43 anos da tragédia que fez rua de Pojuca virar fogo

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Uma “criança-prodígio”: era desta forma que Pojuca era referida desde o século XVI. Suas prósperas terras foram, por muito tempo, o legado mais vigoroso da pequena cidade que atualmente abraça mais de 32 mil habitantes. Mas um dia de festa, que se tornou uma noite de terror mudou o destino do seu povo, em um dos incidentes mais tragicos da história da Bahia.

Terra originada por povos pataxós, Pojuca passou a vigorar essa fertilidade: exportava farinha de mandioca, melaço, açúcar mascavo e aguardente. Décadas mais tarde, a cidade também foi agraciada com a abundância petrolífera, quando nos anos 50, foi-se descoberto a potência econômica industrial da cidade: era o início da nova era da “Princesinha do petróleo da terra do Brasil“.

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Por muitos anos, era a 68 km da capital baiana, o lugar escolhido por aqueles que ansiavam dias de tranquilidade e prosperidade. Um dia, entretanto, deu uma pausa nos momentos serenos, quando um incêndio atingiu a cidade e matou quase 100 pessoas. Uma memória que ficou marcada para sempre na história dos mais de 10 mil pojucanos que viviam naquele dia 31 de agosto de 1983.

Dia de festa

Seria mais uma manhã de quarta-feira tranquila em Pojuca se três vagões de um trem da Rede Ferroviária Federal S.A (RFFSA) – carregados de gasolina e óleo diesel – que partiram da Refinaria Landulpho Alves, em São Francisco do Conde, para o terminal Riachuelo, em Laranjeiras, em Sergipe, não tivessem descarrilados.

Era rotineiro o barulho que faziam os trens quando passavam próximos das residências pojucanas – comumente abastecidos por matérias-primas e derivados. Os trilhos da linha ferroviária, entretanto, como foram pormenorizadamente descritos em edições dos jornais da época como “dormentes apodrecidos, parafusos folgados e “dogs” enferrujados” foram o início de uma tragédia anunciada.

No dia 31 de agosto de 1983, por volta das 7h30, moradores da Rua da Piedade, no bairro Cruzeiro, acordaram pelo estrondo causado pelo tombamento de um trem composto por uma locomotiva e 22 vagões-tanque, do tipo TCD, de 80 toneladas, que transportava gasolina (5 vagões) e diesel (17 vagões).

Os vagões continham 135 mil litros de combustíveis e não demorou para que dezenas de moradores fossem atraídos pelo líquido que se esvaia dos tanques para o chão e se espalhava por toda a rua; era a chance de capturar um pouco do combustível para abastecimento de carros, estocá-lo e de vendê-lo pela cidade.

Um trecho do livro Pojuca: O Arraial da Passagem, escrito pelo professor João Batista, com informações baseadas em uma edição do Jornal A TARDE, publicada no dia 2 de setembro de 1983, descreve o momento em que tudo começou:

“A cidade, atônita e curiosa, correu para ver. Não fora todo o trem que tombara, apenas alguns vagões que, descarrilados, expeliam lentamente seu conteúdo. A comunidade, desconhecendo o perigo, correu para aparar um pouco da gasolina que escorria. As pessoas foram se estimulando e, em pouco tempo, homens, mulheres e crianças começaram a conduzir pelas ruas da cidade panelas, baldes, caldeirões e galões cheios de gasolina para armazenar, como podiam, em suas casas. Era o combustível da morte”

Vagões descarrilados na Rua da Piedade
Vagões descarrilados na Rua da Piedade – Foto: Fotos: Cedoc A TARDE

A maioria eram crianças e adolescentes afoitados, que na esperança de ganhar dinheiro de forma rápida e fácil, recolhiam o combustível para vendê-lo a outros moradores. Inúmeras bicicletas enfileiradas e amontoadas próximas aos vagões remontavam o cenário. Outra edição do Jornal A TARDE, veiculada no dia 2 de setembro de 1983, relembra esse episódio que virou corriqueiro naquela manhã:

“Quando o secretário de Saúde do município, Roberto Leite Alves, chegou para o seu plantão na pequena maternidade de Pojuca, foi abordado por um menino, que perguntou se estava interessado em comprar cinco litros de gasolina a 30 cruzeiros cada. O médico recusou, mas àquela altura já estava deflagrado o comércio de gasolina a preços irrisórios em toda a cidade de Pojuca, que tem cerca de 10 mil habitantes (16 mil no município), quase todos vivendo de seus empregos nas muitas indústrias petroquímicas da região e na Petrobrás”.

