Por trás de um relacionamento aparentemente perfeito, a história de uma mulher que teve sua vida marcada pela violência sexual, pelo vazamento de imagens íntimas e pelo peso da vergonha e do medo veio à tona. Por três anos, a cabeleireira Aline Alves da Silva, de 38 anos, diz ter vivido ao lado do ex-marido o que chama de terror nos Estados Unidos.
“Fui vítima de tráfico sexual cometido pelo meu próprio ex-marido e pela família dele. Eles me dopavam e me envenenavam. Enquanto eu estava inconsciente, abusavam de mim sexualmente e gravavam para comercializar na internet”. Esse é o forte relato de Aline à reportagem do portal A TARDE.
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Ainda muito abalada e na busca por justiça, Aline acusa o homem e um casal de tios dele de terem praticado os crimes.
A denúncia de Aline mostra uma realidade cada vez mais frequente: a exposição de mulheres sem consentimento em grupos clandestinos da internet, muitas vezes pelos próprios companheiros – homens nos quais elas acreditavam estar seguras.
O que você vai ler no A TARDE Destaque
- Aline Alves da Silva, cabeleireira de 38 anos, foi vítima de tráfico sexual por seu ex-marido e sua família nos EUA.
- Ela relata ter sido dopada, envenenada e abusada sexualmente enquanto estava inconsciente, transformando sua vida em um pesadelo.
- Após retornar ao Brasil, Aline enfrenta problemas para conseguir justiça devido à negligência das autoridades americanas e brasileiras.
- A violência contra mulheres no exterior aumentou 4,8% entre 2023 e 2024, indicando uma realidade alarmante.
- Especialistas afirmam que a divulgação não autorizada de imagens íntimas configura crimes e que o estupro marital é reconhecido pela lei.
Horror vivido nos EUA
Mãe de três filhos – um jovem de 18 anos e dois adolescentes gêmeos, de 14 -, Aline voltou a morar no Brasil, mais precisamente em São Paulo, há pouco mais de cinco meses. Durante sete anos, ela residiu nos Estados Unidos – três desses ao lado do homem que, diante de um juiz, lhe jurou amor, respeito e proteção.
“Com um mês e meio que a gente estava morando junto, comecei a ter episódios de quase desmaios. Perdia os sentidos, mas não a consciência. Vieram também queda de cabelo, cólica intestinal, vômito, diarreia. As pontas dos meus dedos ficavam amortecidas, minha saúde foi se deteriorando cada vez mais. Isso começou a virar rotina”, relembra ela.
A cabeleireira conta ainda que só entendeu o que de fato estava lhe acontecendo após deixar a casa onde morava com o então ‘companheiro’.
“Quando eu consegui fugir dessa situação, descobri que estava sendo dopada, envenenada, abusada sexualmente e comercializada na internet”, reafirma ela, revelando que ainda está oficialmente casada com o homem, que também é brasileiro.
Aline morou nos Estados Unidos por sete anos, três destes, viveu ao lado do agressor
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Foto: Reprodução
Processo nos EUA e denúncia no Brasil
Aline diz que, quando descobriu os abusos procurou às autoridades americanas. Mas, de acordo com seu entendimento, os crimes não foram tratados de maneira adequada. Após a denúncia, ela e os filhos – à época com 15 e 12 anos -, ficaram morando em um abrigo por cinco meses até conseguir um retorno ao Brasil.
“O caso correu na vara da família. O certo era ter ido para a área criminal. Acho que engavetaram porque eu sou latina e seria um processo internacional”, avalia a cabeleireira.
Foto: Arquivo Pessoal
Além de notificar os poderes dos Estados Unidos, ela também procurou ajuda no consulado do Brasil, no país. “Fui ao consulado, liguei, mandei inúmeros e-mails ao Itamaraty. Fui completamente negligenciada. Mas, quando ligam pra eles, falam que me deram a assistência necessária, mas não deram”, desabafa.
De volta ao Brasil, em janeiro deste ano, Aline procurou a Polícia Civil para registrar ocorrência. Ela revelou que o caso foi encaminhado à Polícia Federal. Mas, ainda não obteve respostas.
Foto: Arquivo Pessoal
A cabeleireira conta que, por causa das denúncias e da inércia das autoridades americanas e brasileiras, o ex-marido – que ainda vive nos Estados Unidos -, continua tentando intimidá-la. Inclusive, por cinco vezes, invadiu e derrubou as redes sociais onde ela relata todo o horror vivido enquanto era casada. A última invasão aconteceu recentemente, no mês de maio.
“Eu acredito que tenha sido meu ex e a família dele, porque ele já tem histórico de invasão. Tenho uma ação movida contra ele por ter invadido o sistema da escola dos meus filhos e também minhas redes sociais”, afirma.
