Quase dez meses após ocuparem o Infinity Ecologic Residence, prédio localizado na Rua Marquês de Queluz, em Pituaçu, Salvador, os integrantes do Movimento Social Frente Nacional de Luta Campo e Cidade (FNL) tiveram que deixar o imóvel, na segunda-feira, 5. Eles passaram a morar no prédio em 27 de dezembro de 2025.
Segundo a professora e coordenadora do movimento, Alessandra Rosa dos Santos, o grupo – formado por homens, mulheres, idosos e crianças -, foi pego de surpresa com a notícia que deveria sair do local até o final do dia.
Alessandra informou que, era por volta das 8h, quando os oficiais do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia (TJ/ BA) chegaram ao prédio e determinaram a desocupação. Ela disse que não recebeu nenhuma notificação anterior e, no ato da ação, não havia tido acesso à ordem judicial.
“Estava trabalhando quando recebi o telefonema, o oficial chegando já com a reintegração de posse. Perguntei se tinha um mandato: ‘ah, tem que o juiz tal determinou’. Mas, até agora, não vi. Vamos acreditar que tenha, porque tenho a decisão possessória desse imóvel. Não estávamos ilegais”, explicou ela, ao declarar que tinha autorização do Tribunal de Justiça para manter as 122 famílias morando no prédio.

Apesar de a coordenadora ter dito que não havia sido notificada sobre a reintegração de posse, um oficial de justiça revelou que, a cerca de 15 dias, ela foi informada que as famílias deveriam sair das dependências do edifício. “Não sei se todo mundo sabia, mas, a responsável [Alessandra] pelo movimento sabia”, afirmou o servidor judicial.
A reintegração
Além dos oficiais de justiça acompanhados de um advogado, policiais militares da 39ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM Boca do Rio) e agentes da Secretaria de Promoção Social, Combate à Pobreza e Esporte e Lazer (SEMPRE), órgão da Prefeitura de Salvador, participaram da ação de reintegração de posse.
Durante todo o tempo em que a equipe do Grupo A TARDE esteve no local, foi possível observar o vai e vem de pessoas subindo e descendo pelas escadarias que davam acesso aos sete andares do prédio em ruínas carregando seus pertences. Tudo era colocado em caminhões-baú estacionados na área externa.
Enquanto uns desocupavam às pressas os ‘apartamentos’ – espaços divididos por madeiras e folhas de zinco -, outro tentavam reunir forças para justar os pertences e questionavam o que iriam fazer da vida, já que não tinham para onde ir.
Uma dessas pessoas era dona Ana Rita Santos da Hora, 55 anos. Vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e recém-operada, ela era só tristeza e desespero.
“Não tenho do que sobreviver ainda. Eu morava de favor na casa da minha irmã, não tenho onde morar. Antes de ter o derrame, eu vivia de aluguel, trabalhava. Mas, agora, não posso mais trabalhar”, lamentou a senhora, aos prantos. Ela estava morando no prédio há sete meses.
Outra que também estava desolada foi a dona casa Marilene Fagundes da Silva, 53 anos. Há sete meses ela saiu da Ilha de Itaparica para morar na ocupação com a filha, Ana Carla Silva da Encarnação, 24. A jovem tem problema de saúde e faz tratamento em Salvador.
“Eu sou moradora da ilha e a Alessandra, com a FNL, me acolheu, porque minha filha tem TDAH [Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade] e precisa do tratamento aqui, na ilha não tem”, explicou a senhora.
“Lá eu morava de favor. O dono da casa chegou e a gente não teve onde ficar. Falei com ela [Alessandra], ela me acolheu aqui, me deu um cantinho, que é um quarto-sala, cozinha e banheiro. Fui muito bem tratada. Hoje, não sei para onde vou, nem onde colocar minhas coisas”, desabafou Marilene.
Funcionária da SEMPRE, a assistente social Eliana Suzart explicou que nenhuma das pessoas do movimento ficaria desamparada. As que não tivessem para onde ir seriam acolhidas nos albergues da Prefeitura. Além disso, os integrantes do FNL foram cadastrados para receberem o auxílio-aluguel.
“Estamos aqui para garantir a proteção social de todas as famílias. As famílias que nos informam não ter rede de apoio familiar e comunitária, nós estamos conduzindo para as unidades de acolhimento da Prefeitura de Salvador, de assistência, para que elas possam ficar acolhidas. E estamos fazendo o cadastro de todas as famílias para poder inserir nos benefícios e serviços da assistência social do município”, esclareceu a assistente social.
Os móveis e pertences dos moradores da ocupação foram encaminhados para um galpão, onde ficaram guardados até que os donos possam resgatá-los.
Infinity Ecologic Residence
O imbróglio judicial que envolve o Infinity Ecologic Residence é antigada. Lançado em 2010 como empreendimento residencial, o imóvel da construtora Ecomundo foi abandonado, em 2013, antes mesmo de ser concluído
À época, alguns compradores já tinham assinado contrato de promessa de compra e venda. O projeto previa 104 apartamentos e 156 vagas de garagem. De acordo com decisão judicial, as obras terminariam entre dezembro de 2012 e junho de 2013. Informações dão conta de que o empreendimento foi abandonado com cerca de 30% da obra construída.
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No ano de 2014, os compradores criaram a Associação dos Proprietários de Unidades Habitacionais do empreendimento. Em 2016, eles constituíram o Condomínio de Construção, na tentativa de retomar as obras.
No entanto, disputas judiciais entre compradores, incorporadoras e credores trabalhistas interromperam a continuidade das obras e o imóvel permaneceu abandonando desde então , até ser ocupado por integrantes do FNL em 27 de dezembro de 2025.