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A notícia do acidente se espalhou rapidamente pela rádio. Em poucas horas, a cena do descarrilamento reuniu centenas de pessoas e atraiu moradores de outros municípios como São Sebastião e Catu, que chegavam com os seus carros para abastecê-los.

Era dia de festa, mas aquele tumulto precisava ser contido. Uma série de negligências e ausências de ações preventivas que antecederam um incêndio no local, entretanto, viriam a transformar o dia 31 de agosto de 1983 na 5ª maior tragédia ferroviária do Brasil e a 1ª maior tragédia ferroviária na Bahia.

O isolamento ocorreu apenas no fim da manhã, mas com cordas e em uma área restrita, próxima aos vagões tombados. Uma edição do Estado de São Paulo, também do dia 2 de setembro de 1983, relembra que as tentativas de conter a multidão foram irrisórias.

“Os 10 soldados do destacamento de Pojuca eram insuficientes para conter as quase duas mil pessoas que, por volta das 10 horas, já se aglomeravam no local, umas apenas olhando o lento trabalho de alguns funcionários da rede e outras retirando grande quantidade de gasolina”

As pessoas que estavam encarregadas de afastar o povo dos vagões, passaram a ser as responsáveis por disciplinar as filas para a retirada dos combustíveis.

Noite de terror

Apenas treze horas separaram o maior sonho dos moradores de Pojuca do pior pesadelo de suas vidas. Por volta das 20h30, um extenso incêndio começou a rapidamente se propagar pela Rua da Piedade, pelas 12 casas ao redor da região e pelos corpos que outrora estavam em festa.

Um trecho veiculado no Jornal A TARDE descreve que a celeridade das chamas foi tamanha, que pessoas que tentavam escapar, correndo do local, também foram atingidas pelo fogo. Ao menos, 34 pessoas morreram carbonizadas, outras saíram correndo, pegando fogo, mesmo depois de se livrarem de todas as roupas.

Marcas de fogo

As marcas do acidente nunca foram apagadas. Algumas delas ficaram para sempre estampadas com as suas vítimas, assim como esteve há 43 anos presente com Laudemilson Cardoso Araújo, professor e advogado na comarca de Pojuca.

Na época do acidente, ele tinha apenas 18 anos de idade, e hoje, com 61 anos, ainda relembra claramente sobre a noite em que uma rua de Pojuca pegou fogo.

À noite, Laudemilson, que trabalhava como motorista de uma família em Pojuca, foi convencido por um dos membros a levá-lo até o local do acidente para que pudesse abastecer o carro com gasolina. Ele se recorda de ter estacionado na entrada do cemitério da cidade, que estava localizado na Rua da Piedade.

Ambos chegaram no momento em que funcionários da Rede Ferroviária Federal realizavam a sucção dos combustíveis dos tanques para caminhões.

“Estávamos assistindo tudo isso de forma normal, junto a um contingente de pessoas que estavam próximas do local sem nenhum isolamento da área. Já não havia nenhum sinal de combustível, mas não sabíamos na época, que toda aquela área ainda estava contaminada. Foi quando houve a primeira explosão, onde me acidentei. Me recordo muito bem que o fogo veio do fundo da Rua da Piedade num piscar de olhos”, relata o professor.

Laudemilson explica que a explosão aconteceu de maneira muito rápida, e quando percebeu o que tinha acontecido, tentou fugir. Sem direção e dimensão do acidente e sem saber o que fazer, Laudemilson seguiu para um caminho mais longo em direção ao posto médico da cidade.

“A temperatura se elevou numa rapidez incrível, tanto que as minhas roupas queimaram no meu corpo. Eu sentia que os braços estavam ardendo, mas sem dimensão do que estava acontecendo. Quando cheguei, o local já estava cheio de gente e apenas um estagiário de medicina na unidade”, continuou ele.

Dores que não saem da mente

Sem condições de receber o contingente de vítimas e nem capacidade de atender a gravidade dos ferimentos, a unidade de saúde encaminhou as vítimas para Salvador em uma única ambulância. Laudemilson, que relata já estar perdendo a voz e a visão, foi uma delas.

