Retrato traz reflexão sobre a dura realidade das mulheres que empreendem no estado
Não é novidade para as trabalhadoras da Bahia quando Emicida canta que “a merendeira desce, o ônibus sai, Dona Maria já se foi… e o sol só vem depois”. Afinal, esse é o reflexo diário de quem vai à luta pelo pão de cada dia. Na Bahia, as “Donas Marias” representam 51% das pessoas responsáveis pelos domicílios no estado (chefes do lar), segundo dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em maio deste ano.
A pesquisa também aponta que Salvador passou a ocupar a 3ª posição entre as capitais do país na proporção de mulheres chefes de domicílio, registrando 55,8%, um salto expressivo frente aos 46,3% observados em 2010.
O número de mulheres que comandam o próprio negócio também cresceu. Só na Bahia, 700 mil mulheres lideram empreendimentos, de acordo com o levantamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), de 2026.
Mas os números que parecem traduzir apenas avanço escondem uma verdadeira batalha. O cenário do empreendedorismo feminino engloba quem busca autonomia financeira, mas abraça também mulheres que carregam o peso de uma jornada dupla e exaustiva.
Os dados do último censo indicam o registro de quase 840 mil mães solo no estado, o equivalente a 16% de todas as configurações familiares. Em Salvador, a proporção é ainda maior e atinge 18,2% de mulheres que criam os filhos sozinhas.
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Da comunidade de Vida Nova, em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador, quem observava e se incomodava com a realidade financeira dessas chefes de lar era Tálua Jarones, assistente social de formação.
Estou há 17 anos trabalhando com mulheres, vim de uma favela, uma menina pobre. Hoje sou mestranda da UFBA e decidi, de fato, empreender e trazer comigo outras mulheres
Fundadora da ELA Consultoria Tálua Jarones
Tálua idealizou a ELA Consultoria & Treinamento, empreendimento voltado ao desenvolvimento humano e corporativo, capacitação e gestão de negócios. “A história da ELA foi construída com lágrimas, noites sem dormir, boleto para pagar, criança, marido, casa… tudo ao mesmo tempo. E comecei a ver que não era tão fácil”, destaca.
A partir dessa vivência de dupla jornada, a assistente social deu início ao braço social da empresa: a Maratona da Empreendedora. O projeto gratuito está em atividade há um ano e meio, e atua em bairros como Mussurunga, Tancredo Neves, Valéria e no município de Lauro de Freitas.
São 12 ciclos de conhecimento subdivididos em liderança, tecnologia e empreendedorismo. Uma vez por mês, nós capacitamos mulheres de forma gratuita
fundadora da ELA Consultoria Tálua Jarones
Tálua Jarones, fundadora da ELA
De acordo com dados da CEO, aproximadamente 10.000 mulheres receberam o impacto das ações da empresa ao longo de seus 6 anos de mercado. Além da maratona, Tálua integrou o Eleva MEI, projeto em parceria com a Prefeitura de Salvador que beneficiou em torno de 600 microempreendedores. Uma de suas últimas participações na iniciativa envolveu a mentoria voltada para mulheres com deficiência visual.
65% das empreendedoras na Bahia são mães
As mulheres que conheceram a ELA por meio da maratona decidiram permanecer para buscar especialização com mentorias personalizadas. Tálua aponta um ponto crítico sobre o perfil desse público.
“A gente tem que levar em consideração que tem mulheres que já são empresárias, que empregam outras mulheres, e que ainda não entenderam isso. Ainda não entenderam que são empresárias”, diz a idealizadora do projeto.
O recorte se aprofunda quando os dados do Sebrae revelam que 65% das empreendedoras na Bahia são mães. Segundo o estudo “Desafios e Oportunidades do Empreendedorismo Feminino na Bahia”, muitas dessas empresárias enfrentam barreiras ligadas à gestão financeira, acesso ao crédito, posicionamento de marca e competitividade no mercado digital. É justamente nessa lacuna que a consultoria atua.
