Quem é Vozinha, goleiro de Cabo Verde que ganhou 1 mi de seguidores

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A estreia de Cabo Verde em Copas do Mundo já seria histórica por si só – mas um dos personagens em campo tornou a partida ainda mais inesquecível. No empate em 0 a 0 contra a Espanha, nesta segunda-feira, 15, pelo Grupo H, o destaque foi Josimar José Évora Dias, o Vozinha, goleiro de 40 anos que segurou a atual campeã europeia e viveu o maior momento de uma carreira construída longe dos grandes holofotes.

Um dos atletas mais velhos da Copa do Mundo de 2026, o goleiro foi destaque diante da Espanha e confirmou, em campo, o peso que já carregava dentro da seleção cabo-verdiana. O jogo foi o 90º dele por Cabo Verde, o tornando o segundo jogador com mais partidas pela seleção, atrás apenas de Ryan Mendes, que soma 96.

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Destaque em campo, Vozinha se tornou visto também fora dele, sendo alvo de um “boom” de seguidores nas redes sociais e indo de 50 mil no início da partida a mais de um milhão no apito final.

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Vozinha nasceu em 3 de junho de 1986, em São Vicente, pouco antes da Argentina conquistar a Copa do Mundo do México. Apaixonado por futebol, o pai dele, o militar Zé Pedro, queria batizar o filho em homenagem a um jogador campeão daquele Mundial.

A primeira escolha foi Valdano, por causa do atacante argentino Jorge Valdano, então jogador do Real Madrid e campeão mundial com a Argentina. As autoridades cabo-verdianas, no entanto, não aceitaram o nome.

A alternativa, então, veio do Brasil. Zé Pedro e a avó de Vozinha torciam pela Seleção Brasileira e admiravam Josimar Higino Pereira, lateral-direito revelado pelo Botafogo que brilhou na Copa de 1986 com dois golaços, contra Irlanda do Norte e Polônia. Assim nasceu Josimar José Évora Dias.

“O meu pai e a minha avó torciam pelo Brasil, e meu pai gostava muito do Josimar”, afirmou.

Apelido que veio dos avós

Apesar do nome de batismo ligado ao futebol brasileiro, foi outro nome que acompanhou Josimar ao longo da carreira. O apelido Vozinha surgiu na infância, também em São Vicente, e tem relação direta com os avós, Maria Senhorinha dos Santos e Manuel da Luz Moraes, responsáveis por sua criação.

O goleiro não viveu com os pais quando era criança, porque o pai estava no serviço militar, e a mãe precisava trabalhar. Por isso, cresceu com os avós. Na rua onde morava, os meninos eram mais velhos, e os jogos de futebol costumavam ser duros.

“O apelido é por causa dos meus avós. Eu nunca vivi com meus pais, então sempre cresci com meus avós. Na minha zona os rapazes eram muito mais velhos e eu sempre jogava na rua, levando muita pancada“, relatou ao site da Fifa.

Competitivo desde pequeno, Josimar não aceitava perder nem apanhar sem reagir. Quando não conseguia dar o troco em campo, voltava para casa irritado, e os outros garotos passaram a dizer que ele ia reclamar com os avós. Da provocação, nasceu o apelido.

Vozinha por Cabo Verde na Copa do Mundo
Vozinha por Cabo Verde na Copa do Mundo – Foto: ROBERTO SCHMIDT

“Cresci numa rua também que não havia rapazes da minha idade, eu tinha que jogar sempre com os mais velhos e levava muita porrada. Era um pouco rebelde, não gostava de levar e não dar o troco, sempre arranjava forma de dar o troco para não ir para casa com a pancada ou com a porrada que eles me davam”, contou à ESPN.

“Muitas vezes ia com a cara trancada, chateada, cheia de raiva e falavam que eu ia fazer sempre queixas aos meus avós e começaram a me chamar de ‘Vozinha’. Ficava mais furioso por isso, mas com o tempo esse nome começou a ganhar outra dimensão”, completou.

Quando deixou Cabo Verde para jogar em Angola, ainda era chamado de Josimar. Mas, ao encontrar outro goleiro com o mesmo nome, adotou de vez o apelido da infância, e com o tempo, Vozinha deixou de ser provocação e passou a funcionar como homenagem aos avós que marcaram sua formação.

Sem escola de goleiros

Profissionalmente, Vozinha não teve o roteiro comum de atletas formados em grandes centros. Ele começou no futebol de Cabo Verde, onde a modalidade é semiprofissional, com passagens por clubes como Batuque e Mindelense.

Só saiu do país aos 25 anos, quando assinou com o Progresso do Sambizanga, de Angola, e teve sua primeira experiência profissional. “Não tive base ou aquela escola para me ensinar a ser goleiro e as técnicas”, contou.

