Duas das facções criminosas mais conhecidas e violentas do Brasil, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) foram classificadas pelos Estados Unidos da América como organizações terroristas. A decisão do presidente americano Donald Trump, anunciada na quinta-feira (28), levantou questionamentos da população sobre possíveis mudanças no combate ao crime organizado na Bahia.
Entre os grupos criminosos, o CV é o que possui atuação mais contundente na Bahia, enquanto o PCC é classificado como uma das maiores quadrilhas da América do Sul. Apesar das diferenças, ambas as facções são investigadas por práticas semelhantes, como tráfico de drogas, homicídios, roubos e outros.
O alto grau de periculosidade desses grupos, que têm alcance internacional, já vinha sendo combatido pela Secretaria de Segurança Pública da Bahia. Segundo uma fonte policial ouvida pelo MASSA!, ações de inteligência e troca de informações entre a pasta e a Interpol são realizadas frequentemente com o objetivo de coibir a expansão das quadrilhas no exterior.
Reflexo disso são as seis prisões de indivíduos procurados internacionalmente, efetuadas durante os primeiros cinco meses de 2026. Além disso, investigações também vêm sendo realizadas em países onde o narcotráfico é forte, como Colômbia e Peru, especialmente no comércio ilegal de maconha.
“Sabemos que há facções, organizações criminosas, com atuação não só aqui no nosso estado, não só no nosso país, mas também que ultrapassa fronteiras. Exemplo disso é justamente o alcance de lideranças na Bolívia, no país vizinho daqui de nosso país“, Marcelo Werner, titular da SSP.
Werner liga alerta após classificação dos EUA
A classificação do CV e PCC como grupos terroristas chamou a atenção de diversas autoridades brasileiras, inclsuive do titular da Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), Marcelo Werner. Em entrevista ao MASSA!, na manhã desta sexta-feira (29), durante premiação na Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA), Werner pediu cautela com os desdobramentos.
Nós não podemos compactuar com qualquer tipo de ingerência à soberania nacional
Marcelo Werner
Werner destaca cautela com desdobramentos da decisão dos EUA
Um dos principais questionamentos dos brasileiros envolve as possíveis ações do país norte-americano contra o Brasil após a classificação. O histórico recente de invasões e ações realizadas sem aviso prévio a outros países, como o bombardeio e morte de um líder iraniano e o sequestro do presidente da Venezuela, estão entre os principais temores das autoridades brasileiras.
“A gente tem que tomar cuidado e acompanhar os desdobramentos a partir dessa decisão. Acho que uma análise tem que ser feita a partir do que ocorrerá a partir de agora. Acredito que, primeiro, qualquer decisão que seja dos Estados Unidos, ela não pode e não deve afetar a soberania nacional. Segundo, espero que a cooperação internacional contra as organizações criminosas prevaleça”, destacou.
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O que muda?
Conforme dito por Werner à reportagem, o combate ao crime organizado realizado pela SSP-BA não deve ser alterado em razão da decisão dos EUA. O secretário reforça a existência de uma cooperação internacional que, segundo ele, deveria ser o verdadeiro foco.
“Nada muda em relação às ações que nós realizando diuturnamente, somente sendo mais de 300 operações contra as facções, contra as organizações criminosas, inclusive com viés de capital e de sequestro financeiro. Então, é esse o propósito, é assim que a gente vai continuar trabalhando”, afirma.
Afinal, os EUA podem interferir no Brasil?
O pesquisador, professor da UFBA e especialista em Segurança Pública Misael França explica que o país-norte americano não pode interferir diretamente no Brasil, que é um país soberano e possui acordos diplomáticos que garantem o respeito mútuo a cada nação.
Não há a possibilidade de ingerência no estado brasileiro enquanto nação
Misael França, especialista em SSP
“Essa rotulação pode fazer algum sentido para questões internas ao governo estadunidense. No que diz respeito a diretrizes para se estabelecer relação com o Brasil a partir de agora, dessa categorização dos grupos criminosos como terroristas, não há a possibilidade de ingerência no estado brasileiro enquanto nação, justamente por uma questão de respeito à soberania que delimita a atuação e a prática de políticas públicas e de decisões judiciais entre esses dois países”, explica.
Pesquisador em SSP, Misael França diz que EUA não pode interferir diretamente no Brasil
O pesquisador também destaca que o Brasil possui mecanismos e leis para combater crimes terroristas, a exemplo da Lei Antiterrorismo brasileira, em vigor desde 2016, que define terrorismo como crime federal, sendo enfrentado pela Polícia Federal.