A mentoria tem um objetivo mesmo de posicionar essas mulheres no mercado, de dar clareza, de trazer elas para o mundo do empreendedorismo
fundadora da ELA Consultoria Tálua Jarones
As participantes que confiaram no propósito da empresa já impulsionam os próprios negócios. Entre elas estão:
➡️ Silvana Alves, de 42 anos, moradora de Castelo Branco, mãe, sommelier de vinho há dois anos e organizadora de eventos;
➡️ Adriana Assunção, de 46 anos, moradora do bairro de Luís Anselmo, mãe de quatro filhos e decoradora com foco em arranjos florais na marca Divina Flor;
➡️ Lívia Moura, de 53 anos, moradora do Uruguai, na Cidade Baixa, dona da marca de geladinhos gourmet Livy Gourmet;
➡️ Adri Reis, de 35 anos, moradora de Nova Brasília (Estrada Velha do Aeroporto), mãe de três filhos e doceira focada na produção de doces e trufas;
➡️ Mariana Roider, moradora de Mussurunga e fundadora da Prisma Lab, voltada à produção de conteúdos digitais.
Silvana, Adriana, Lívia. Adri e Mariana, mentoradas pela ELA
“A gente dá posicionamento, clareza e auxílio com relação a tudo: onde ela deve abrir o MEI, a questão do financeiro e como organizar as finanças. Nós entregamos um plano de ação para ela desenvolver. Falamos sobre gestão do tempo, estratégia e vendas.
Tentamos fazer um compilado de tudo o que ela precisa para se desenvolver dentro desses quatro encontros, sendo dois presenciais e dois online, acompanhando todo esse processo”, explica a empresária.
Vinho, geladinho, doces personalizados e arranjos florais, produtos das empreendedoras
O empreendedorismo feminino na Bahia se concentra principalmente no setor de serviços, seguido pelo comércio. O cenário mapeado pela pesquisa indica: serviços (54%), comércio (33%), artesanato (7%), indústria (3%), agropecuária (1%) e terceiro setor (1%). Entre os segmentos mais frequentes aparecem o comércio varejista (35%); moda, vestuário e acessórios (14%); serviços profissionais e especializados (13%); alimentação e bebidas (12%); e beleza, estética e bem-estar (9%).
As mentoradas da ELA apontam que a renda mensal com os próprios negócios gira entre R$ 3 mil e R$ 10 mil, a depender do período do ano. A iniciativa de capacitar o empreendedorismo também gera para Tálua um retorno financeiro:
“Financeiramente, hoje eu vivo da ELA Consultoria, que me traz um retorno de aproximadamente R$ 7 mil por mês. Mas isso não é fixo, oscila bastante porque há mentorias, palestras, workshops e parcerias que fazemos. Então, esse valor varia entre R$ 7 mil e R$ 10 mil mensais”, inicia.
“Os valores das mentorias também são diferenciados. Para o grupo da Maratona Empreendedora, por exemplo, eu não cobro o valor integral da mentoria, mas sim um valor social. Já a minha mentoria custa entre R$ 700 e R$ 1.200, dependendo muito do trabalho que vou executar com essa empreendedora. Se eu pegar uma empreendedora que já tem tudo pronto, já tem a marca estruturada e está no mercado há três anos, com boa parte do trabalho encaminhada, então eu vou atuar mais no posicionamento”, conclui Tálua.
Sororidade econômica e o acolhimento a mães atípicas
A empresa atua como um reflexo de sua própria missão de apoio por meio do protagonismo feminino. O modelo de negócio permitiu impulsionar também a realidade de mães atípicas — mulheres que criam filhos com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
A Bahia ocupa a posição de quarto estado com a maior população de pessoas diagnosticadas com o transtorno no Brasil, com um número de 144.928 pessoas portadoras de autismo, conforme dados do Censo IBGE 2022.
Na edição da Expo Favela de 2025, a reportagem do MASSA! conheceu um grupo de mães que foi assistido pelo braço social da empresa. No evento, elas exibiram produtos e compartilharam histórias de luta, revelando como o empreendedorismo se tornou uma forma de vencer barreiras comerciais e fortalecer laços afetivos.
Os encontros do projeto direcionado a Maratona da Empreendedora ocorrem com divisão em três eixos: Tecnologia, Liderança Feminina e Finanças, com o objetivo de qualificar a mulher para o mercado.
Juliana Fernandes, empreendedora do Subúrbio e mãe atípica, explica que o grupo nasceu como alternativa para mulheres que necessitam conciliar o cuidado dos filhos com a busca por renda.
