Osba retoma lugar de anfitriã do TCA após três anos de obras

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Em 2023, no início da reforma mais recente feita na Sala Principal do Teatro Castro Alves, fechada durante três anos após um incêndio no teto, o arquiteto paulista José Augusto Nepomuceno fez uma visita ao local para começar a averiguar o que poderia ser aproveitado e o que precisaria ser comprado para que o maior equipamento cultural da Bahia fosse reaberto ao público.

Com a experiência de quem colaborou com a recuperação de uma sala do Lincoln Center, em Nova Iorque, e na Sala São Paulo, em seu estado natal, Nepomuceno foi contratado pelo Governo do Estado da Bahia como consultor técnico da reforma no TCA. Uma reforma que, antes do incêndio, já tinha reestruturado a Concha Acústica e a Sala do Coro.

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Ao caminhar em meio às poltronas do teatro, Nepomuceno abaixou-se para arrancar um pedaço do carpete e ver o que havia por baixo. O arquiteto descobriu um maravilhoso piso de madeira, uma excelente notícia não apenas pela presumível economia no orçamento, mas também porque a madeira é um material extremamente adequado para a propagação do som.

Uma das pessoas que mais comemoraram a descoberta foi o maestro Carlos Prazeres, da Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba). Depois de três anos fazendo concertos clássicos e de música popular na Concha e em outros espaços da cidade, a Osba está de volta à sua casa desde o início deste mês, logo após a festa de reinauguração da Sala Principal.

A festa tem sido em grande estilo. O projeto Osba de volta ao TCA, com cinco espetáculos temáticos, inclui música, dança e teatro. Eventos que servem para celebrar a volta do espaço, mas também cumprem o papel de verificar as condições técnicas pós-reforma. Uma operação teste.

Os dois primeiros eventos, o Concerto da Bênção e o Concerto da Folia, já aconteceram. Hoje, será realizado o Concerto das Cidades, com a participação de Baiana System, Antônio Carlos e Jocafi, Larissa Luz e Guigga Maraká, além de uma apresentação de Los Catedrásticos. No próximo dia 18, será o Concerto Afro e, no dia 25, o Concerto do Amor.

Nos dois primeiros espetáculos, a Sala Principal passou na avaliação do maestro, que elogiou, por exemplo, a retirada do gesso no teto, o que ajuda na propagação do som. “Antigamente, o som da orquestra em concertos clássicos não chegava muito bem às últimas fileiras da plateia”, lembra o maestro, que ressalta o fato de ter sido convidado pela direção do teatro, antes da reforma da sala, a opinar sobre o projeto.

A opinião do maestro é corroborada por quem executou a reforma. “A remoção do forro de gesso proporcionou um acréscimo expressivo de volume na região da plateia”, ratifica Nepomuceno. No lugar do forro de gesso, projetou-se um plano horizontal de grade metálica, onde foi instalado o sistema de luz do tipo “céu de estrelas”, constituído por vários pontos luminosos.

Prazeres destaca que a acústica do teatro está muito boa para concertos de música popular, mas destaca que o grande teste para a Osba será em setembro, quando a orquestra se apresenta no local com um repertório clássico.

O maestro demonstra otimismo com a Sala Principal, até porque o TCA encomendou uma nova e moderna concha acústica de concerto, uma torre de sete metros de altura, que está sendo fabricada pela Wenger Corporation, referência mundial no equipamento, cuja data de chegada ainda não foi definida. A concha acústica de concerto é um aparato que, no palco, ajuda a equalizar o som dos instrumentos.

Apesar de expressar satisfação com a reforma da Sala Principal do TCA, Prazeres sonha com um espaço específico para concertos de música clássica em Salvador, o que beneficiaria não só a Osba, mas o Neojibá e a Osufba. “Seria bom ter algo como a Sala São Paulo. Mas essa deve ser uma demanda da sociedade”, pontua Prazeres.

Convidado pela Secult-BA para desenhar o projeto da volta da sala principal, o dramaturgo e diretor artístico Elísio Lopes Jr assinala que o TCA é uma referência para todas as artes, o que impactou na definição do trabalho. “A gente está tentando fazer com que cada experiência, cada concerto seja, na verdade, um espetáculo multicultural”, diz.

Sobre a anfitriã, a Osba, o autor que assina o texto da novela A Nobreza do Amor ressalta que a orquestra mudou muito nos últimos anos sob a batuta de Carlos Prazeres. “Há uma busca de dialogar com outras vertentes musicais que o maestro e a orquestra vêm fazendo”, assinala Elísio.

Ele também elogia a configuração técnica do teatro: “A sala preserva o que é familiar para a gente, mas hoje tem um piso de madeira que é bom, o piso do palco foi alterado e a gente ganhou mais tecnologia”.

Parceria

Da curadoria musical do projeto, o cantor e compositor Manno Góes afirma estar havendo muita escuta e muita parceria na construção dos repertórios, além do componente pessoal na entrega. “A partir do momento em que a gente reflete sobre o tema, tenta dialogar sobre esse tema por meio das músicas escolhidas, dos arranjos e dos artistas que vão interpretá-las”, explica Manno.

