Orkestra Rumpilezz celebra 20 anos de inovação na música baiana

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Na garagem de casa, na sala, ou na mesa do café, onde houvesse espaço, havia música. Letieres Leite regia os irmãos com uma batuta feita de colher de pau. Um ficava na tampa. Outro, na colher. A irmã cantava. O pai batia palma.

Ele já era o maestro, antes mesmo de conceituar essa palavra”, lembra Liris Letieres, irmã do músico sobre como era a infância dela e do maestro que, anos depois, fundou a Orkestra Rumpilezz, um grupo que revolucionou as fronteiras da música instrumental e que completa duas décadas este ano.

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Liris Letieres guarda essas cenas na memória: “A vida de nossa família era cantar, dançar e tocar na garagem de casa”. Há um mês, Liris, que é educadora e escritora, lançou O Menino que Era Música, um livro infantil de ficção inspirado na infância do irmão, morto em outubro de 2021.

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O título é uma homenagem, claro, mas também uma tese: a de que a criança que bate em panela e ouve a chuva com atenção pode virar o maestro que reinventa um gênero. “Se as novas gerações conhecerem o universo mágico do meu irmão, possivelmente se interessarão pela obra que também resulta da sua infância”, afirma.

Invenção

Quando Letieres Leite apresentou ao mundo a formação da Orkestra Rumpilezz, em 2006, muita gente estranhou. Não era axé, não era MPB, não era jazz, exatamente. Era outra coisa. Uma coisa que ele estava inventando.

O músico André Becker, que toca sopros e é spalla da orquestra desde o início, lembra bem do espanto. “O que mais marcou foi exatamente a formação da orquestra, só com sopros e percussão, uma coisa bem inovadora”, conta. “E a visão que Letieres tinha era diferente: ele achava que ia criar um gênero musical, uma música afro-baiana diferente do axé, porque tem improvisação, porque não tem letra, não tem voz”.

A ideia era audaciosa. Letieres passou anos pesquisando o cancioneiro rítmico do candomblé, mergulhando nos terreiros, ouvindo o que a música de matriz africana dizia sobre ritmo, sobre corpo e sobre tempo. Ele queria fazer uma ressignificação não religiosa, mas cultural e estética. Pegar a raiz e mostrar o que ela podia gerar quando encontrava o jazz, a big band, a música instrumental erudita.

O baiano Jaime Nascimento, percussionista da orquestra desde o início, recebeu o convite ainda quando era aluno de música. A preparação virou obsessão. “Ele me passou os áudios em midi [formato de arquivo de áudio digital] para eu estudar as músicas”, lembra. “E eu ficava escutando dia e noite, minha esposa estava grávida do meu primeiro filho e já não aguentava mais! Mas ele sempre me dizia que isso seria algo revolucionário. E, de fato, foi”.

Letieres fazia questão de que todo mundo entendesse de onde vinha aquela música. “Ele fez questão de ter dentro do grupo pessoas com ligação profunda com o candomblé, mas também mostrou para quem não era da religião os valores rítmicos e culturais de cada elemento”, explica Jaime.

O maestro total

A documentarista Vanessa Aragão chegou à Rumpilezz pela academia. Pesquisadora, fez sua dissertação de mestrado na UFRB sobre a performance da orquestra e passou os últimos anos de vida de Letieres acompanhando de perto os bastidores, as viagens e os ensaios. A amizade cresceu junto com a pesquisa. Quando ele morreu, ela transformou o luto em documentário.

“Me chamava atenção a forma como ele construía o todo, como se criasse o seu mundo ideal”, diz Vanessa. “Desde as composições, o figurino, a estrutura dos instrumentistas no palco, a direção e produção musical, tudo vinha da cabeça e alma dele”.

Houve uma vez, conta ela, que Letieres foi filmar um projeto para o Sesc SP e assumiu também a direção audiovisual. Estava no palco, regendo os músicos e, ao mesmo tempo, orientando a equipe de filmagem. “Eu achei louco e genial ao mesmo tempo”, diz. “Era um maestro total mesmo”.

Esse “maestro total” também era um ser insaciável de encontros. André guarda uma história que resume bem o temperamento do amigo. Num festival, Letieres foi de artista em artista dizendo que tinha um projeto para propor ou uma parceria. “Quando a gente foi ver, ele tinha falado com várias pessoas a mesma coisa”, conta André, sem esconder o afeto.

