Durante o Carnaval, Salvador se transforma em um grande espaço de circulação coletiva. Milhões de pessoas ocupam ruas e circuitos oficiais ao longo dos dias de festa, em uma celebração marcada historicamente pela música, pelo corpo e pela diversidade cultural. Nesse cenário, a presença de blocos evangélicos — que levam louvor religioso para o meio da folia — tem provocado debates que extrapolam o Carnaval e alcançam o próprio campo cristão.
No Circuito Batatinha, no Centro Histórico, um dos exemplos mais conhecidos é o Bloco Sal da Terra, que completa 25 anos de participação em 2026. A atuação do grupo, no entanto, não é recebida de forma homogênea nem mesmo entre evangélicos. Para parte dos fiéis, a presença cristã no Carnaval representa uma estratégia de evangelização; para outros, configura uma contradição direta com princípios bíblicos.
Tudo sobre Carnaval em primeira mão!
Leia Também:
“Não se amoldem ao padrão deste mundo”
A crítica mais recorrente parte da interpretação de que o Carnaval simboliza valores incompatíveis com a vida cristã. A estudante Luana Barbosa, evangélica, afirma que a participação de crentes na festa revela uma tentativa de adaptação ao que ela chama de “padrões do mundo”.
“Isso aí são crentes que querem viver conforme o mundo vive. Pessoas que não se converteram de verdade e sentem falta das coisas do mundo”, afirma.
Para justificar sua posição, Luana recorre à Bíblia. “Em Romanos 12:2 está escrito: ‘Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente’. Para mim, isso deixa claro que o cristão não deve seguir o que o mundo faz”, diz.
Segundo ela, o próprio significado atribuído ao Carnaval reforça a incompatibilidade. “Carnaval significa festa da carne. Como nós, cristãos, vamos participar de uma festa da carne se seguir a Cristo significa abrir mão do próprio eu?”, questiona.
Luana também cita o trecho de Lucas 9:23-24, que fala sobre negar a si mesmo para seguir Jesus, como base para sua crítica.
Bloco evangélico mistura samba-reggae e louvor
Evangelização ou adaptação?
O debate não se restringe à oposição direta à festa, mas também à forma como o evangelismo é realizado. Para Flavia Torres, evangélica, a discussão é especialmente presente entre jovens cristãos. “É um debate dentro do meio cristão e principalmente entre a juventude”, afirma.
Ela reconhece que a pregação do evangelho pode acontecer em diferentes contextos, mas questiona se essa é, de fato, a motivação de quem participa de blocos evangélicos no Carnaval.
“Acredito que o evangelismo deve ser feito em todos os ambientes que o Espírito Santo conduzir, mas tenho ressalvas se as pessoas que estão indo pular carnaval-gospel estão realmente sendo direcionadas por Ele ou apenas satisfazendo uma vontade carnal que não foi saciada”, diz.
Flavia também demonstra ceticismo em relação à eficácia da abordagem. “Viver com Cristo é alegria, sim, mas antes é arrependimento de pecados. Não acredito que essa mensagem seja passada quando vemos um grupo de crentes pulando carnaval em bloquinhos que pouco se diferenciam de uma festa não cristã”, avalia.
Para ela, mesmo quando há resultados, eles tendem a ser limitados. “Ainda que colham frutos, são escassos e muitas vezes ligados ao emocionalismo do momento.”

Bloco Sal da Terra
Percussão, cultura e limite simbólico
Outro ponto sensível no debate envolve o uso de ritmos e instrumentos associados historicamente ao Carnaval e a religiões de matriz africana, como a percussão. Nesse aspecto, Flavia adota uma posição distinta.
“Não acredito que existam instrumentos que sejam de Deus e outros que não sejam. O segredo não está nos instrumentos, mas no caminho que eles conduzem”, explica.
Ela lembra que, ao longo do tempo, instrumentos antes rejeitados por igrejas evangélicas passaram a ser incorporados aos cultos. “Antigamente, bateria era vista como algo demoníaco. Hoje, a maioria das igrejas usa bateria, guitarra, pandeiro”, diz.
Para Flavia, o problema não é o ritmo, mas o contexto e a finalidade. “Usar esses instrumentos para adorar a Deus é diferente de reproduzir uma festa que não se diferencia, na prática, de um Carnaval comum.”

Bloco Sal da Terra
Uma disputa dentro do próprio campo religioso
Com presença consolidada no Circuito Batatinha e média de cerca de 500 integrantes por edição, o Sal da Terra segue integrado à programação oficial do Carnaval de Salvador. Ao mesmo tempo, a existência do bloco evidencia um conflito que vai além da folia: a divergência entre cristãos sobre como — e se — a fé deve ocupar espaços associados a práticas consideradas mundanas.
Ao levar louvor para o meio da avenida, os blocos evangélicos passam a representar não apenas uma alternativa dentro do Carnaval, mas também um ponto de tensão permanente dentro do próprio meio cristão, onde fé, cultura e limites simbólicos seguem em disputa.