Envolvimento dos tios
Para Aline a maior surpresa foi saber que os tios do ex-marido participavam diretamente das agressões, dos abusos e também faziam ameaças constantes.
“A maioria das ameaças foi feita pelo tio e pela tia dele. Diziam que iam fazer eu perder meus filhos, que iam sequestrar eles, que sempre iriam saber onde eu estava e que iam atrás de mim”, relembra.
Fotos íntimas espalhadas em grupos
A história de Aline não é um caso isolado. A professora Catarina Lima [nome fictício] viveu outro tipo de violência: foi vítima de pornografia de vingança. E assim como a cabeleireira, também foi humilhada publicamente e exposta em sua intimidade por um ex-namorado.
A situação aconteceu há cerca de dez anos, quando ela ainda cursava a faculdade, mas, as marcas da violência ainda estão vivas em sua memória.
Na época, Catarina, que mora em Cruzeiro, no estado de São Paulo, mantinha um relacionamento à distância e costumava enviar fotos pessoais para o então namorado.
“Eu tinha passado por um processo de emagrecimento recente, estava nessa pegada de bodybuilder [praticante de musculação] e ele não podia acompanhar de perto. Então, eu mandava fotos mostrando a evolução do meu corpo. Algumas fotos seminuas, mas nunca nua por completo”, lembra ao A TARDE.
A professora conta que, depois de uma briga e o término do relacionamento, passou a receber mensagens de homens desconhecidos e de diferentes partes do Brasil.
“No dia seguinte [ao término], comecei a receber inúmeras mensagens no WhatsApp de números com todos os DDDs do país, me assediando, me chamando de ‘put*’”, recorda ela.
Sem compreender o motivo das mensagens, Catarina disse ter ficado sabendo das divulgações de suas imagens em um grupo de WhatsApp chamado ‘Casados mostrem suas esposas’, por meio de um dos integrantes.
Ela disse que, além das fotografias, o ex-namorado também divulgou o número de seu telefone dentro da comunidade da internet.
Foto: Reprodução Redes Sociais
Tinham diversas fotos de mulheres deitadas, aparentemente dormindo, outros vídeos, mulheres de calcinha ou nuas. Eles se vangloriavam daquilo”, relembra a professora, o que viu no grupo em que teve sua imagem exposta.
Ela relata ainda que no grupo tinham homens de diversas regiões do país e que eles compartilhavam também imagens de crianças. “Eles perguntavam: ‘são seus filhos?’ e elogiavam como se fosse um diálogo normal”, recorda.
Existem vários grupos no Facebook
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Foto: Reprodução/ montagens Redes Sociais
Na ocasião, Catarina disse ter ficado muito assustada e decidiu apenas trocar de número e se afastar das redes sociais. “Na época, eu nem pensei em denunciar. Só queria me ver livre daquilo”, conclui.
Grupos públicos e comunidades privadas
O portal A TARDE encontrou alguns grupos públicos no Facebook com nomes como “Casados mostram esposas”, Casadas carentes e safad*s”, “Minha esposa”, um desses com 67 mil participantes.
Nas postagens, muitos homens exibem suas esposas e escrevem mensagens na tentativa de atrair outros homens. Em alguns casos, aparecem frases como “só para quem gosta de mostrar esposa ou namoradas”.
Apesar de muitos homens demonstrarem satisfação, há quem questione a exposição das mulheres
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Foto: Reprodução/ montagens Redes Sociais
Pelo que parece, esses tipos de imagens são bem recebidos, a ponto de outros homens procurarem diretamente pelos conteúdos, com pedidos como “alguém quer exibir a esposa para mim?”.
Nas mensagens abertas, também há participantes falando sobre troca e divulgação de imagens íntimas de suas mulheres. Há ainda relatos sobre comunidades privadas na própria rede social e também no WhatsApp, onde conteúdos mais explícitos seriam compartilhados.
Imagens de grupos nas redes sociais onde homens divulgam imagens das esposas
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Foto: Reprodução/ montagens Redes Sociais
A reportagem tentou acessar alguns desses grupos e também entrou em contato com integrantes dessas comunidades, mas não obteve resposta.
O que dizem os especialistas
O delegado Gabriel Cipriano, do Núcleo Especializado em Repressão a Crimes Contra Crianças e Adolescentes no Ambiente Virtual (Nercca), ouvido pelo A TARDE explica que a relação conjugal não impede a configuração de crimes sexuais.
“Relação conjugal nenhuma é escudo para qualquer relação abusiva”, afirma.
Ainda segundo o delegado, quando a vítima está dopada ou inconsciente, o caso pode ser enquadrado como estupro de vulnerável, previsto no artigo 217-A do Código Penal.
Já com relação a gravação e divulgação das imagens íntimas sem autorização também configura crime. “Nós temos o registro não autorizado da intimidade sexual e também a divulgação de cena de estupro ou pornografia”, destaca ele.
