Por que o teatro infantil ainda é tratado como “menor” em Salvador?

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“‘Menor’ pode ser o alcance de alguém ao sensível, nunca o teatro para as infâncias feito com empenho, talento e qualidade”. A frase é da atriz e diretora Débora Landim, doutora em Teatro pela Ufba e fundadora da Companhia Novos Novos.

Ela resume um incômodo antigo de quem faz arte para o público infantojuvenil em Salvador: a suspeita, recorrente entre parte da classe artística e da imprensa, de que teatro para criança seria uma categoria menos importante, menos complexa, menos digna de crítica e de cobertura séria.

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Débora não está sozinha nessa provocação. Neste mês de agosto, enquanto Salvador tem em cartaz pelo menos dois espetáculos que colocam a infância no centro da cena – o musical Maria vai com as outras e o espetáculo Fala, Ìbejí – os próprios realizadores da cidade seguem tensionando essa hierarquia informal entre “teatro sério” e “teatro de criança”.

O encenador Gil Santana sente essa hierarquia na prática todos os dias. “Eu vejo como um trabalho grande, forte e de formação”, explica. “Mas essa ideia de menor, ainda permeia, principalmente na classe artística e meios de comunicação”.

Para ele, o problema aparece de forma concreta na pouca cobertura de imprensa. “É muito raro termos uma página em site ou jornal direcionada para os espetáculos infantis, um ou outro produtor é agraciado”. E quando aparece, segundo Gil, costuma privilegiar montagens vindas de fora do estado.

Débora concorda que a percepção de menoridade artística já foi superada do ponto de vista estético entre quem produz, mas reconhece que ela sobrevive onde o dinheiro circula.

“Essa percepção do teatro para as infâncias como menor, infelizmente, persiste sim no âmbito dos fomentos para a realização de projetos, quer vindo recursos públicos, quer da iniciativa privada”, diz.

O tempo presente

Se a hierarquia entre “teatro grande” e “teatro pequeno” incomoda quem já está na estrada há décadas, a dramaturga e pesquisadora Luciana Comin, do Grupo Teca, aponta um problema anterior: a falta de pluralidade formal na própria produção soteropolitana.

“A produção para o teatro para infância em Salvador é muito restrita”, avalia. “São poucos grupos que conseguem produzir obras artísticas relevantes que dialoguem com o tempo que estamos vivendo”.

De acordo com Luciana, a maioria dos espetáculos em cartaz na cidade ainda segue fórmulas de fábulas conservadoras, “que contribuem muito pouco para o desenvolvimento do crivo dessas crianças”.

O trabalho do Teca parte da referência do “agachamento”, a ideia de se abaixar e olhar horizontalmente nos olhos da criança. “A gente precisa chamar ela para o jogo, porque teatro é jogo, mas deixar ela jogar com a gente”, resume.

É essa lógica de jogo real, e não decorativo, que orienta Fala, Ìbejí, espetáculo de rua do Cooxia Coletivo Teatral que ocupa os domingos de agosto da Casa Rosa, no Teatro Cambará, dentro da programação de aniversário da casa.

Livremente inspirado em itãs [relatos de mitos] da tradição iorubá, o espetáculo acompanha os preparativos para um caruru em homenagem aos orixás gêmeos Ìbejí, interrompidos pela chegada de “Ela”, representação da Morte. Para o diretor Guilherme Hunder, construir teatro infantil a partir de referências afro-diaspóricas é, antes de tudo, uma escolha de repertório.

“Partimos das culturas negras, dos terreiros, da oralidade, da música, da comida, da rua e das formas comunitárias de aprender e celebrar”, explica.

A escolha pela rua e pela plateia em roda também não é estética gratuita. “A roda diminui a distância entre quem assiste e quem faz, permitindo que as crianças interfiram diretamente na energia da cena”, diz, aproximando o formato de referências como o terreiro, o samba e a capoeira.