O músico também menciona a sua relação sentimental com o espaço. “Tem sido muito emocionante. O Teatro Castro Alves não é só um prédio, é reflexo de nossa identidade cultural, da nossa cidade, das nossas expressões artísticas”, diz ele, que afirma ter sentido desde o primeiro momento desse trabalho com a Osba uma responsabilidade muito grande e, ao mesmo tempo, um envolvimento afetivo da classe artística soteropolitana presente no projeto. “É uma história vivida por cada um que passa diante de nossos olhos e se reflete no espetáculo”, pontua o artista.

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Equipe internacional

Imagem ilustrativa da imagem Osba retoma lugar de anfitriã do TCA após três anos de obras
Foto: Caio Lírio | Divulgação

As mudanças técnicas realizadas na Sala Principal do TCA, durante a reforma mais recente, foram explicadas com exclusividade ao A TARDE pelo arquiteto José Augusto Nepomuceno, que liderou uma equipe internacional de técnicos, formada por Julio Gaspar, Paul Scarbrough, Silvio Oksman e Yoanny Calvo.

Foram instalados dois painéis sobre o proscênio, a parte anterior do palco, localizada junto à ribalta. Essas peças têm por função melhorar as condições de propagação de som. “É como uma cúpula ou grandes elementos que voam. Estes painéis melhoram as condições de energia sonora geral para a escuta musical”, explica Nepomuceno.

O arquiteto pontua que, antes dessa intervenção, a orquestra colocada no palco da Sala Principal do Teatro Castro Alves ficava “segregada” acusticamente da plateia.

O volume de ar do palco, que é expressivo, pode ultrapassar o volume de ar da plateia. Com isto quando os músicos tocam no palco parte importante da energia sonora se “perde” na caixa cênica, ao invés de se propagar para o público, prejudicando a escuta da música não só para o público como entre os músicos que têm dificuldade de escutar uns aos outros.

“É um problema crítico e que merece uma solução radical”, enfatiza o arquiteto, que recomendou ainda a instalação de conchas acústicas da Wenger. “Se não o único, é o mais reconhecido fabricante deste sistema em todo o mundo. São torres verticais com sete metros de altura e painéis de teto que são montados e articulados ao redor da orquestra nas apresentações de concerto e são removidos, deslizados para as coxias, quando a orquestra não está no palco”.

Nepomuceno afirma que as salas de ensaios de naipes e da orquestra foram totalmente reprojetadas e proporcionam ambientes com alto nível de definição sonora. “No palco, a reforma foi técnica com foco em melhoria de tecnologia e segurança”, pontua.

Uma das intervenções foi a introdução de varas motorizadas atendendo às normas internacionais e com capacidade de carga útil de 600 quilos por vara ou mais. Varas cênicas são tubos metálicos suspensos no teto do palco, que seguram cenários, cortinas, iluminação e equipamento de som. “As varas cênicas anteriores tinham limite de 125 kg cada. Isso é o que se usa em teatros escolares”, comparou o arquiteto.

A intervenção na Sala Principal foi uma atividade técnica dividida em dois setores: plateia e palco. “A intervenção na plateia foi cirúrgica, atendendo a questões de melhoria da acústica para música não amplificada e ao mesmo tempo o restauro do espaço”, afirma Nepomuceno, ao propor um espaço que mantivesse “diálogo contemporâneo” com a sala anterior.

O arquiteto enaltece a estrutura do complexo do Teatro Castro Alves, incluindo a Sala do Coro e a Concha Acústica, e o situa entre os mais importantes equipamentos culturais do mundo. “A construção de algo desse porte, hoje em dia, não sairia por menos de R$ 1 bilhão”, estima Nepomuceno, que teve o primeiro contato profissional com o TCA bem antes do incêndio, em 2010, um ano depois do lançamento do Concurso Nacional de Anteprojetos Arquitetônicos para Requalificação e Ampliação do Complexo TCA.

Música popular

Durante seus três anos de itinerância, a Osba intensificou a popularização do seu trabalho com concertos de música popular, com os seus músicos constantemente fantasiados. Uma estratégia que causou um debate intenso sobre a natureza das orquestras sinfônicas e a profanação da música erudita, mas ao mesmo tempo lotou as apresentações na Concha Acústica, com o público cantando a plenos pulmões o repertório brega, cancioneiro junino e sucessos carnavalescos. Mas entre um Morares Moreira e um Luiz Gonzaga, sempre havia uma pausa para ouvir um clássico europeu.

Agora, a Osba está de volta ao seu endereço original. De volta para o seu aconchego, como diriam Nando Cordel e Dominguinhos. E nada mais justo do que ao trazer de volta as suas malas faça uma apoteótica reentrada na companhia de toda a cultura popular baiana.



Fonte: A Tarde

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