Por trás dos becos e vielas, no coração do Calabar, a Base Comunitária da Polícia Militar reúne alunos de diferentes faixas etárias para participar de projetos sociais. Com a proposto de transformar vidas e se aproximar da sociedade, a corporação trabalha com variadas ações gratuitas, motivadas pelo calor da recepção da população.
Entre elas, durante a manhã, o som dos golpes, do kiai (grito curto e forte emitido pelo atleta) e da comunhão entre os alunos da academia de judô ecoam sobre a localidade. Comandados pelo sensei e cabo da Polícia Militar da 41ª CIPM, do Engenho Velho da Federação, Kléber Reis da Silva Corsino, os judocas aprendem sobre golpes, disciplina, controle e sintonia.
O MASSA! acompanhou uma de aulas das artes marciais e conversou com Kléber e o aluno Luis Gustavo. Segundo o professor, a iniciativa no Calabar ajuda a estreitar os laços entre a Polícia Militar e a comunidade, além de atrair os jovens para atividades recreativas, tirando-os dos caminhos errados e das más influências.
“Projetos como o judô, ações na área da educação, com reforço escolar, e música facilitaram bastante essa aproximação com a comunidade. Ao longo desses praticamente 14 anos dando aula aqui, o projeto de judô se consolidou dentro da comunidade e é muito bem visto e querido pelos moradores”, afirma o sensei.
Professor de judô Cabo PM Kleber Reis com alunos, João Guilherme, Luis Gustavo, Davi Brito, Pedro Richard e Gabriel Santana
Competições a nível estadual
Os alunos, por sua vez, encontram um ponto de dissociação e reflexão do dia a dia da sociedade durante as aulas. Kléber expressa que sente uma enorme satisfação ao perceber que, em 14 anos dando aulas, tem impactado positivamente na vida dos judocas, os preparando para os desafios que a vida proporciona.
“O que eu apresentei para eles foi um outro mundo, não apenas os becos e vielas do Calabar. Eu sempre os incentivei a pensar além das linhas e limites do Calabar, a entender que precisam se preparar para o mundo”, reflete.
Segundo o professor, o resultado positivo pode ser visto na trajetória de alguns alunos. Muitos dos jovens ingressaram nas faculdades em busca dos sonhos e destacou que um deles está prestes a se formar como soldado da PM. No esporte, alguns já competiram em torneios oficiais e figuraram no ranking da Federação Baiana de Judô.
Atualmente, ele informa que uma outra turma está em preparação para participar de uma nova competição. Porém, apesar dos desempenhos nas competições, Kléber ressalta que o principal objetivo do projeto é formar campeões da vida e incentivar os jovens a seguir caminhos diferentes da violência.
Não temos notícias de alunos dos projetos envolvidos em qualquer tipo de ilícito. Isso é um resultado muito positivo.
Sensei Kléber
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Destaque da turma da manhã, o aluno Luis Gustavo é um dos mais aplicados. Mostrando interesse e conhecimento das técnicas do judô, o estudante de 20 anos revelou o impacto que as aulas tiveram na sua vida. Há oito anos no tatame, ele segue com a rotina de levar os aprendizados para o dia a dia.
“Antes, eu tinha muito medo de praticar judô, mas, depois que comecei a treinar, percebi que aqui é um lugar onde a gente esquece os problemas do lado de fora e aprende muitas coisas para a vida. Eu sempre fui uma pessoa muito estressada e não tinha muito controle. Depois que comecei a fazer judô e a aprender as técnicas e essas coisas, consegui desenvolver muito mais paciência e equilíbrio”, revela.
Para algumas pessoas, o judô é apenas um esporte, mas, para mim, é muito mais do que isso. O judô, para mim, é algo muito especial, que considero como meu ponto de equilíbrio
Luis Gustavo, aluno
Luis Gustavo conta que, por ter inserido as artes marciais na Base Comunitária da Polícia Militar, muitos conhecidos começaram a olhar diferente, devido ao encontro com os agentes no cotidiano para a realização das aulas. Ainda assim, o esforço para desmistificar esse estigma foi amplo.
“Pelo lugar onde a gente mora, em um bairro como este, é muito comum que as pessoas tenham medo da polícia, porque criam uma determinada imagem deles na cabeça. Mas, quando a gente convive aqui no dia a dia, percebe que não é nada disso. Eu também tinha muito medo, mas, com o passar do tempo, percebi que são seres humanos como qualquer outro. Não há nada que os torne melhores do que a gente”, inicia.
Luis Gustavo é um dos alunos mais antigos e aplicados da turma
“Muitas pessoas criam uma imagem de que eles são amedrontadores e distantes, mas a realidade é diferente. Eles acabam sendo mais gentis e receptivos do que muita gente com quem convivemos. Demonstram carinho, atenção e cuidado com a gente, algo que às vezes nem encontramos em outras pessoas do nosso convívio”, desabafa.
Projeto muda imagem da PM na comunidade
Por muito tempo, a imagem da Polícia Militar esteve associada a apenas repressão, confrontos, operações e combate ao tráfico de drogas. O sensei Kléber, no entanto, reforça que, com o crescimento da base comunitária e as ações que têm sido desenvolvidas, a comunidade tem abraçado a corporação e percebido a existência das ações solidárias, como as aulas de judô.
“É através desses projetos que nossas ações são desenvolvidas, justamente para desvincular a polícia da ideia de repressão ou violência, mostrando que ela também pode representar um lugar onde as pessoas se sintam seguras, tenham esperança e possam enxergar perspectivas de um futuro melhor por meio dos projetos ofertados pela Base”, expressa.
Conforme o comandante da Base Comunitária, desde 2011 – ano em que assumiu a direção do local -, capitão Daniel Braz, as populações do Calabar e do Alto das Pombas recebem positivamente as ações comunitárias da corporação, a exemplo dos cursos de informática e inglês, projetos esportivos e culturais, como boxe, dança, alongamento, balé e bombeiro mirim.
Capitão PM Daniel Braz explica a união da corporação com a comunidade do Calabar
“Uma base dessa aqui em uma área que era conflagrada. Tem tráfico? Tem. Tem marginais? Tem. Mas hoje a gente não tem ocorrência aqui, é quase nula a ocorrência de CVLI nas comunidades atendidas pela Base do Calabar. Da mesma forma, os roubos aqui dentro. Até a questão da violência doméstica existe, mas a gente consegue, pela nossa presença aqui, prevenir”, relata.
Ao ver o local preenchido com crianças de diferentes idades durante as atividades ofertadas, o capitão descreve que sente uma sensação de esperança. Para ele, a base representa muito mais do que segurança, mas um espaço que ajuda a comunidade e ajuda a nova geração a construir um futuro melhor.