“Chegamos ao hospital e vieram nos tirar de macas. Quando fui me levantar, percebi que não conseguia sair porque as minhas costas estavam grudadas no assento da ambulância. Foi quando a equipe médica jogou soro no local, me puxando para fora da ambulância, e me deram os primeiros socorros no pronto-socorro”, relembra emocionado o professor.

Imagem ilustrativa da imagem Dia de festa, noite de terror: 43 anos da tragédia que fez rua de Pojuca virar fogo
Foto: Arquivo pessoa

A corrida pela vida de Laudemilson foi dura e angustiante. Quando já não enxergava e falava, ele foi transferido para o Hospital Roberto Santos onde ficou internado por um mês. Foi quando até mesmo a equipe médica desacreditou que ele sairia do hospital com vida.

“Ouvi um médico dizer que eu já tinha morrido. Outro disse que, pelo meu quadro, eu não levaria 5 minutos de vida. O mais otimista disse que eu não amanheceria o dia. E por conta desses diagnósticos que me deram, me deixaram no corredor. Fui deixado para morrer”, relatou ele.

Força de viver

Foi quando um médico, incomodado com a situação de Laudemilson, decidiu dar atenção ao seu quadro de saúde. “Começaram a fazer limpeza no meu corpo que já estava criando bicho. Limparam a minha garganta e os meus olhos, e com os tratamentos corretos, voltei a falar e a enxergar”, relata o sobrevivente.

Passada uma das fases mais difíceis de Laudemilson, ele finalmente saiu com vida do hospital. Foi transferido para o Hospital da Vila Militar, em Salvador, para iniciar as cirurgias de enxerto de pele. “Algumas deram certo, outras não deram, mas a gente não desanimou, e graças a Deus, hoje eu estou aqui”, disse ele.

Laudemilson guarda as marcas da tragédia: teve 85% do seu corpo atingido pelas chamas na Rua da Piedade. A região do tórax foi a mais impactada, com queimaduras de 3º grau, e mãos, braços e costas com danos de 1º grau.

Lembranças de dor

Dois anos depois da tragédia, testemunhas relataram ao jornal, veiculado no dia 30 de agosto de 1985, as cenas de terror que presenciaram na tragédia. Uma delas, foi Marcolina Maria da Silva, de 70 anos:

“Estava assistindo à minha novela na tevê quando vi, através da janela da sala, aquela correria louca das pessoas gritando: água, pelo amor de Deus, água! Larguei tudo e corri para a porta. Vi o fogo com as labaredas para mais de 30 metros de altura. Pode crer no que estou falando. Então, cuidei de sair, junto com meus filhos, Luís Alberto e Manoel, minha neta, Maria Helena, e uma sobrinha, Nilza. A fé em Deus foi que me salvou”

Outra, Maria Bertolina Jesus Santos, descrevia o espanto daquela tragédia ao mesmo tempo em que rememorava a dor que foi perder alguém do seu sangue:

“Eu estava dentro de casa na hora da explosão e, de repente, um bando de gente começou a atravessar minha casa, correndo, gritando, ensangüentada. Todos loucos para atingir o brejo, que fica por trás desta rua. Todo mundo esvaindo-se em sangue. A pele do corpo soltando. Coisa horrível! Naquele inferno, acabei perdendo um sobrinho — José Alberto — que tinha acabado de fazer 20 anos. Foi uma grande dor!”

“Eu nunca vi coisa igual em minha vida e certamente não verei mais” — afirmou o médico Roberto Leite Alves, que estava no posto médico quando, com o corpo em chamas, chegaram as duas primeiras vítimas. Sem ainda saber a gravidade do acidente, ele os colocou em uma maca. “Mas minutos depois, correndo pela rua e na mesma situação, vinha uma multidão. Sem condições para atender aquela centena de pessoas saí correndo para uma transportadora e consegui caminhões e camionetas para transportar os feridos até Salvador. Conseguimos alguns colchões e fomos amontoando o pessoal nas carrocerias e mandando para o Pronto Socorro (antigo Hospital Getúlio Vargas) e Hospital Roberto Santos.

Vítimas carbonizados do acidente
Vítimas carbonizados do acidente – Foto: Fotos: Cedoc A TARDE

Quase 43 anos depois, Vanderce Mirene Ferreira ainda descreve minuciosamente as lembranças que tem do dia após o incêndio: “Infelizmente, tem cenas que não saem da mente”.

A funcionária pública aposentada, hoje com 87 anos, foi um dos quatro moradores pojucanos que ajudaram a tirar os corpos carbonizados em meio ao cenário de destruição, antes mesmo da chegada do Instituto Médico Legal (IML).