O dramaturgo Luiz Antônio Sena Jr., responsável pelo texto, foi buscar inspiração menos nos livros e mais na convivência com as comunidades de terreiro. “Fui buscando esse encontro entre os itãs, entre as narrativas dos erês e olhando para as nossas crianças nas nossas comunidades hoje em dia”, conta. “Onde é que estão as brincadeiras, onde é que estão as histórias, onde é que está a sabedoria dos nossos que está sendo passada de geração em geração”.

Colocar a Morte no centro da trama para crianças, tema geralmente evitado, também foi decisão consciente. “As crianças também convivem com a morte, com as perdas e com as perguntas que surgem delas, e muitas vezes somos nós, adultos, que transformamos o assunto em um lugar proibido”, diz Guilherme.

No espetáculo, de acordo com ele, a Morte “entra no jogo e pode ser olhada, provocada e interrogada pelas crianças, sem a necessidade de oferecermos respostas definitivas”.

Musical

Do outro lado da cidade, um musical segue lotando teatros diferentes a cada domingo de agosto, dentro do Circuito Pracriança da Carambola Produções. Maria Vai com as Outras tem texto de Gil Vicente Tavares, direção de Marcelo Praddo e canções de nomes como Novos Baianos, Rita Lee, Carlinhos Brown, Tom Zé e Raul Seixas.

O ator Diogo Lopes Filho, que soma mais de 35 anos de teatro, integra o elenco. “Eu acho que é um espetáculo que os pais assistem sem sofrer e que as crianças assistem também de boa”, conta. “Ele é sedutor para os dois públicos”.

Para Diogo, a espontaneidade infantil é o que torna esse tipo de trabalho único em relação ao teatro adulto. “Se ela vem e ela fala, fica muito difícil você ignorar o que ela falou. A criança quer participar”. Mesmo em um espetáculo que não é interativo por proposta, ele diz sentir a obrigação de responder a essa energia.

Fora de cena, o ator defende o teatro como parte de um repertório mais amplo de experiências para a infância, ao lado de passeios ao ar livre e da leitura.

“A arte abre canais para a criança, seja ela desenhando, pintando, dançando, indo para um museu, indo para o teatro ver uma peça”, considera. “Uma menina que está com uma boneca não está só com um pedaço de plástico ou madeira na mão. Ela está com uma história”.

Resistência

Se Fala, Ìbejí e Maria vai com as outras representam uma cena em movimento, Gil Santana representa sua memória mais longa. Aos 66 anos, ele começou a fazer teatro ainda adolescente, no colégio, e soma hoje mais de 45 anos de trajetória – a maior parte deles dedicada a manter, com recursos próprios, um espaço só seu para o teatro infantil, inclusive depois de reconstruir o teatro após um incêndio.

“Sempre trabalhei com meus recursos”, diz, sem rodeios, sobre uma escolha que ele descreve como “uma entrega sem perspectivas de retorno”.

O que sustentou essa trajetória de décadas foi, segundo ele, uma percepção precisa sobre o público baiano que ele descreve como irrequieto e pouco disposto a formalidades.

“O público baiano e a criança baiana têm a interatividade como marca, a irreverência é uma característica nossa. Ela não quer só assistir, ela quer bagunçar, se divertir com o que está assistindo, a nossa plateia mirim não aceita ficar na cadeira, ela quer ver o circo pegar fogo, no bom sentido”, diz.

Débora completa mais de duas décadas de circuito profissional, e resume o que sustenta esse tipo de trabalho ao longo do tempo, independentemente de patrocínio: “Com dinheiro ou sem dinheiro, com patrocínio ou tirando do próprio bolso, fazer arte, para mim, é uma necessidade e minha forma de luta por uma sociedade melhor, mais igualitária e menos excludente”.

É também dela a definição mais simples do que separa um bom espetáculo infantil de um espetáculo qualquer, seja para que idade for. “Uma boa peça é aquela que, do seu tamanho e sua forma, revoluciona, nem que seja só um pouquinho, a vida e quem vive a vida”.



Fonte: A Tarde

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