“Foi sempre na minha força de vontade, no trabalhar, no saber ouvir e no saber aprender, que cheguei onde cheguei. Em 2012, consegui jogar o meu primeiro ano profissional em Angola“, disse.

A estreia pelo Progresso teve um detalhe especial – foi contra Rivaldo, pentacampeão mundial com a Seleção Brasileira, que na época defendia o Kabuscorp. Entre 2012 e 2014, Vozinha também veio ao Brasil com a equipe angolana para períodos de pré-temporada em Belo Horizonte e enfrentou Cruzeiro e Atlético-MG em jogos-treino.

Vozinha, goleiro de Cabo Verde
Vozinha, goleiro de Cabo Verde – Foto: Reprodução I X

Depois de Angola, buscou novos caminhos na Europa, defendendo o Zimbru Chișinău, da Moldávia, passando pelo Gil Vicente, de Portugal, se consolidando no AEL Limassol, do Chipre, onde ficou cinco anos, e depois atuando pelo AS Trenčín, da Eslováquia.

Mais recentemente, jogou pelo Chaves, da Segunda Liga Portuguesa, clube ao qual chegou em 2024 para ocupar a vaga deixada por Hugo Souza, que retornou ao Brasil após o fim do empréstimo e hoje defende o Corinthians.

Antes da Copa do Mundo, Vozinha encerrou o contrato com o Chaves e chegou ao torneio sem clube. Ainda assim, o retorno a Portugal teve importância pessoal para o goleiro.

“Era o momento de regressar a um país onde falam a mesma língua. Um lugar onde a comida e a cultura são um pouco idênticas à nossa. E um país mais perto de casa”, explicou.

Vozinha e Cabo Verde

Seis meses depois de se profissionalizar em Angola, Vozinha estreou pela equipe nacional em uma vitória por 2 a 0 sobre Camarões em 2012, resultado que ajudou o país a se classificar pela primeira vez para a Copa Africana de Nações, em 2013.

Desde então, disputou quatro edições da CAN e se tornou um dos jogadores mais queridos do país. Capitão durante as eliminatórias, ele viu a classificação para a Copa de 2026 como um marco coletivo, não apenas esportivo.

Vozinha por Cabo Verde
Vozinha por Cabo Verde – Foto: Reprodução I X

“Ver as pessoas chorando de alegria, um choro de orgulho, de sentimento, de pertencimento ao país. A seleção uniu o povo”, disse.

“Acho que foi o momento mais marcante das nossas vidas. E também do povo cabo-verdiano, porque foi um momento único, um sonho de várias gerações, que alguma vez jogaram ou começaram o futebol por algum lado. Sempre acreditámos que essa era a nossa vez”, afirmou.

Estreia histórica contra a Espanha

A primeira participação de Cabo Verde em uma Copa do Mundo começou diante de um dos adversários mais difíceis possíveis – a Espanha, campeã europeia e tida como a seleção mais forte do Grupo H.

O favoritismo espanhol, no entanto, esbarrou em Vozinha. O goleiro foi destaque no empate sem gols e ajudou Cabo Verde a conquistar um resultado histórico logo na estreia. Para quem completou 40 anos uma semana antes de disputar seu primeiro Mundial, a atuação teve sabor de consagração.

Vozinha por Cabo Verde na Copa do Mundo
Vozinha por Cabo Verde na Copa do Mundo – Foto: ROBERTO SCHMIDT

Malhação, Ivete Sangalo e Rogério Ceni

Curiosamente, a ligação de Vozinha com o Brasil vai ainda além de Josimar. O goleiro cresceu consumindo cultura brasileira em Cabo Verde, país que compartilha com o Brasil a língua portuguesa e muitos vínculos culturais, e tem um irmão que mora em Recife.

“Desde sempre víamos muitas novelas brasileiras depois dos telejornais. Lembro muito de Xica da Silva, Malhação e Rei do Gado. Consumimos também muita música brasileira que é muito boa e é muito rica. Gostava muito de Ivete Sangalo, Seu Jorge, Cidade Negra e Revelação. Minha avó era fã do Roberto Carlos“, contou à ESPN.

Vozinha por Cabo Verde na Copa do Mundo
Vozinha por Cabo Verde na Copa do Mundo – Foto: Reprodução I X

No futebol, os ídolos também passaram pelo Brasil. Além de Josimar, que inspirou seu nome, Vozinha admirava Rogério Ceni, Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho.

Gostava muito do Rogério Ceni porque era um goleiro que batia faltas e pênaltis. O Ronaldo Fenômeno e o Ronaldinho foram grandes ídolos”, disse.

A admiração por Ceni combina com a infância de um goleiro que, antes de se especializar na posição, gostava de jogar com os pés e se definia como competitivo. Vozinha não virou cobrador de faltas como o técnico do Bahia, mas construiu uma carreira marcada por personalidade e resistência.



Fonte: A Tarde

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