berguinho, criador do Seu Maxixe
Cachê é questão de mercado
Sobre os altos valores pagos a algumas atrações nacionais, Berguinho avalia que o mercado funciona de acordo com a procura do público.
“Não acho que seja culpa do artista cobrar R$ 500 mil, R$ 700 mil ou até R$ 1 milhão. O cachê é consequência da demanda. Quanto mais cidades querem aquele show, maior tende a ser o valor”, pontuou.
Oforrozeiro destaca que cabe aos gestores públicos analisar se os investimentos são compatíveis com a realidade financeira de cada município.
“Quem precisa fazer essa avaliação é a prefeitura. É ela que vai entender se aquele valor cabe ou não no orçamento”, acrescentou.
Adaptar o show ou manter o estilo?
Outro ponto que divide opiniões é se artistas de outros gêneros deveriam adaptar seus repertórios para o clima junino. Berguinho acredita que, quando possível, esse cuidado pode aproximar ainda mais o público da apresentação.
“Quando o artista se preocupa com quem vai assistir ao show, ele prepara algo especial para aquele momento. Agora, uma coisa é querer fazer e outra é saber fazer. Não adianta alguém cantar forró apenas porque está no São João se não tiver identificação ou competência para isso”, avaliou.
Ainda assim, ele ressalta que muitos artistas apenas atendem aos convites feitos pelas prefeituras.
“Às vezes nem depende deles. O artista recebe o convite e vai prestar um serviço. Mas se conseguir inserir elementos do São João no espetáculo, acho algo positivo”, concluiu.