Muitos bairros e conjuntos habitacionais de Salvador são conhecidos por siglas que se integraram à rotina soteropolitana como nomes próprios. De antigas fazendas a novos limites geográficos, essas denominações resumem transformações sociais e urbanas ocorridas ao longo das últimas décadas na capital baiana.
Oficialmente, a divisão administrativa da capital baiana reserva poucas exceções a essa regra. Segundo dados do município, a cidade possui 171 bairros oficiais, dos quais apenas dois têm denominações formadas por siglas: o IAPI e o Stiep.
A exceção institucional é o Centro Administrativo da Bahia (CAB), também enquadrado na lista oficial de bairros pelo seu caráter corporativo e de prestação de serviços públicos.
“Os demais são condomínios, conjuntos habitacionais, geralmente financiados e construídos com a verba de institutos, de aposentados e pensionistas”, explica o historiador Roberto Pessoa, ao portal A TARDE.
Como os primeiros conjuntos habitacionais mudaram Salvador?
A tradição de batizar e agrupar comunidades em torno de atividades produtivas em Salvador antecede a criação dos bairros modernos. Durante o período colonial, a organização do espaço urbano esteve associada às estruturas dos engenhos de cana-de-açúcar e às moradias de trabalhadores e escravizados.
Essa lógica ganhou contornos institucionais no Segundo Império, acompanhando o início do processo de industrialização no país.
Na passagem do século 19 para o século 20, a criação da Vila Operária de Luiz Tarquínio, no bairro da Boa Viagem, representou um marco no planejamento de habitações para a classe trabalhadora.
Leia Também:
O conjunto ligado à indústria têxtil oferecia estrutura própria com escola e posto de saúde. Paralelamente, os nomes geográficos da cidade mantiveram raízes em suas ocupações primárias e no meio ambiente, como Sussuarana, nome indígena associado à presença de onças-pardas, e Pituaçu, relacionado à abundância de camarões grandes na região.
“Daí vem os nomes devido à relevância do local, dada pelos primeiros ocupantes. E, no caso dos nomes de siglas e conjuntos habitacionais, vieram também os primeiros ocupantes. Essa relevância que altera e expande o mapa da cidade com a expansão”, contextualiza o historiador.
Por que IAPI e Iapetec receberam esses nomes?
A partir da década de 1940, sob as políticas do governo de Getúlio Vargas, o financiamento de moradias passou a ser liderado por órgãos previdenciários organizados por categorias profissionais.
Antes da unificação do sistema previdenciário no INSS, a estrutura era composta por Caixas de Aposentadoria e Pensionistas (CAPs), iniciadas no setor ferroviário, e polos regionais dos Institutos de Aposentadoria e Pensões (IAPs).
Nesse contexto surgiu o IAPI, que significa Instituto de Aposentados e Pensionistas da Indústria. O projeto ocupou uma antiga área de vegetação e extração de madeira, próxima ao bairro de Pau Miúdo e à Quinta dos Lázaros, onde foram erguidas casas e edifícios para os trabalhadores associados.
“Surgiu ali casas, com os apartamentos para os filiados desse instituto, na década de 40. Mais tarde, em 1966, o governo agrega esses IAPs e forma o INPS. Assim, surgem vários condomínios inspirados nos IAPs, já voltados para outras adequações de trabalhadores”, pontua Roberto Pessoa.

Outro exemplo de conjunto habitacional nascido da previdência corporativa é o Iapetec, localizado no bairro da Boa Viagem, na Avenida Caminho de Areia. Sigla para Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Empregados em Transportes e Cargas, a comunidade foi erguida a partir da década de 1960 em uma área aterrada, registrando grande procura entre os profissionais da categoria.
“A importância desses institutos de aposentadoria e pensões para a cidade de Salvador é que realmente tirou muitos moradores de construções espontâneas, inabitáveis, com a facilidade de financiamento dada por essas instituições. Foi importante para a expansão urbana da cidade, surgindo principalmente na área do miolo da península de Salvador”, avalia o pesquisador.
O que significam Stiep, CHOPM, Petromar e Profilurb?
Entre as décadas de 1970 e 1980, a intensificação do êxodo rural e o crescimento demográfico pressionaram a infraestrutura habitacional da capital. Sindicatos, cooperativas e programas governamentais passaram a erguer empreendimentos para responder à demanda por moradia formal.
O Stiep nasceu da compra da antiga Fazenda ABC, uma área de Mata Atlântica e dunas adquirida pelo Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Extração de Petróleo. A instalação da sede do sindicato e a construção das primeiras casas para a categoria consolidaram a sigla como nome do local, mantida mesmo após a posterior venda de imóveis a terceiros.
A expansão por categorias profissionais e iniciativas estatais deu origem a outros projetos significativos na geografia urbana:
- CHOPM: Cooperativa Habitacional dos Oficiais da Polícia Militar, construída nas etapas 1 e 2 ao longo das décadas de 1980 e 1990, no miolo central da cidade, no bairro do Cabula.
- Petromar: projeto habitacional fundado na década de 1980 em Stella Maris pela cooperativa de trabalhadores da Petrobras atuantes em plataformas marítimas.
- Profilurb: Programa Financeiro de Lotes Urbanizados, implementado pelo Banco Nacional da Habitação (BNH) em 1975 na região de São Caetano, oferecendo terrenos infraestruturados com água, luz e pavimentação para famílias com renda de zero a três salários mínimos.

“Na década de 60, 70, havia muita gente saindo do interior para buscar vida nas capitais, surgindo uma desorganização total de moradias, construções espontâneas nos arredores, nas áreas periféricas, moradias de submundo, […] Tanto o governo como os institutos de governo e sindicatos se preocupavam com seus trabalhadores e a população carente. Em consequência disso, muitos desses conjuntos tiveram seus nomes com siglas”, afirma Pessoa.
Por que algumas siglas viraram nomes de bairros?
A permanência dessas siglas no cotidiano da cidade dependeu das condições de ocupação do entorno no momento de sua fundação. Nomes referentes a empreendimentos isolados e sem referências prévias, como IAPI e Stiep, consolidaram-se como designações regionais permanentes.
Já os conjuntos erguidos no interior de bairros consolidados, como o Cabula ou São Caetano, mantiveram as siglas restritas ao vocabulário interno dos moradores.
A linguagem urbana de Salvador reúne denominações institucionais e criações populares espontâneas. Nem todas as nomenclaturas com aparência de sigla possuem origem corporativa: o bairro do Doron, por exemplo, deriva do sobrenome de seu construtor estrangeiro.
“Esses nomes, quando consolidados, permaneceram com as marcas, a origem de qual tipo de trabalhador foi beneficiado… Salvador é muito diferenciada de outras capitais por ter uma quantidade imensa de nomes espontâneos, nomes populares, nomes engraçados”, conclui o historiador Roberto Pessoa.