“Fiquei num estado de choque, mas aliviada em saber que nenhum dos meus filhos tinham sido atingidos. Foi então que me despertou aquilo que todo ser humano deve ter: que é ajudar o outro num momento como esse. Muito pior que pegar aqueles corpos, era ver a reação dos familiares e aquelas cenas nos hospitais e nos necrotérios dos hospitais”, relata ela.

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No dia em que aconteceu o acidente, Vanderce não estava na cidade. Tinha ido para Salvador encontrar com a irmã que morava no bairro de Periperi. Pela rádio, conseguiu saber que os três vagões haviam descarrilados em Pojuca. Às 21h, ela soube das explosões pelo Jornal Nacional.

“Foram imagens fortes do Pronto-Socorro já com uma movimentação. Como eu tinha deixado seis filhos em Pojuca, fui correndo preocupada para o pronto-socorro do Canela, mas não tinha como entrar”, disse ela.

Sem saber sobre o paradeiro dos filhos, Vanderce pegou carona para Pojuca e descobriu que nenhum dos seus entes tinham sido atingidos. Foi quando, em um momento de gratidão, resolveu que ajudaria às famílias impactadas.

“Às 7h30 cheguei no local onde tinha espuma branca por todo o local. Não conseguimos ver quem estava por baixo dela. A gente precisava ir pisando bem de leve, e quando sentíamos que tinha algo, passávamos a mão e quando era um corpo, pegávamos. Todos os corpos estavam diminuídos, pequenos, carbonizados”, relata ela.

Corrida pela vida

Somente na noite do acidente, ao menos 179 pessoas foram atendidas pelo então Hospital Getúlio Vargas; ao menos 100 pessoas receberam alta no mesmo dia, e o restante das vítimas, distribuídas em hospitais da capital baiana. Informações veiculadas na época apontam ao menos 182 feridos atendidos.

Acredita-se que o número tenha sido muito maior, uma vez que muitas vítimas sequer chegaram a ser atendidas após equipes médicas considerarem que os ferimentos eram leves; recebiam medicação ou “alta” antes mesmo de entrar nas unidades de saúde.

Feridos foram levados aos hospitais de Salvador
Feridos foram levados aos hospitais de Salvador – Foto: Fotos: Cedoc A TARDE

As estimativas de sobrevivência diminuíram dia após dia. Equipes médicas acreditavam que as chances de sobrevivência da maioria dos feridos eram poucas, afinal, era muito pequeno o número daqueles que estavam com menos de 40% do corpo atingido. Uma edição do Estado de São Paulo, do dia 2 de setembro de 1983, destacou que:

“A maioria dos 182 feridos, dificilmente acabará com vida, sendo previsão do secretário de estado e dos médicos que atendem os pacientes nos hospitais da capital baiana”, descreve o trecho.

Imagens capturadas na noite do incêndio, mostram momentos do resgate e a aglomeração nos hospitais de Salvador pelas vítimas do acidente em Pojuca. Testemunhas e sobreviventes contam que as cenas eram de tensão: centenas de pessoas enfaixadas espalhadas pelo corredor e nas salas de internação, falta de materiais de socorros e a luta e resistência pela vida.

Trem da morte: uma história de negligência

O professor João Batista, que estuda a história de Pojuca há 10 anos, explica que a primeira grande negligência está relacionada à ausência de manutenção das linhas ferroviárias pela Rede Ferroviária Federal S.A (RFFSA), também conhecida como a Leste Brasileiro, mas também a omissão ao acidente.

“A manutenção da ferrovia era muito muito precária e eram constantes os acidentes ao longo do percurso por onde essa ferrovia passava. Tanto é que, na manhã em que acontece o descarrilamento dentro da cidade de Pojuca, o superintendente da RFFSA, Walter Geb Valverde, que estava indo a um evento, é comunicado, não muda o seu itinerário e delega apenas o chefe de manutenção para poder acompanhar os episódios aqui na cidade”, disse o pesquisador em entrevista ao Portal A TARDE.

Trechos do livro escrito pelo professor João Batista, remontam que naquele dia, o superintendente da RFFSA, Walter Geb Valverde enviou para Pojuca o supervisor de mecânica da Rede Ferroviária Federal, Antônio José de Araújo, que acompanhou os trabalhos de transferência do combustível dos vagões tombados para os caminhões-pipas enviados pela Petrobras.