“A partir do momento em que a gente entra no projeto, a gente também abraça a causa de outras mães. A gente sente a dor também. Devido a tanta dificuldade da gente trabalhar fora de forma formal, de carteira assinada, surge essa oportunidade que outras mães também podem participar, conciliando horário e a questão do cuidado com os filhos”, contou.
Juliana Fernandes, empreendedora da suburbana e mãe atípica
Aos 39 anos, Juliana lembra que o crochê entrou em sua vida num momento difícil, durante uma separação. “Eu nunca tinha pensado em algo como negócio, foi a princípio como uma terapia mesmo, e para realmente eu me recompor daquela situação difícil que eu estava passando. Eu conheci o grupo através de uma amiga, e hoje eu ajudo outras mães atípicas na mesma situação”.
Comecei com o crochê devido a uma situação difícil, que foi uma separação, e foi o crochê que me reergueu e me fez chegar onde eu estou
empreendedora Juliana
Com o tempo, Juliana percebeu que o convívio com outras mulheres vivendo realidades parecidas trouxe força e leveza à rotina. “A partir do momento que a gente tá num projeto onde tem outras pessoas passando pelas mesmas situações que a gente, começamos a se fortalecer. O convívio em casa e no dia a dia acaba ficando mais leve”, contou.
“A gente começa a se sentir útil, porque quando a gente está em casa, naquela rotina com nossos filhos, de terapias e dificuldades da condição do TEA, a gente acaba se sentindo inutilizada. Mas aí descobrimos que podemos mais, ir além. Com essa conexão com outras mães, a gente vai se fortalecendo e se sentindo abraçada, podendo expandir e ir para fora de casa”, finalizou.
Empreender abre portas e cura feridas
Da Capelinha de São Caetano para o mundo, Maria Cristina, de 38 anos, é mãe de dois filhos atípicos e também encontrou no empreendedorismo uma forma de transformar sua realidade. Hoje, ela expõe seus produtos — laços e acessórios — na terceira edição da Expo Favela, e falou com orgulho da sua trajetória.
“Eu fui meio relaxada com os estudos, confesso, mas mesmo sendo de periferia, minha mãe sempre incentivou. Hoje tenho pensamento diferente, principalmente para minha filha, portadora do TEA, que está cursando pedagogia na UFBA. Eu digo para ela que o estudo é tudo. As mulheres de hoje pensam que ser empoderada é questão da roupa, de levantar a bandeira, mas não é. O saber que a gente tem leva a gente adiante”, expressou à época.
Maria Cristina é mãe de dois filhos atípicos
Cristina disse que o espírito empreendedor sempre esteve presente, mesmo antes de ela perceber.
“Eu comecei a empreender assim, desde criança, só que eu não tinha essa noção. Como mulher periférica, eu posso falar que a gente não tem aquela condição de comprar as coisas, era mais o básico. Então, quando criança, eu vendia alguma coisinha ou outra, digo que já tá na minha veia”.
A virada aconteceu por acaso, em um gesto de carinho para a filha.“Na fase adulta, por questão de necessidade mesmo, para cuidar da família, eu comecei a fazer laço de cabelo. Eu acho engraçado, porque quis fazer para o aniversário da minha filha, para dar de lembrancinhas para as colegas dela. Uma mãe gostou, e foi daí que comecei a vender.”
Atualmente, Cristina celebra não só o crescimento do seu negócio, mas também as conexões e aprendizados que o empreendedorismo proporcionou.
“Eu comecei a conhecer pessoas de outro patamar, pessoas que eu gosto de conversar, que têm a mente mais aberta, pessoas inteligentes que estudam. Para mim, um dos pilares da cura da depressão foi o empreendedorismo, foi sair de casa, vir para a rua e dizer assim: ‘Eu tô viva, eu tô aqui, eu posso ir além do que ficar em um quarto só costurando laço’. Mostrar: ‘Poxa, tem valor’. As pessoas olharem e gostarem do meu trabalho, é isso, pra mim é tudo”, finalizou.
A trajetória dessas mulheres evidencia que, na Bahia, a liderança de negócios por mães solo e chefes de família nasce frequentemente da urgência e da responsabilidade pelo sustento. O empreendedorismo é, para muitas, a única saída encontrada diante de um mercado formal que ainda as exclui: pela maternidade, pela cor ou pelo endereço.
*Sob a supervisão da editora Amanda Souza