A expansão dos aluguéis por temporada tem movimentado mais do que o mercado de hospedagem em Salvador. Restaurantes, cafeterias, lavanderias, estabelecimentos comerciais e prestadores de serviços estão entre os negócios que recebem parte dos gastos de quem visita a capital baiana. Em 2025, a atividade do Airbnb movimentou mais de R$ 2,1 bilhões na economia da cidade, um crescimento de quase 13% em relação ao ano anterior, segundo estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Do total, mais de R$ 1,17 bilhão correspondeu à contribuição para o Produto Interno Bruto (PIB), enquanto a renda gerada chegou a quase R$ 589 milhões. A atividade também sustentou cerca de 13 mil postos de trabalho, entre diretos e indiretos, e gerou mais de R$ 176 milhões em tributos. Os efeitos alcançam desde profissionais responsáveis pela limpeza e manutenção dos imóveis até trabalhadores da alimentação, motoristas e comerciantes.
Uma parcela desse movimento aparece nas mudanças observadas por quem atua diretamente com o aluguel por temporada. Na Barra, um dos bairros que concentram imóveis destinados a esse tipo de hospedagem, a ampliação da demanda veio acompanhada do crescimento de serviços voltados aos visitantes.
Janaína Castro, sócia da Check-In Bahia, empresa de administração de imóveis para aluguel por temporada, começou a alugar propriedades com o marido em 2016. Seis anos depois, diante das indicações recebidas de amigos e hóspedes, os dois decidiram profissionalizar a atividade e abrir a empresa. Atualmente, administram 25 imóveis, a maioria na Barra, além de unidades na Graça e em Stella Maris.
“Nos últimos dez anos, houve um crescimento econômico na Barra. A demanda por Airbnb e o aumento de empreendimentos imobiliários com esse foco levaram a uma maior oferta de serviços”, afirma. Ela cita a abertura de estabelecimentos que oferecem café da manhã e a ampliação dos serviços de lavanderia como exemplos de negócios que passaram a atender esse público.
O perfil dos visitantes também contribui para diversificar a procura. Além de turistas que permanecem poucos dias, a empresa recebe famílias e pessoas que trabalham remotamente e ficam na cidade por períodos de 20 a 30 dias. Essa permanência mais longa amplia a possibilidade de consumo fora dos circuitos tradicionais de visitação, com gastos em alimentação, compras e serviços cotidianos.
A localização dos imóveis também influencia o tipo de demanda. No Costa Azul, a anfitriã Regina Oliveira aluga um apartamento de quarto e sala há um ano e nove meses, desde que decidiu morar em um motorhome para viajar pelo país. Com capacidade para dois hóspedes, o imóvel recebe turistas, mas também pessoas de cidades próximas, como Feira de Santana e Aracaju.
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Oliveira atribui parte dessa procura à proximidade com o Centro de Convenções e à facilidade de acesso para quem viaja a trabalho. Segundo ela, esses visitantes consomem em estabelecimentos comerciais e de serviços da região. Nas recomendações que faz aos hóspedes, inclui bares e restaurantes próximos ao apartamento, mas também indica endereços de áreas turísticas e boêmias da cidade.
A sazonalidade, por sua vez, concentra a procura em determinados períodos. Regina afirma que já não tinha datas disponíveis para o Réveillon, o Carnaval e boa parte de janeiro. O levantamento da FGV ajuda a dimensionar a importância desse calendário: quase 40% dos anfitriões entrevistados em Salvador disseram ter recebido hóspedes motivados por eventos realizados na cidade ou na região. Entre as datas que ampliam a demanda estão o Carnaval, a Lavagem do Bonfim e a Festa de Iemanjá.
O impacto econômico não se restringe aos imóveis anunciados. De acordo com a FGV, para cada R$ 100 gastos com acomodação no Airbnb, os visitantes desembolsam outros R$ 450 fora da hospedagem, em restaurantes, comércio e transporte. O valor ajuda a explicar por que a distribuição dos visitantes entre diferentes bairros pode influenciar negócios que não atuam diretamente no setor turístico.
Dados do Airbnb indicam que mais de 95% dos anfitriões entrevistados que recomendaram lugares aos hóspedes indicaram estabelecimentos ou atrações no próprio bairro do imóvel. Quase 60% também recomendaram áreas menos conhecidas pelos viajantes. Mais de 90% sugeriram restaurantes ou cafés, enquanto quase 45% indicaram lojas e comércios de rua.
Para Mauro Godinho, proprietário da marca ascasinhaZ, esse contato com a economia do entorno faz parte da própria experiência de hospedagem. Nascido em Salvador, ele viveu mais de duas décadas na Suíça antes de retornar à capital baiana, em 2022. No bairro Dois de Julho, restaurou uma casa de três andares próxima ao Solar do Unhão, onde passou a morar em junho de 2023. Os primeiros hóspedes chegaram em novembro de 2024.
A Casinha do Encanto recebe principalmente estrangeiros, entre eles europeus, norte-americanos e viajantes interessados em arte, arquitetura e cultura afro-brasileira. A partir da localização do imóvel, Godinho desenvolveu roteiros a pé que conectam bairros, museus, galerias, mercados, restaurantes familiares e espaços culturais, do Santo Antônio Além do Carmo ao Farol da Barra.
“Quando recomendamos um pequeno restaurante no Dois de Julho, uma cozinheira que prepara comida baiana em casa, um ateliê ou um espaço cultural fora do circuito mais óbvio, estamos ajudando o visitante a descobrir negócios e pessoas que fazem parte da identidade da cidade”, diz o anfitrião.
A renda obtida com a atividade também tem efeitos sobre os próprios moradores. Segundo o levantamento do Airbnb, quase 75% dos anfitriões entrevistados em Salvador não têm a hospedagem como ocupação principal, mais de 80% anunciam um espaço próprio ou da família e quase 60% se identificam como mulheres. Mais de 60% afirmaram ter investido os ganhos em melhorias na própria casa, enquanto quase 65% usaram o dinheiro para cobrir despesas com alimentação e outros custos domésticos. Para mais da metade, a renda ajudou a permanecer no lugar onde vive.
Bairros turísticos
Os números indicam que o aluguel por temporada combina diferentes fontes de receita e mobiliza uma rede de atividades para além da hospedagem. Em Salvador, esse movimento se distribui entre bairros com forte presença turística, como a Barra, e regiões centrais como o Dois de Julho, além de áreas que atraem visitantes por compromissos profissionais. Com a chegada de novos hóspedes e a ocupação de imóveis em diferentes épocas do ano, a demanda alcança desde os estabelecimentos que atendem ao fluxo de grandes eventos até pequenos negócios incorporados às recomendações de quem recebe os visitantes.