“Estou com um sentimento de realização. Porque a gente sabe que a nossa luta é contra um batalhão, contra uma corporação inteira. E a gente sabe que não é fácil”.
Esta declaração é da funcionária pública Luzia Cerqueira dos Santos, de 56 anos, mãe do guia de turismo Victor Cerqueira Santos Santana, morto durante uma operação conjunta das polícias civil e militar, no dia 10 de maio de 2025, no distrito de Caraíva, em Porto Seguro.
Em entrevista exclusiva ao A TARDE após a decisão do MP, dona Luzia expressou esse sentimento depois do Ministério Público da Bahia (MPBA) oferecer denúncia contra seis policiais – quatro militares e dois civis – envolvidos na morte de Vitinho, como o filho era carinhosamente chamado.
“Estamos nos sentindo meio que realizados porque ainda tem mais coisa para acontecer na vida desses homens [policiais]. Se é que se pode dizer homens. Sei que não vai trazer a vida do meu filho, disso eu sei, mas é pela honra, a honra do meu filho”, desabafou.
Em meio à emoção, ela relembrou a índole de Victor, seu único filho.”Meu filho era uma pessoa honesta, digna, um menino de bom caráter, um menino generoso, amigo, educado, respeitador. A dignidade do meu filho foi revelada. A gente sabia, claro, mas tinha muita gente que acreditava que ele era errado. E a gente sabe que existe isso”, reafirmou a senhora.
A prima de Victor, a neuropsicopedagoga Adriana Souza, também conversou com a reportagem e falou sobre seu sentimento diante da denúncia apresentada pelo Ministério Público, nesta quinta-feira, 16.
“Estamos felizes por ter sido feita a denúncia. Estamos há mais de 400 dias em luta e orações. Esperávamos muito por esse registro da denúncia e, graças a Deus, foi protocolada”, declarou Adriana.
Ela revelou também que a família teve algumas reuniões com representantes do Ministério dos Direitos Humanos e Igualdade Racial.
“Na oportunidade, ficamos comprometidos em atualizar os representantes dos ministros, dos andamentos e, assim, já fizemos. Agora, aguardamos a decisão do judiciário em aceitar a denúncia”, avaliou.
“Temos certeza absoluta da idoneidade de Victor e de que ele era trabalhador. Espero sinceramente que o juiz entenda que um homem honesto foi assassinado”, continuou Adriana.
Denúncia do Ministério Público
O Ministério Público do Estado da Bahia (MPBA) denunciou à Justiça quatro policiais militares e dois policiais civis pelas mortes de Victor e de outro homem identificado como Davisson Sampaio dos Santos, mais conhecido como Alongado. Este último seria o alvo da Operação Travessia e, na ocasião, tinha mandado de prisão em aberto.

Durante a ação do dia 10 de maio de 2025, em Caraíva, distrito de Porto Seguro, um homem, que não teve o nome revelado, foi preso. A operação tinha como objetivo o cumprimento de mandados de prisão e de busca e apreensão.
De acordo com Adriana, um homem identificado apenas como João Victor também seria alvo dos policiais. Ela revelou que há suspeita de que Vitinho foi morto por engano.
“O João Victor, que dizem ter confundido com Victor, era mesmo o segurança do Alongado. Também tinha mandado de prisão emitido pra essa operação. Era um cara branco”, finalizou a prima.
Além da denúncia, o MP pediu o afastamento cautelar dos seis agentes durante a tramitação da ação penal. Eles foram denunciados por dois homicídios qualificados. Os dois policiais civis também responderão por fraude processual, por supostamente alterarem o estado de coisas após os fatos.
Ainda segundo o Ministério Público, as investigações indicam que as vítimas foram mortas fora de uma situação concreta de confronto e em condição de vulnerabilidade durante a atuação dos agentes.
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Posicionamento da Polícia Militar
O Portal A TARDE entrou em contato com as Polícias Civil e Militar para saber quais medidas administrativas teriam sido adotadas pelas corporações, se foi instaurado procedimento interno para apuração dos fatos e qual foi o posicionamento institucional em relação às acusações formuladas pelo Ministério Público. Os órgãos responderam por meio de nota.
Nota na íntegra da Polícia Militar
“No que se refere a decisões judiciais, sugerimos contato com o Ministério Público do Estado da Bahia, órgão responsável pelo exercício da atividade jurisdicional e competente para prestar informações atualizadas acerca do respectivo processo.
A Polícia Militar da Bahia ressalta que cumpre integralmente todas as determinações e decisões judiciais que lhe são regularmente encaminhadas, observando rigorosamente os preceitos legais e constitucionais aplicáveis”.
Posicionamento da Polícia Civil
“A Polícia Civil da Bahia informa que não coaduna com qualquer ato de violência ou conduta que contrarie os critérios e as normas legais vigentes. O caso é acompanhado por meio de sindicância instaurada pela Corregedoria da Polícia Civil (Correpol), que apura as circunstâncias dos fatos”.