Salvador recebe 1º Festival de Música de Terreiro com shows gratuitos

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Conhecido pela percussão popular, hipnotizante e bem soteropolitana do Olodum e da Banda Didá, o Centro Histórico abre passagem entre os próximos dias 1º e 3 de julho para a sonoridade conectada diretamente com a espiritualidade de todo o País. O primeiro Festival de Música de Terreiro vai reunir na capital baiana o som produzido por 15 diferentes entidades das cinco regiões do Brasil.

De fato, a musicalidade ancestral das religiões de matriz africana está presente no cancioneiro popular pelo menos desde os anos 60, com Os Tincoãs, e influenciou largamente projetos de sucesso como a Orquestra Rumpilezz, criada pelo maestro Letieres Leite, falecido em 2021.

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Um tema que causou a discussão sobre a pertinência de se levar os cânticos sagrados do Candomblé para a vida cotidiana e profana. Inclusive, pelo fato de artistas que não são ligados ao axé usarem a estética e melodias dos terreiros em composições que se tornam sucessos nacionais.

Pois, pela primeira vez, um festival de música tem como missão levar essa arte sagrada ao grande público, a partir do próprio povo de santo. As conversas para a realização do festival começaram no ano passado, a partir de uma decisão do Ministério da Igualdade Racial, que manteve diálogo com gestores e lideranças de entidades voltadas à promoção de comunidades de matriz africana e povos de terreiro. Outros estados se candidataram a sediar o festival, mas decidiu-se pela Bahia.

Outro contexto

Alabê do Terreiro do Gantois e integrante do Grupo Ofá desde 2001, o sociólogo Iuri Passos considera “superimportante” que a música de terreiro seja reconhecida pela sociedade. “Acreditamos, sim, que essa música tem que ser tocada, divulgada e apreciada em um outro contexto, para o nosso povo se divertir, não só no contexto religioso, com todo o significado que tem, mas fora dele também”, pondera Iuri, que também é professor de música.

Desde o ponto de vista educacional, o sociólogo considera difícil mensurar a importância de que a música dos terreiros circule pela sociedade, mas aponta a necessidade de que essa música seja apreciada também pela sua história e por tudo o que ela carrega.

“Ela já foi tirada de nós há muito tempo”, afirma o sociólogo, ao declarar que várias canções em ketu, ijexá e angola tiveram partes de sua melodia usadas por compositores populares e fizeram sucesso nacional. “É o momento de nossa música ser reconhecida com o nosso povo, saindo de nossas mãos”, afirma o sociólogo.

Em 2020, o Ofá foi indicado ao Grammy Latino de Música Raiz com o álbum Obatalá, gravado em homenagem a Mãe Carmen, ialorixá do Gantois, que morreu em 26 de dezembro do ano passado.

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Combate à intolerância

A realização do festival, que acontece de 1º a 3 de julho, coincide com duas datas importantes: a Independência do Brasil na Bahia, no dia 2, e o Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial, no dia 3.

“Para a gente, ter o festival e ainda com esse foco de combater a intolerância é importante. A gente já usa essa música como arma contra todo tipo de intolerância”, declara o sociólogo, ao exaltar a iniciativa desse evento, e ao mesmo tempo cobrar que festivais de música popular incluam esse gênero na grade da programação

“Há vários festivais acontecendo em Salvador, no Brasil, em que cabe essa música nossa. É uma questão só de as pessoas abrirem a cabeça e observarem a qualidade dessa música”, avalia o sociólogo.

Iuri Passos reclama maior visibilidade para esse gênero: “O que não é visto não é lembrado. Se a gente consegue concorrer nos festivais de música brasileira, nos festivais internacionais, a gente consegue apoio para produzir mais discos e assim conseguir levar essa música para toda parte do mundo”.

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Foto: Divulgação

A direção artística do evento, que acontece em cinco espaços do Centro Histórico, está a cargo do próprio Iuri e do também sociólogo José Maurício Bittencourt, que também é produtor e poeta. “Esse é um festival que preza pela valorização, pela difusão e pela salvaguarda da musicalidade de terreiro”, afirma José Maurício.

E não se trata apenas de um evento a mais no calendário. Para José Maurício, o festival reflete uma articulação nacional em curso para tornar a música de terreiro um patrimônio imaterial. “Há um grupo pesquisando e fazendo um requerimento para a patrimonialização”, explica o sociólogo, para quem o festival em Salvador é um marco de uma provocação ao debate nacional de salvaguardar a música de terreiro.

Sobre a importância da dimensão nacional do evento, José Maurício sublinha que há uma caracterização da Bahia como um território negro fora da África, mas que há territórios negros pelo país inteiro. “A tradição do batuque de Pai Alfredo, do Rio Grande do Sul, traz essa presença, essa musicalidade no sul do País”, aponta o sociólogo.

Liderança

De poucas palavras, respostas sucintas, Pai Alfredo é uma das principais lideranças espirituais de Porto Alegre, além de ser educador cultural e articulador de redes comunitárias do que ele mesmo define como “nação africana” no Rio Grande do, Sul, um estado que, segundo o IBGE, tem maior percentual de adeptos das religiões afro-brasileiras do que a Bahia. “Aqui no Sul não é Candomblé, é nação africana”, esclarece Pai Alfredo, sem espichar a conversa.