“Esse trabalho de transferência de combustível durou todo o dia e era feito com uma bomba de sucção que utilizava um motor a combustão. A Prefeitura e a Polícia Militar também foram acionadas, mas, mesmo assim, a área continuava sem o isolamento devido, e os trabalhos eram acompanhados pela presença de centenas de curiosos”, apontam ele em seu livro.

Professor e pesquisador João Batista
Professor e pesquisador João Batista – Foto: Arquivo pessoa

Com o derramamento de gasolina, os gases dos combustíveis se evaporando e permanecendo no ambiente e no solo, e a ausência de informação da população, o ambiente se tornou um campo minado. Apesar de o Polo Petroquímico de Camaçari ser acionado para conter o local com espumas de resfriamentos e contenção da população, não demorou muito para que a primeira explosão acontecesse.

Até hoje não se sabe o que teria provocado o incêndio. Informações veiculadas em jornais e inquéritos policiais apontam que a tragédia pode ter se originado pela própria bomba de sucção do combustível, ou pela tentativa de funcionários da RFFSA em recolocar os trilhos no lugar ou até mesmo por um acendimento de cigarro próximo ao local.

Tragédia com culpados, mas sem condenados

Assim que a tragédia tomou as manchetes do país, deflagrou-se uma verdadeira guerra de acusações. Nos bastidores da política e nos gabinetes das gigantes ferroviárias e petroquímicas, teve início o jogo de empurra: um emaranhado de discursos e juízos de valor na tentativa apressada de se encontrar — ou criar — um culpado.

Um inquérito policial havia sido iniciado para apurar as causas e as responsabilidades pela tragédia, e outra investigação se iniciava na própria Rede Ferroviária Federal. Na época, o delegado Ivan das Neves Solón, do Departamento de Polícia do Interior (Depin), liderava as investigações sobre o caso.

Na edição do dia 3 de novembro de 1983 do O GLOBO se noticiava o que parecia um avanço do inquérito policial: A RFFSA se responsabilizaria pelo acidente. O governo federal, através do ministério de Transporte, comandado pelo então Cloraldino Severo, também havia anunciado que a empresa, em uma ação cível, se responsabilizaria “pelos prejuízos materiais e sociais da vítima”

“Após reunião de mais de duas horas com toda a Diretoria da Rede, o ministro considerou “inaceitável” o fato de os funcionários da RFFSA não terem evacuado a área como determina o regulamento interno da empresa em casos de acidentes ferroviários de qualquer espécie”, aponta o trecho da reportagem.

Vagões descarrilados na Rua da Piedade
Vagões descarrilados na Rua da Piedade – Foto: Fotos: Cedoc A TARDE

Em 1984, o inquérito apontou como culpada Zuleide Rêgo Lessa, chefe da Subunidade de Segurança do Trabalho da RFFSA. O indiciamento da engenheira foi alvo de críticas pelo Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CREA) e da própria empresa que consideram “absurda” a conclusão e apontaram que ela teria sido usada como “bode expiatório”

A edição de 7 de janeiro de 1984 do Jornal A TARDE aponta que um dos argumentos usados pela RFFSA era de que não caberia ao setor dirigido pela engenheira a responsabilidade pela condução dos trabalhos no local do acidente, afinal, o setor seria ligado à segurança interna da empresa. Entretanto, o delegado ponderou que Zuleide deveria estar presente no local e apontou “omissão total” ao risco tanto dos funcionários da empresa que trabalhavam no local, quanto da comunidade.

A RFFSA resistiu a ser a única responsável pelo acidente, mas o inquérito havia sido encaminhado à justiça do município de Pojuca. Mas o escritório da Petrobras na Bahia, detentora na época das refinarias da época, eximiu a empresa da culpa pelo descarrilamento seguido das explosões.

“A partir do momento em que o trem encheu seus tanques para a viagem, cessou a responsabilidade da Petrobrás, que foi transferida ao transportador”, apontou um trecho da edição do O GLOBO, no dia 3 de setembro de 1983.

Sete meses depois, entretanto, o Depin decidiu refazer o inquérito “após divulgação pela imprensa de um boletim de serviço da Rede Ferroviária Federal, de janeiro deste ano, punindo nove funcionários — inclusive o superintendente regional, Walter Ged — por responsabilidade funcional no acidente”, descreve texto da edição de 25 de agosto de 1984, do Jornal A TARDE.

