Foi depois de já estar fazendo música que Vicente Barreto começou a compreender melhor a relação entre sua trajetória e o lugar onde nasceu. Em um programa de televisão, ouviu um estudioso falar sobre a forte musicalidade da região de Conceição do Coité, no interior da Bahia, onde passou a juventude. Já morando em São Paulo, decidiu voltar à cidade para se informar melhor.
Foi, então, que conheceu um senhor da roça cuja fala ficaria marcada em sua memória. “Olhe, eu sou aqui do interior, e eu sou um artista”, disse o homem. Vicente se emociona ao recordar a cena: “Eu achei aquilo de uma certeza absoluta”.
Nascido no povoado de Salgadália e criado em Serrinha, Vicente reconhece naquela certeza algo que também o acompanha desde cedo. Foi aos 10 anos que a música, como ele diz, “chegou” de fato à sua vida. Mas o ambiente já estava ali antes. O pai tocava violão, assim como o avô. Uma história contada pela avó paterna ajuda a explicar a força que a música tinha na família. Certa vez, ela disse que Vicente tocava como o avô. Ele quis saber se o homem também era músico. “Não, seu avô não tocava, ele paralisava a gente”, respondeu.
Sem professor de música ou de violão, Vicente aprendeu a tocar o instrumento sozinho. Em meados dos anos 1960, passou a ficar conhecido como “o menino do violão”. Ia à praça principal de Serrinha, onde tocava as músicas da época enquanto os amigos se aproximavam. Era o auge da Jovem Guarda, e ele acompanhava a explosão de Roberto Carlos e do iê-iê-iê, tirando as canções de ouvido.
“Eu criei uma coisa minha, uma levada muito independente, muito baseada no som da sanfona que eu ouvia em Serrinha”, lembra. Luiz Gonzaga e outros conjuntos nordestinos faziam parte dessa escuta. O violão que ele desenvolveria ao longo dos anos não viria, portanto, apenas da canção urbana ou da música que tocava no rádio. Havia também o som da sanfona e a memória musical do lugar onde cresceu.
A primeira grande mudança aconteceu quando descobriu João Gilberto. “Aí minha vida parou”, resume. A voz, o violão e as canções de Tom Jobim abriram outra possibilidade. Passou a ficar recluso, dedicando horas ao instrumento e tentando compreender aqueles acordes que lhe pareciam tão diferentes.
Depois veio Gilberto Gil, outro impacto. Vicente começou a pesquisar mais sobre a música que estava sendo feita na Bahia e no Brasil. Com a ajuda de um amigo de Salvador que havia morado em Serrinha e tinha uma coleção de discos, descobriu Caetano Veloso, Edu Lobo, Bob Dylan e outros artistas. Antes de seguir para o Rio de Janeiro, ainda tocou em conjuntos de baile durante a adolescência.
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Invenção
Foi nesse período que começou a fazer suas próprias músicas, embora ainda não usasse a palavra composição para definir o que fazia. “Eu comecei a dizer que ia inventar música”, lembra. Achava que compositor era quem havia estudado música.
Por causa de amigos em comum, Vicente passou a frequentar a casa de Caetano, em Ondina, e a mostrar novas músicas. Como é comum na Bahia chamar alguém pelo nome da cidade de origem, Caetano passou a chamá-lo de Serrinha. Vicente respondeu chamando o cantor de Santo Amaro. “Até hoje ele me chama de Serrinha”, conta.
A amizade o levou a conhecer Gilberto Gil. Foi Caetano quem organizou o encontro. Vicente levou o violão e tocou suas músicas. Gil quis saber onde ele havia aprendido a tocar daquela maneira. “Não tive professor”, respondeu. “É assim mesmo. Tem uns que já vêm assim”, ouviu do artista.
Antes disso, outro baiano já havia contribuído para que Vicente encontrasse seu caminho profissional. O produtor Roberto Santana, natural de Irará, ouviu suas músicas e demonstrou interesse pelo trabalho. Quando estava preparando um disco do Quinteto Violado, pediu que Vicente mostrasse alguma composição. Escolheu Baião do Quenji, parceria com Fábio Paes, que seria gravada no álbum Berra Boi.
Roberto também levou uma fita de Vicente ao Rio de Janeiro e a mostrou a Roberto Menescal. Depois de ouvir a gravação, Menescal quis saber quem tocava aquele violão. “Isso é ele”, respondeu Santana.
O interesse abriu caminho para a ida de Vicente ao Rio. Lá, além da gravação do Quinteto Violado, lançou um compacto e viajou com o grupo pelo Norte e Nordeste. Depois, por sugestão de Roberto Santana, seguiu para São Paulo, onde vive há 56 anos.