Pai Alfredo é neto de Renato José Ferreira, o “Guluia”, um ex-presidente da Colônia Africana, como se chamava o território em que residiam no século 19 ex-escravizados na região que hoje pertence ao bairro Bonfim, majoritariamente branco.

Durante a entrevista por telefone, Pai Alfredo aponta o distanciamento entre as culturas negras dos dois estados. “Pelo que eu sei, o pessoal da Bahia não conhece o Batuque do Sul, né?”, indaga o líder religioso, referindo-se a um termo genérico aplicado aos cultos afro-brasileiros em terras gaúchas desde o Século XIX.

“Como nós fomos convidados para o festival, nós vamos mostrar como a gente toca aqui no Sul”, declara Pai Alfredo, ao afirmar que deve haver mais de 20 mil casas de batuque em Porto Alegre.

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Foto: Divulgação

Em outro ponto do mapa do Brasil, mas precisamente em Pernambuco, Mestre Fabiano recorre à tragédia histórica da escravização para explicar por que se declara favorável à disseminação dos toques sagrados além dos limites dos terreiros.

“Se a africanidade fosse para ficar contida na África, que os racistas não tivessem nos sequestrado”, afirma o mestre, que presidente do Afoxé Alafin Oyó, bacharel em Direito e integra as comissões de Cultura, Igualdade Racial e Verdade da Ordem dos Advogados de Pernambuco e também da Associação Pernambucana de Advocacia Negra.

O mestre também faz uma analogia entre percussão e repercusão e traça uma linha entre arte religiosa e religião. “Não cabe em momento algum da civilidade se prender à guetificação da musicalidade, mas da forma de viver o Candomblé. É diferente”, pontua o líder.

Mestre Fabiano salienta que os territórios sagrados permanecem sagrados: “A fé é objetiva, depende de cada um. Mas a forma da sonoridade, do tocar, do encantar, precisa ser percutidar.

Sensibilização

Mestre Fabiano considera ainda que a música de terreiro é um instrumento de sensibilização na luta contra o racismo. “Para que não se pense como racista que diz não gostar de samba. Porque ele não será um bom sujeito”, declara o líder, sorrindo.

Nascido em uma família dividida entre o Candomblé e o catolicismo e filho de Xangô, Mestre Fabiano ressalta que teve que superar o que chama de relações de negação. “O orixá se apresentou na minha vida aos dois anos de idade. No mês de janeiro, o meu corpo se enchia de feridas”, conta o mestre.

A reação da família foi creditar as chagas a uma intoxicação alimentar. “Pensaram que foi um biscoito de chocolate, que na época era raro”, relata o religioso. “Aos 13 anos, minha tia me levou para tomar um banho de pipoca e tudo isso acabou”, diz o mestre.

A musicalidade na vida de Mestre Fabiano é uma questão familiar. Um de seus ancestrais por parte de pai foi rei do Maracatu Nação Elefante, registrado em 1800. “Ele só pôde revelar à mulher a sua relação com a religião de matriz africana depois de ter o primeiro filho”, conta o mestre.

Através de sua assessoria de comunicação, a diretora de Políticas para Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana e de Terreiros do Ministério da Igualdade Racial, Luzi Borges, justificou a escolha de Salvador “Essa decisão dialoga com o protagonismo que a Bahia vem assumindo na implementação da Política Nacional para Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana e Povos de Terreiro”, diz a diretora, salientando que a Bahia foi o primeiro estado brasileiro a concluir o processo de adesão a essa política nacional, além de pactuar um plano de ação conjunta. Segundo o ministério, a Bahia cumpriu todos os protocolos estabelecidos para a cooperação.

Sobre a importância do evento, a diretora afirma que a musicalidade de terreiro é uma das mais importantes formas de preservação da memória, da ancestralidade e dos conhecimentos produzidos pelos povos de matriz africana no Brasil. “O Festival de Musicalidade de Terreiro não foi pensado para transformar o sagrado em espetáculo, mas para reconhecer e valorizar uma dimensão fundamental da cultura brasileira que, historicamente, foi invisibilizada e alvo de perseguições”, afirma Luzi.

O nome oficial do evento, de acordo com o Ministério da Igualdade Racial, é Festival de Musicalidade de Terreiro. Na página da plataforma Sympla, onde os ingressos podem ser retirados gratuitamente, o nome é Nzo Olorin – Festival Nacional de Música de Terreiro.

Serviço:

NZO OLORIN – I Festival Música de Terreiro

Quando: 1º a 3 de julho de 2026

Onde: Centro Histórico (incluindo o Pelourinho), com eventos no Espaço Cultural da Barroquinha, Escola de Dança da Funceb, Casa da Igualdade Racial, Largo Tereza Batista, Largo Quincas Berro D’Água e Praça das Artes Mestre Neguinho do Samba

Quanto: Gratuito

Inscrições para oficinas e painéis devem ser feitas pela plataforma Sympla



Fonte: A Tarde

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