O cronista é um escritor que fala de tudo, dos eventos mais comuns do cotidiano aos temas mais altos. Destes alguns acabam sendo fortemente sofridos – como este para mim, ao receber, no começo da manhã do último dia 27, através do amigo Paulo Martins, informação a respeito da morte do um grande amigo, o poeta e imenso intelectual Alexei Bueno. Notícia que eu jamais esperaria receber, pois Alexei era vinte anos mais novo do que eu e homem de importantes projetos pela frente.
Nossa amizade foi-se firmando através de trocas de publicações – e certa vez, antes que nos conhecêssemos pessoalmente, ele, então editor na Nova Fronteira em 1996, lutou pela publicação dos originais que lhe enviara, a seu pedido, do livro “Memória da Chuva”, que acabou recebendo, dois anos depois, o Prêmio Ribeiro Couto, da União Brasileira de Escritores, do Rio de Janeiro.
Depois, com viagens minhas ao Rio e deles à Bahia, foi-se fortalecendo a amizade e ele acabou sendo, ao lado de Ivan Junqueira, um dos principais críticos da minha obra poética. Inclusive no seu importante livro “Uma História da Poesia Brasileira”, publicada no Rio, em 2007, pela Casa Editorial G. Ermacoff, trabalho que lhe rendeu muitas admirações como desagradou a outros porque o autor não era de fazer agrados sem merecimento.
Leia Também:
Como todo intelectual de alto nível, Alexei tinha também a ética em alta conta, algo inteiramente inegociável. Assim, jamais escreveria um livro para promover mediocridades.
Ele morreu no dia 27, tendo, vinte dias antes, posto este autógrafo em sua peça de teatro – um Auto Sacramental intitulado O Poste: “Para o grande Ruy, com a velha amizade e a sempre nova admiração, Alexei Bueno, Rio, 7-6-2026.” Recebido o livro, li-o quase de imediato e lhe enviei mensagem, pelo WhatsApp, com todos os merecidos elogios.
Mas, logo comecei a estranhar a demora na resposta, o que nunca acontecia. Assim, aguardei uns dois dias e, de súbito, pelo WhatsApp dele, sua ex-mulher, Mara, mãe do seu filho, Ulisses, escreveu-me falando do internamento dele em um hospital. Pensei ser coisa de rápida solução. Porém, logo em seguida, a notícia da morte. Um dos maiores choques da minha vida.
Falei dele como poeta e intelectual de rara formação, o que é a pura verdade. Era altamente honrado em Portugal por, sobretudo, seus excelentes estudos de Camões. No Brasil, publicou obras diversas, em verso e em prosa, o que atraiu a admiração de todos os que se dedicam à literatura e à cultura em geral.
Eu sou um dos privilegiados, como Florisvaldo Mattos, por termos merecido suas atenções. Assim serão imensas também as saudades na Bahia. Porque Alexei Bueno foi um dos grandes de qualquer tempo e lugar. Saudade sempre, querido amigo.
*Escritor, pertence à Academia de Letras da Bahia