Os números divulgados pelos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva revelam uma realidade preocupante e inaceitável, permitindo distinguir o medo e a angústia. As mulheres têm medo de sofrer ataques e assédios — o medo é de algo fora delas; e sentem angústia de terem de escolher como resistir — a angústia está dentro delas.
Os dois sentimentos somados – apequenadores da existência – desorientam as vítimas no momento de usufruir da vida, anulando desejos onde deveria florescer o amor. Quando 78% das mulheres afirmam ter sofrido violência e 98% dizem adotar estratégias para evitar agressões, é porque medo e angústia estão misturados.
Beiramos, portanto, ao pânico, devido à fragilidade da cidadania feminina, desde o incentivo ao armamento associado a narrativas de misoginia. Uma leitura das estatísticas vai representar vidas marcadas por restrições e renúncias: o egoísmo produz maldade, escalando crueldade e pouca compaixão.
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Mulheres deixam de frequentar locais preferidos, alteram trajetos, evitam sair à noite e recusam boas oportunidades de estudo e trabalho. Trata-se de limitação ao direito de ir e vir, supostamente garantido a todas as cidadãs nos termos do Artigo 5º, inciso XV da Constituição Federal de 1988.
Deveria ser livre, para toda mulher, a locomoção no território nacional, podendo qualquer uma nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens. Já não podem as brasileiras gozar deste direito, pois a violência produz um efeito silencioso e devastador, transcendendo à frequente ocorrência de crime. A violência está presente no receio constante de utilizar o transporte público, caminhar sozinha pelas ruas ou participar de atividades de lazer e entretenimento.
O impacto alcança a economia, a educação e o desenvolvimento social, porque as mulheres deixam escapar oportunidades profissionais ou acadêmicas. Cabe ao governo federal articular ações com estados e municípios visando aumentar a proteção à integridade feminina, a fim de recuperar sua cidadania.