Aos 60 anos, músico retoma banda de rock que marcou os anos 90 na Bahia

5

Há 25 anos, uma das maiores bandas de rock já surgidas em terras baianas se calou. The Dead Billies se retirou da ribalta, após dois álbuns extraordinários e inúmeros shows acachapantes pela Bahia e pelo Brasil. Ao longo deste quarto de século, os fãs nunca perderam a esperança de reencontrar a banda nos palcos. A espera acabou: com um novo vocalista à frente, o quarteto se apresenta neste sábado, 31, no Largo da Tieta.

E a data não poderia ser melhor: para uma banda que sempre lançou mão do visual e do imaginário de filmes antigos de terror, a noite do Halloween não poderia ser mais adequada para um show intitulado Night of the Living Dead Billies.

Tudo sobre Música em primeira mão! Entre no canal do WhatsApp.

Fundada em 1993, The Dead Billies foi uma das principais bandas da brilhante geração noventista do rock baiano, que gerou nomes como Pitty (então à frente da banda Inkoma), Roney Jorge (à frente da Saci Tric), Úteros em Fúria, Cascadura, brincando de deus e várias outras. Seu som era (é) baseado no psychobilly, uma variação do rockabilly (o rock primordial dos anos 50), influenciado por punk rock e cultura trash, conforme preconizado pela principal banda do estilo, a inimitável The Cramps. Seus shows eram uma mistura frenética de ritual pagão com filme de terror trash e comédia adolescente. Enfim, era uma diversão dos diabos.

Com o fim dos Billies em 2001, após a saída do cantor Glauber ‘Moskabilly’ Guimarães, os membros remanescentes Rex Crotus (bateria), Morotó Slim (guitarra) e Joe Tromondo formaram a banda instrumental Retrofoguetes, que segue na ativa até hoje (embora Morotó e Joe tenham saído). “Na verdade, a gente nunca desistiu da banda. A gente nunca desistiu desse repertório, de tocar juntos. Esse desejo não passou no decorrer desses 25 anos. Eu acho que uma grande motivação é perceber que o nosso público também não esqueceu a banda e passou 25 anos cobrando isso da gente”, conta Rex.

O retorno começou a se desenhar em 2023, quando o selo independente Neves Records resolveu relançar o álbum de estreia da banda, Don’t Mess With… (1997) – só que em um formato até então inédito: vinil. O mesmo selo conta em seu cast com a banda Dasta & The Smokin’ Snakes, de Natal (RN), que faz um som na mesma linha dos Billies.

“Acho que o relançamento do Don’t Mess… pela Neves Records foi um empurrãozinho bem importante. E essa volta dependia exclusivamente de a gente encontrar um vocalista que ocupasse esse vazio deixado por Glauber com competência, com qualidade, com familiaridade com a nossa proposta, enfim”, diz Rex.

Quando o trio remanescente ouviu o álbum da Dasta & The Smokin’ Snakes, não houve mais dúvidas: eles haviam encontrado o homem certo. “Pra mim foi a voz. Quando o conheci e comecei a ver sua carreira e os discos, fiquei de cara com a qualidade do trabalho dele. Fiquei mais de cara ainda quando soube que o cabra era nordestino também. Aí lascou”, acrescenta Joe, que foi quem teve a ideia de chamar o potiguar para os Billies.

Após um período de cortejo, Dastaev, muito honrado, aceitou calçar os sapatos (azuis de camurça) antes ostentados pelo inesquecível Glauber (hoje retirado da cena). “Claro que existiam outros critérios, né? Tipo, em quem Dasta vota, se ele é um cara legal, né. A gente tem muito cuidado com isso, antes de abraçar uma pessoa no nosso trabalho”, acrescenta Rex.

Leia Também:

Memória muscular

Quarteto reunido, o trabalho de retomar o repertório teve suas dificuldades – inerentes à quilometragem do trio original. “O que pega mais é a idade, né? Nós temos mais de 50. Joe já tem 60. Então é difícil executar um repertório que você compôs e tocou com 20 poucos anos. Eu tô com tendinite no quadril e nos Billies eu toco bateria em pé (à moda clássica do rockabilly). Isso já era difícil na época. Então, tem uma questão de ergonomia. Porque é um instrumento que foi feito para ser tocado sentado. Além disso, é um repertório que exige um vigor grande, é tudo muito acelerado. Enfim, não é fácil fazer isso na nossa idade”, nota Rex.

