Possivelmente a banda de rock mais longeva do universo conhecido (se houver outra mais longeva, certamente é menos relevante), os Rolling Stones cultivaram a fama, durante pelo menos três décadas, de serem um bando perigoso e imprevisível de arruaceiros drogados, alcóolatras e mulherengos incorrigíveis.
O velho clichê do roqueiro rebelde e fora de controle se deve, em grande parte, ao comportamento dos seus membros, no palco e fora dele. No livro Rolling Stones: 60 Anos, o leitor vai entender porque essa ideia colou em Mick Jagger, Keith Richards e cia por tanto tempo.
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Escrito pelo experiente jornalista Christopher Sandford, autor de biografias de figuras igualmente grandiosas como David Bowie, Paul McCartney, Bruce Springsteen, Kurt Cobain, Steve McQueen e Eric Clapton, o livro vem confirmar, ao longo de suas mais de 600 páginas, que, especialmente quando jovens, os Rolling Stones eram mesmo uma gangue de baderneiros de deixar qualquer influencer revoltadinho da mamãe dos dias de hoje escandalizado.
Mas evidentemente, os Rolling Stones nunca se trataram só de bebedeiras e orgias sem fim: o corpo de sua obra é magnífico, especialmente os álbuns produzidos no período entre meados da década de 1960 e meados da década seguinte, que figuram entre as obras mais básicas e necessárias para qualquer discoteca roqueira que se respeita, algo em que tanto o público quanto a crítica concordam.
Se só tivessem lançado o filé desse período, formado pela trilogia Let It Bleed (1969) / Sticky Fingers (1971) / Exile on Main Street (1972), os Rolling Stones já seriam uma das maiores bandas de todos os tempos, ombro a ombro com os Beatles e o Led Zeppelin.
No livro, Sandford consegue equilibrar com habilidade a narrativa cronológica da formação da banda com os causos escabrosos de sex and drugs e uma apreciação crítica dos processos de gravação dos álbuns e como foram recebidos quando foram lançados – o que é um trabalho e tanto, dado a longevidade da banda e seus 31 álbuns – embora a narração de Sandford só cubra 29, já que se encerra em 2022, antes dos Stones lançarem os recentes Hackney Diamonds (2023) e Foreign Tongues (2026).
Personagens incríveis
Momentos definidores como a morte do guitarrista Brian Jones em 1969, o malfadado concerto em Altamont (no mesmo ano), as entradas dos guitarristas Mick Taylor e depois Ron Wood substituindo o primeiro também são razoavelmente bem narrados, embora sem tanta profundidade – o próprio autor diz no livro que já existem diversos livros escritos exclusivamente sobre episódios como a morte de Brian e Altamont, justificando por não se demorar tanto neles para seguir marcha na saga stoneana.
Uma nota cômica sobre o trágico evento em Altamont – quando os Hell’s Angels contratados para fazer a “segurança” do evento mataram um jovem negro na plateia – é que por anos a fio, os Stones se pelavam de medo de se encontrar com os membros da famigerada gangue de motociclistas californianos, já que a culpa de todo o caos ocorrido naquele trágico dia caiu exclusivamente sobre eles, o que os levou a jurar os Stones de morte.

Outro processo interessante foi como a dupla Jagger / Richrds foi, aos poucos, minando a autoridade de Brian Jones dentro da banda, já que desde o início, ele mesmo se via como o líder do quinteto, dada sua formação musical sólida, capaz de ler e escrever partituras.
É triste: o homem foi se alienando, se isolando e se drogando até praticamente virar um fantasma e finalmente sair da banda. Morreu logo depois, de overdose, aos 27 anos.
Personagem insuspeita (para os neófitos) e que tem muito destaque no livro com uma jornada e tanto é a atriz, modelo e designer de moda alemã / italiana Anita Pallenberg. Inicialmente namorada de Brian Jones, foi surrupiada dele por Keith Richards, com quem se casou e se relacionou até 1979.
“Completamente drogada”, como diria Fernanda Torres, passou maus bocados, foi ao fundo do poço e quase morreu algumas vezes ao tentar acompanhar o ritmo do imortal Keith Richards. Felizmente, teve um destino menos trágico que Brian: se recuperou das drogas e viveu bastante, morrendo aos 75 anos em 2017.
Difícil de largar devido à quantidade inaudita de história maluca, o livro só tropeça na atualização dos anos mais recentes da banda, como se tivessem sido escritos à toque de caixa. Mas não chega a comprometer. Para quem nunca leu uma bio dos Stones, eis aqui uma boa opção.