Foi na capital paulista, onde recebeu o Título de Cidadão Paulistano em 2024, que nasceram algumas das músicas que mudariam sua trajetória. Em 1980, quando gravava seu primeiro LP, Vicente estava em casa, quando pegou o violão em uma manhã e começou a trabalhar sobre uma ideia.
Era Morena Tropicana. Vicente mostrou a novidade ao cantor Alceu Valença. A música ganhou letra e, aos poucos, foi tomando a forma que se tornaria conhecida pelo público. O compositor baiano também participou desse processo, sugerindo referências e imagens que ajudaram a construir a canção.
A canção ampliou a projeção de Vicente, mas sua trajetória seguiu por diferentes parcerias e repertórios. Em um show que dividiu com Zeca Baleiro, anos mais tarde, ele já reunia trabalhos feitos com nomes como Paulo César Pinheiro, Vinicius de Moraes e Hermínio Bello de Carvalho. Ao longo das décadas, a parceria também se tornaria uma das marcas de seu trabalho.
Compondo juntos
Uma das relações mais duradouras é com Celso Viáfora. “Vicente é meu primeiro parceiro e virou um parceiro da vida”, diz. “São mais de 40 anos compondo juntos”. Segundo ele, praticamente não há disco de sua carreira que não tenha ao menos uma parceria com Vicente. Com o tempo, o vínculo ultrapassou a música. Os dois moram no mesmo prédio, os filhos se conhecem e as famílias convivem.
A música também aproximou Vicente de Osmar Lazarini, o Sonekka. Os dois se conhecem desde o fim dos anos 1980, mas passaram a conviver pessoalmente no início dos anos 2000, por intermédio do letrista Zé Edu Camargo e de amigos em comum, como Celso.
As rodas de violão se tornaram mais frequentes, assim como os encontros em aniversários e reuniões entre amigos. Até que Vicente enviou uma melodia para que Sonekka colocasse letra. A parceria resultou em Na Força e na Fé, que deu nome ao álbum homônimo, e depois em Só Eu e o Sol. Para Sonekka, Vicente é “um grato amigo, um trabalhador incansável da canção”.
Atual
A rotina de Vicente ajuda a explicar a longevidade dessas relações e de sua produção. Aos 76 anos, continua tocando todos os dias. Durante a entrevista, o violão estava ao seu lado. Havia começado uma música no dia anterior e, embora tenha acabado de lançar um disco, já pensa no próximo. “Os artistas trabalham e muito”, diz. “Eu toco todos os dias até hoje”.
O capítulo mais recente dessa história tem Zeca como parceiro. O encontro entre os dois, no entanto, começou décadas antes. Nos anos 1980, depois do sucesso do disco de Vicente que trazia canções como Dia de Cão e Vou pra Campinas, o músico passou a fazer muitos shows no Maranhão. Zeca, ainda adolescente, assistiu a várias apresentações.
“Quando nos conhecemos, ele ficou surpreso ao saber que eu, um garoto de uns 17 anos, tinha assistido aqueles shows”, diz Zeca.
O encontro pessoal aconteceria em São Paulo, quando dividiram um show no Sesc Vila Mariana. Vicente foi ao camarim para se apresentar. “Ô, Zé, que prazer, você não me conhece, eu sou Vicente”, disse. A resposta veio imediatamente: “Rapaz, eu lhe conheço e demais”.
Ao fim da apresentação, Zeca fez questão de chamar Vicente para cantar músicas de seu repertório. A amizade começou ali, mas os dois seguiriam seus próprios caminhos e passariam anos sem se encontrar. O reencontro, no entanto, aconteceria durante a pandemia.
Vicente e Zeca começaram a trabalhar à distância, cada um em sua casa. “Eu fazia as melodias, mandava para ele, ele me mandava as letras”, conta o baiano. “Fizemos 40 músicas”. Zeca conta que a melodia já vinha com uma narrativa forte. “Mesmo eu hoje sendo um cara urbano, aquilo me levava para um imaginário do interior: circo, povoado, histórias de infância”.
Sembal
Da safra de composições feitas pela dupla, 12 foram escolhidas para Sembal, álbum produzido por Rafa Barreto, filho de Vicente. O disco alterna canções mais trabalhadas em estúdio com momentos mais diretos do encontro entre os dois artistas.
Para Baleiro, o trabalho também aproxima dois artistas cuja relação começou pela admiração e se transformou em amizade: “Vicente é um compositor fundamental na história da música brasileira”, conta. “Um melodista da melhor estirpe”.
Vicente concorda que manter o espírito do menino que tocava na praça de Serrinha, é uma atividade diária. “É um ofício de muita dedicação”, conta. “O meu trabalho, a minha dedicação, a vida inteira é a música. Eu nasci artista”.