“Por outro lado, somos músicos mais maduros, temos uma experiência enorme com a música, com os palcos, temos um equipamento muito melhor, temos uma estrutura melhor para trabalhar hoje. Então, isso equilibra também. A química que já existia entre eu, Joe e Morotó permanece. Ela foi preservada. A gente percebeu isso logo nos primeiros ensaios. Não demorou quase nada para a gente trazer de volta, essa… essa sei lá, essa energia, esse entrosamento que a gente sempre teve”, acrescenta Rex.

Morotó Slim corrobora Rex, tanto na dificuldade inicial, quanto na capacidade de retomar o som clássico da banda: “Apesar dos 54 anos, eu toco todo dia. E toco ainda coisas muito difíceis e rápidas, que são as coisas da guitarra baiana, ou do frevo elétrico. Mas realmente na reentrada tivemos problemas. A gente não é mais menino, moleque, tão ágil, mas as coisas se aprumaram, né? Nada como disciplina, ensaios para a gente colocar tudo na mão. A questão da memória muscular também é muito importante”.

“É você praticar e tocar, tocar, tocar, tocar até sua mão lembrar como é que você fazia essa porra antes, né? Foi engraçado, velho, mas a gente aos poucos vai se adaptando“, acrescenta Morotó.

Já Dastaev, como um bom recém-chegado, contradiz tudo que os Billies afirmam: “Foi moleza! Em três músicas eles estavam lá como se nunca tivessem parado de tocar juntos. Eu que demorei um pouquinho pra deixar de estar boquiaberto e depois achar meu jeito de interpretar”, diverte-se.

Bandas irmãs em paralelo

Outro ponto importante desta volta é que, segundo os músicos, não será só para fazer shows: haverá material novo em breve. “Uma das coisas interessantes da volta sempre foi essa possibilidade de gravarmos juntos. Eu, Morotó, Joe e Rex estamos cheios de ideias de músicas novas e voltar o Dead Billies somente para um show seria desperdiçar uma grande oportunidade de registrar algo digno do próprio legado”, afirma Dastaev.

“Temos umas 12 músicas pra trabalho. Essas foram escolhidas dentre muitas músicas que temos os ‘esqueletos’ pra desenvolvemos. Fazemos encontros semanais, on line (Joe e Dastaev não moram na Bahia), e nesses encontros vamos falando de tudo, mas fundamentalmente de arranjos. Estamos vivendo essa experiência de trabalhar à distância. Tá rolando”, conta Joe.

Banda ressuscitada, show de estreia logo ali, repertório na ponta dos dedos, os Billies se preparam agora para ganhar a estrada. “No dia seguinte à live em que anunciamos a volta, os convites começaram a surgir. A gente já vai fazer agora no dia 20 de novembro, em São Paulo, o Campeonato Mineiro de Surf, um festival muito bacana. E os Retrofoguetes vão participar também. As duas bandas vão ser headliners do festival. Retrofoguetes no dia 19, o Dead Billies no dia 20”, revela Rex.

“Já em 28 de novembro, a gente toca em Natal, no Festival do Sol, dessa vez prestigiando o público de Dasta, que é de Natal. Já temos datas marcadas para o ano que vem em outros festivais até maio, já reservada”, acrescenta.

Quanto aos Retrofoguetes, Rex conta que em 2027, ano em que a banda comemora 25 anos, sairá disco novo para comemorar, pelo já citado Neves Records. “E eles vão relançar agora o Enigmascope Volume 1 (álbum de 2016). Acho que ainda esse mês ou o mês que vem”, conta Rex.

“Me sinto muito orgulhoso, muito realizado, né, porque consegui criar duas bandas incríveis, sabe, e consegui manter esses caras comigo. Músicos maravilhosos, amigos incríveis, meus irmãos, né? Então, ter as duas bandas hoje é um pouco mais cansativo, mas me dá uma alegria imensa”, conclui Rex.

‘Night of the Living Dead Billies’ / Sábado (31), 21h / Largo da Tieta (Rua Alaíde do Feijão, Pelourinho) / Ingressos: a partir de R$ 100 / Vendas: Sympla / Classificação: 18 anos



Fonte: A Tarde

Artigos relacionados

Últimas notícias

Oruam repassa ordem de Marcinho VP sobre o CV na política

As visitas de Oruam ao pai, Márcio Santos Nepomuceno, o Marcinho VP,...

Últimas notícias

Anvisa barra lote de linguiça suína após identificação de bactéria

​A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou a interdição da venda...

Últimas notícias

Globo toma decisão e muda filme da Sessão da Tarde desta quinta-feira (29/10)

A programação da Sessão da Tarde, tradicional faixa de filmes da TV...

Últimas notícias

Série policial do Prime Video tem 100% de aprovação e poucos conhecem

Nem todo suspense precisa apostar em uma narrativa sombria para conquistar quem...