Após 7 anos, peça premiada ‘Vermelho Melodrama’ volta com nova leitura

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Espetáculo mistura cartas, guerra e amor em narrativa provocadora –

Há cartas que nunca chegam ao destino. Permanecem suspensas, entre o gesto de escrever e a coragem de dizer, como arquivos de um afeto interrompido. Em Vermelho Melodrama, é justamente o não envio que move a engrenagem narrativa: uma carta guardada, nunca entregue, capaz de reorganizar destinos, instaurar conflitos e fazer emergir aquilo que, na vida, tantas vezes se mantém calado.

A partir desse dispositivo, o espetáculo acompanha a história de três órfãos – Lúcio Mauro, Carlos Manuel e Lurdes Maria – criados como irmãos, cujas trajetórias são atravessadas por amores inconfessos, segredos e reviravoltas. O motor da narrativa é essa carta nunca entregue, que guarda uma revelação capaz de alterar o destino de todos, em uma trama que tensiona os limites entre realidade e ficção.

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Com dramaturgia de Gildon Oliveira e direção de Jorge Alencar, a montagem reúne em cena Lia Lordelo, Diogo Lopes Filho, Neto Machado, Véu Pessoa e Vinicius Bustani. Criado em 2019, o espetáculo ganhou o Prêmio Braskem de Teatro de Melhor Espetáculo Adulto, além de outras indicações e do troféu de Categoria Especial pelo figurino e adereços de Luiz Santana.

Sete anos após a estreia, a peça retorna aos palcos, em temporada no Teatro Gregório de Mattos, entre sexta-feira, 10, e 10 de maio, atravessada por um tempo histórico distinto e, ao mesmo tempo, inquietantemente próximo. A remontagem não apenas reativa sua trama central, como reescreve suas bordas, desenhando uma verdadeira cartografia dos afetos ao incorporar novas urgências, do cenário geopolítico internacional às disputas em torno dos corpos e das formas de amar.

Cartas, afetos e política

| Foto: Divulgação

Se o melodrama, historicamente, se constrói a partir de emoções exacerbadas e reviravoltas narrativas, aqui ele é tensionado como linguagem do presente, capaz de absorver conflitos que extrapolam o íntimo e atravessam o mundo.

Na nova montagem, o gesto de escrever cartas deixa de ser apenas dispositivo dramatúrgico para se tornar um arquivo vivo de tensões contemporâneas. Conflitos armados, disputas de poder e discursos políticos entram em cena como extensões de um mesmo drama: o de existir em um mundo em crise.

“A gente está aqui melodramando por amor, né? Falando de amor, falando de desencontros e encontros amorosos, mas quem tem direito ao afeto? Quais corpos têm direito a serem amados?”, questiona o diretor Jorge Alencar, ao comentar um dos momentos em que a peça interrompe a narrativa para dialogar diretamente com a plateia, a partir de um depoimento público da artista Linn da Quebrada.

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Entre o íntimo e o mundo

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| Foto: Divulgação

O mosaico de cartas que estrutura o espetáculo articula vozes diversas, históricas, literárias e contemporâneas, criando uma espécie de mapa onde afetos e política se entrelaçam. Entre elas, aparecem fragmentos que vão da carta de Pero Vaz de Caminha, marco inaugural da escrita colonial no Brasil, a textos de Clarice Lispector, além da já citada Linn da Quebrada e reflexões da psicanalista Isildinha Baptista Nogueira. Há ainda cartas recentes, escritas em meio a conflitos geopolíticos contemporâneos, que aproximam o espetáculo do presente.

“Essas cartas são para a gente pensar o que elas estão endereçando como questão no mundo”, diz o diretor. Ao incorporar cartas ligadas a guerras e disputas internacionais, a encenação amplia sua escala: o melodrama deixa de ser apenas doméstico para se tornar também geopolítico. O excesso emocional, característica do gênero, encontra eco em um mundo que parece operar igualmente no limite, entre crises, polarizações e colapsos.

A gramática do excesso

No palco, essa tensão se traduz em uma linguagem que aposta no exagero como estratégia. A atuação oscila entre registros, explorando gradações que vão do naturalismo ao excesso. “A gente passeia pela montagem do naturalismo, do hiper-realismo, que é quase a gente como a gente mesmo, até um grau bem exagerado de interpretação. Mais melodramático, quase épico”, explica a atriz Lia Lordelo.

Essa oscilação constrói uma dramaturgia em camadas, na qual o exagero não é caricatura, mas ferramenta expressiva e as referências não estão apenas em tradições distantes, como produções hollywoodianas, mas em um repertório popular profundamente enraizado. “A gente é muito criado com novelas, a nossa educação é comportamental, até. Tem muito da televisão, muito das novelas, que tem uma influência muito grande […] Essas novelas que estão fazendo tanto sucesso há tanto tempo, mexicanas, turcas, são muito melodramáticas”, observa Diogo Lopes Filho, novo integrante do elenco.

Ao reconhecer essa herança, das telenovelas brasileiras às produções latino-americanas, o espetáculo afirma que o melodrama não é um gênero importado, mas uma linguagem já inscrita na formação sensível do público.

Afeto como força

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| Foto: Divulgação

Mais do que narrar paixões, Vermelho Melodrama investiga o próprio funcionamento dos afetos, inclusive aqueles que desestabilizam. “Existem afetos de raiva, de ira”, aponta Jorge. “Foi muito importante quando eu chorei de raiva como uma maneira de agir”, relembra o diretor.

Nesse sentido, o afeto aparece como motor, aquilo que desloca, que rompe inércias, que inaugura movimentos. “O afeto é uma força que nos move em alguma direção”, Jorge faz questão de dizer. Ao atravessar desejo, política e subjetividade, o espetáculo se aproxima também de uma escuta psicanalítica das pulsões – ainda que nem sempre explícita – para pensar o que nos constitui e nos mobiliza.

No centro de tudo, permanece a carta, objeto anacrônico em tempos de mensagens instantâneas, como metáfora de um tempo outro, em que sentir exige duração. E talvez seja aí que essa cartografia dos afetos encontra sua pulsação mais contemporânea: na insistência em perguntar o que ainda pode ser dito, e quem pode dizer, em um mundo onde até o afeto é atravessado por disputas. Porque há cartas que não chegam, mas insistem. E, mesmo não enviadas, seguem reescrevendo o presente.

Vermelho Melodrama / A partir de amanhã até 10 de maio, às sextas e sábados, 19h; domingos, 18h / Teatro Gregório de Mattos (Praça Castro Alves, s/n) / R$ 50 e R$ 25 / Vendas: Sympla / Classificação: 16 anos

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.



Fonte: A Tarde

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