Cipriano alerta que as pessoas que compartilham essas imagens também podem ser responsabilizadas criminalmente. “Você está divulgando uma cena de estupro de vulnerável”, pontua.
A TARDE também ouviu o advogado e professor de Direito Penal e Processo Penal da Afya Salvador, Liberato Menezes. Conforme ele, o caso de Aline pode ser caracterizado como estupro marital, crime reconhecido pela legislação brasileira.
“A primeira coisa que a gente tem que desmistificar é que entre marido e mulher pode existir o crime de estupro. Existe o estupro marital. A relação conjugal hoje não tem mais aquela questão arcaica que tinha no passado de um débito que a mulher tinha com o marido, de maneira nenhuma. Ninguém pode cometer nenhum tipo de ato sem a anuência, sem o consentimento, sem a voluntariedade da pessoa que está ao seu lado”, afirma Menezes.
“Não estamos falando de um estupro comum, que está previsto no artigo 213 do Código Penal. Nós já estamos falando de alguém que está em estado de vulnerabilidade. Portanto, seria um estupro de vulnerável. Está no artigo 217-A, tem uma pena mais pesada, uma pena de 8 a 15 anos. A pena mínima já é de 8 anos”, complementa.
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Sobre o ex-marido de Aline ser punido pelo crime praticado nos Estados Unidos, o advogado disse: “a legislação brasileira é quem rege isso. Como o fato se deu nos Estados Unidos, fora do território brasileiro, não quer dizer que ele não seja processado aqui. Não sendo isso, ou concomitante a isso, uma vez ela voltando para o Brasil, ela comunica às autoridades brasileiras. Se o fato se deu lá, existe uma extraterritorialidade. É a Justiça Federal quem vai ter a competência para processar e julgar, e a investigação será feita pela Polícia Federal”.
Com relação ao crime de divulgação de imagens em grupos nas redes sociais, o especialista também destacou que administradores dos grupos usados para divulgar imagens íntimas podem responder criminalmente. “O administrador do grupo é responsável por tudo o que passa naquele grupo”, finaliza o professor da Afya Salvador.
Violência crescente contra mulheres
Dados do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) apontam que os registros de violência doméstica e de gênero contra brasileiras no exterior aumentaram 4,8% entre os anos de 2023 e 2024.
De acordo com as informações contidas neste último levantamento divulgado pelo Itamaraty, só nos Estados Unidos foram contabilizados 397 casos.
Diante do crescente número de casos de violência de gênero fora do país, os Ministérios das Relações Exteriores e das Mulheres lançaram, em janeiro de 2024, a cartilha “Prevenção de Violências Contra Mulheres Brasileiras no Exterior”.
O guia, disponível na internet, além de informações de como enfrentar as violências, traz os canais de comunicação do governo brasileiro para formalização de denúncias.
Em março de 2025, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com o Datafolha, divulgou dados da pesquisa “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”. O levantamento trouxe uma perspectiva acerca das diversas violências sofridas pela população feminina no Brasil.
Os dados revelaram que cerca de 37,5% das brasileiras, o que equivale a 21 milhões de mulheres, disseram ter sofrido algum tipo de violação, em 2024. Ainda conforme o estudo, este é o maior índice de violência contra mulheres registrado desde a o início do levantamento, em 2017.
Foto: Arquivo Pessoal
Além disso, a pesquisa também revelou que, em 2024, 5,3 milhões de mulheres, 10,7% das brasileiras, ou seja, uma em cada dez, foram vítimas de abuso sexual ou foram forçadas a manter relações sexuais contra a própria vontade.
Esta foi a primeira vez que o estudo incluiu questões sobre violência digital. Neste contexto, a pesquisa destaca que quase 1,5 milhão de brasileiras tiveram suas imagens íntimas vazadas na internet sem permissão.
Ainda segundo os dados divulgados à época, houve um aumento no número de casos de violência contra mulheres no país, incluindo física, sexual e digital.
Sem resposta
A reportagem procurou a Polícia Federal, que respondeu: “A PF não confirma nem se manifesta sobre eventuais investigações em andamento”.
O Ministério das Mulheres e o Itamaraty também foram procurados, mas não se posicionaram até o momento. O ex-marido de Aline foi procurado pela reportagem e não respondeu.
Onde procurar ajuda
- Central de atendimento exclusiva para mulheres – O serviço funciona 24 hora em todo o país e, além de receber denúncias, também direciona as vítimas para as redes de apoio local. Contato: 180 ou pelo WhatsApp (61) 9610-0180
- Polícia Militar – 190
- Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deams) – essas unidades estão preparadas acolher mulheres vítimas de violências. Caso a cidade não tenha uma unidade especializada, qualquer Delegacia de Polícia Civil pode ser procurada.