“De acordo com o boletim, foram considerados responsáveis pelo acidente o superintendente regional da Rede, Walter Ged, punido com a pena de repreensão (ele no dia acompanhava a visita do ministro dos Transportes, Cloraldino Severo, a Salvador e nenhuma providência tomou); o chefe do Departamento Regional de Segurança Empresarial, José Ribeiro de Carvalho, punido com demissão; o engenheiro Paulo Horta, suspenso por dez dias; o maquinista especial Deraldo José do Nascimento, suspenso por 20 dias; e os engenheiros Jorge Barreto da Costa Pereira, Francisco de Oliveira Corrêa Neto, Rafael Gomes de Vasconcelos e João Oliveira Cerqueira, punidos com advertência”

Indenizações irrisórias

Desde 1983, a Rede Ferroviária Federal havia sido condenada a pagar indenizações aos atingidos pela tragédia. Muitas famílias haviam recebido valores de Cr$2,4 milhões (R$ 8,7 mil, em valores atuais)a até Cr$ 900 mil (R$ 3,2 mil, em valores atuais). Na época, os valores representavam em média R$ 10 mil, o que os pojucanos consideram irrisórios comparado ao tamanho da perda no incêndio.

A Rede também iniciava a entrega de escrituras de casas para aqueles que perderam suas residências com o incêndio, e que foram realocadas para o bairro Inocoop, onde estava instalada uma organização das cooperativas habitacionais.

Casas destruídas pelo fogo
Casas destruídas pelo fogo – Foto: Fotos: Cedoc A TARDE

Apesar de iniciadas assistências aos atingidos, a história não terminou com um desfecho criminal cabível. Quase 43 anos da tragédia que vitimou 99 pessoas e deixou dezenas de feridos, ninguém e nenhuma empresa foi julgada.

A ação penal chegou à Justiça da Comarca de Catu em janeiro de 1985, mas sem nenhuma movimentação depois, o que acabou prescrevendo o processo. Em novembro de 1994, o caso foi arquivado definitivamente.

43 anos de memória

Quarenta e três anos se passaram, mas em Pojuca o tempo não apaga o que o fogo marcou. A cidade que teve sua rotina interrompida pela tragédia ainda vive sob o eco daquele dia: memórias dolorosas de sobreviventes, somadas a livros, filmes e documentários, continuam a reconstruir a história para que o esquecimento jamais substitua a justiça.

Para muitos, manter viva essa triste e marcante parte da história de Pojuca, é garantir uma lição dolorosa para que o erro jamais se repita, para outros, um alerta para que a negligência e a irresponsabilidade nunca mais se sobreponham às vidas humanas como foi feito naquele dia.

“Quando a gente remonta a história, precisamos focar nas lições para que se evite uma situação dessa novamente. Nunca estimei a busca de quem foi o culpado, mas é importante saber o que aconteceu”, diz Laudemilson Cardoso.

“É importante que a rede municipal e estadual de educação use esse episódio para trabalhar no sentido de criar uma visão crítica, uma perspectiva de salvaguarda, de orientação, de vivência, para que não só nesse aspecto do combustível, mas em qualquer outro aspecto, as pessoas possam evitar riscos”, continua ele.

Desde que encerrou os tratamentos, em 1987, Laudemilson decidiu manter viva a vontade de viver. Passou em dois concursos no mesmo ano e pôs um fim na aposentadoria que insistia em caracterizá-lo com inválido.

Passou 30 anos como funcionário da Petrobras, até que finalmente se aposentasse. As marcasd a história em seu corpo não foram impedimentos para a sua paixão por estudar. Atualmente ele é professor da rede estadual de ensino há 26 anos.

Cemitério de Pojuca era de frente ao local do acidente
Cemitério de Pojuca era de frente ao local do acidente – Foto: Fotos: Cedoc A TARDE

O professor João Batista explica que entender o que aconteceu naquele dia 31 de agosto de 1983, é sobretudo respeitar a história daqueles que morreram movidos a uma esperança.

“Obviamente que recordar a memória desse dessa tragédia que aconteceu em Pojuca em 31 de agosto de 83, significa respeitar e dar o mínimo de dignidade às vítimas, mantendo essa memória viva, mas também faz com que trabalhemos para que nunca mais a negligência e a irresponsabilidade se sobreponham às vidas humanas como foi feito naquele dia”, finalizou o professor.



Fonte: A Tarde

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