Uma das marcas mais comentadas pelos músicos da Rumpilezz é o que Letieres fez com a percussão. Numa tradição musical em que os percussionistas ficam no fundo, ele os colocou na frente, em destaque.

Para quem toca percussão, o efeito foi profundo. Jaime conta que existe uma vida antes e outra depois da orquestra. “Passei a me enxergar como um músico muito mais consciente, mais sensível e mais profissional”, diz. “Com responsabilidade com a música, de tocar cada nota como se fosse a nota única que ia tocar o coração de cada pessoa”.

Havia também a dimensão econômica, discutida abertamente nos ensaios. “Ainda nos dias de hoje existe uma diferenciação de salário entre músicos”, explica Jaime. “Letieres enfatizava muito que todos os profissionais devem ser remunerados de forma igual”. André concorda: “Essa valorização que ele sempre deu para a percussão fez com que a gente reconhecesse também o valor de cada um, passei a reconhecer mais ainda a percussão e os percussionistas baianos”.

Semente

O impacto da Rumpilezz já extrapolou os músicos que tocaram com Letieres. O próprio nome da orquestra carrega essa síntese: rum, pi e lé são os três atabaques do candomblé – do maior ao menor – e o ‘zz’ vem do jazz. Hoje, esses instrumentos entraram no set das bandas de axé baianas, de acordo com André. “Qualquer banda de axé tem um rum agora”, observa.

Mas talvez o legado mais concreto seja o que continua sendo construído pelo Instituto Rumpilezz, fundado em 2019. Além de gerir e manter a Orkestra, a iniciativa abriga o Rumpilezzinho – programa socioeducativo de formação musical para crianças e jovens baseado na metodologia do Universo Percussivo Baiano – e o Quinteto Letieres Leite, entre outros projetos de pesquisa.

“O Instituto salvaguarda as criações artísticas, pedagógicas e os projetos idealizados pelo maestro”, explica Emílio Mwana, diretor institucional.

Sustentar tudo isso, no entanto, exige uma batalha que o público que enche as salas de concerto raramente vê. A discussão sobre como mudar isso ganhou força recentemente: em maio, uma audiência pública na Assembleia Legislativa da Bahia, proposta pela deputada Olívia Santana, reuniu músicos, gestores e sociedade civil para debater a criação de políticas permanentes de fomento para a Rumpilezz e para a Orquestra Afrosinfônica.

“Reunimos todos em torno de pautas essenciais para a continuidade e o fortalecimento do papel das orquestras na valorização da música de matriz africana e na formação de novos talentos”, resume Emílio.

Jaime faz um apelo. “Isso muda a vida de pessoas, muda a vida de famílias”, afirma. “A partir de uma semente, isso pode frutificar e fazer com que outros frutos nasçam dessa árvore maravilhosa que é a Orkestra Rumpilezz”.

A irmã do maestro resume o que Letieres deixou com a clareza de quem passou a vida inteira do lado dele. “O menino que batia na panela e ouvia profundamente o som da chuva virou o maestro que estudou ritmo afro-baiano com um olhar extremamente apurado. Ele não trocou de sonho. Ele só cresceu dentro dele”.

Comemoração

A Rumpilezz havia anunciado para o dia 30 de junho, no Teatro Sesc Casa do Comércio, um show com participação especial do consagrado bandolinista Hamilton de Holanda. O encontro foi adiado para o segundo semestre, mas o dia não vai ficar sem música: a orquestra abre ao público os ensaios de preparação para esse show, no mesmo teatro.

Ensaio aberto da Orkestra Rumpilezz

  • Data: 30 de junho
  • Endereço: Teatro Sesc Casa do Comércio, Salvador.

O som da Rumpilezz

Para conhecer a sonoridade da Rumpilezz, vale começar por três faixas emblemáticas:

  • “Banzo: Pt. 1”, uma das obras mais representativas do grupo, traduz em música a conexão entre os ritmos dos terreiros e a linguagem do jazz.
  • “Nanã”, com participação de Caetano Veloso, a música evidencia a força dos arranjos de sopros e percussão da Orkestra.
  • “Feira das Sete Portas”, exemplo da fusão entre tradição afro-brasileira, improvisação e sofisticação harmônica que marca o trabalho da Rumpilezz.



Fonte: A Tarde

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