Coité se despede de Chiquita, símbolo da luta pela aposentadoria das mulheres rurais – Calila Noticias

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O município de Conceição do Coité, no Território do Sisal, se despediu neste sábado, 31 de outubro, de uma mulher que ajudou a escrever a história dos movimentos sociais e sindicais da região. Vandira Araújo, conhecida carinhosamente como Chiquita, morreu na sexta-feira (30), aos 85 anos, e foi sepultada no cemitério do distrito de São João, comunidade onde construiu sua história de vida e luta.

Chiquita pertenceu a uma geração de mulheres que enfrentou dificuldades e participou da organização popular em um período em que o Brasil vivia sob a ditadura militar (1964–1985), quando as liberdades democráticas eram limitadas.

Sua caminhada foi marcada pela participação nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), no movimento sindical e nas mobilizações em defesa dos trabalhadores rurais, especialmente das mulheres que lutavam pelo reconhecimento de seu trabalho e pelo direito à aposentadoria.

Os últimos dias de Chiquita

Em relato sobre os últimos dias da mãe, Márcio Araújo, filho caçula, que morava no primeiro andar da mesma casa onde Chiquita residia, contou que ela permaneceu tranquila e alegre até os momentos finais. “Minha mãe amava São João, amava seus filhos e seus vizinhos. Gostava de visitar as pessoas. Tinha suas particularidades pela idade, mas sempre tinha uma palavra de perdão e um sorriso na boca. Com poucos dentes, mas com sorriso na boca”, recordou.

Mesmo aos 85 anos, Chiquita mantinha o hábito de acordar e pegar uma enxadinha para retirar os matinhos próximos de casa.

Na sexta-feira, porém, disse ao filho que estava sentindo fraqueza nas pernas. Pouco depois, caiu e precisou ser levada ao hospital. Chegou a apresentar melhora e manifestou o desejo de voltar para casa, mas seu estado de saúde se agravou e ela morreu por volta das 14h.

A luta pela aposentadoria das mulheres rurais

Uma das principais bandeiras da geração de Chiquita foi a conquista da aposentadoria para as mulheres trabalhadoras rurais. Durante décadas, agricultoras trabalharam na roça, criaram seus filhos e ajudaram a sustentar suas famílias sem o devido reconhecimento previdenciário.

Chiquita participou dessa caminhada de reivindicações, envolvendo-se em passeatas em Conceição do Coité, mobilizações em Salvador e viagens a Brasília, ao lado de companheiros e companheiras dos movimentos sociais. A fotografia não era tão fácil como nos dias de hoje e a familia não dispõe desses registros, principalmente em atividades em Salvador e outros estados, porém, o CN fez buscas de registros fotográficos de alguns eventos que ela esteve presente.

Movimento em prol da aposentadoria das mulheres

A luta ganhou força nacional na década de 1980 e teve sua principal conquista com a promulgação da Constituição Federal, em 5 de outubro de 1988, que ampliou os direitos previdenciários das mulheres rurais e estabeleceu a aposentadoria aos 55 anos, cinco anos antes dos homens.

O direito foi regulamentado pela Lei Federal nº 8.213, de 24 de julho de 1991, permitindo a ampliação efetiva do acesso das agricultoras à aposentadoria.

Na Bahia, sindicatos rurais, movimentos de mulheres e entidades como o Movimento de Organização Comunitária (MOC) tiveram participação importante nessa mobilização.

Uma mulher de fé que conheceu o Papa

A luta social de Chiquita caminhava ao lado de sua fé católica. Integrante das Comunidades Eclesiais de Base, participou de encontros religiosos e atividades comunitárias inspiradas na solidariedade e na defesa dos direitos das populações mais pobres.

1980 Para João Paulo II ao lado de Irmã Dulce, em Salvador

Um dos momentos marcantes de sua vida foi conhecer o Papa João Paulo II durante a visita do pontífice a Salvador, em julho de 1980.

A filha Valdenide Araújo da Silva, de 61 anos, recordou que cresceu acompanhando a mãe nas atividades religiosas e sindicais. “Desde pequenininha ela me levava para a igreja. Fui criada dentro da Igreja Católica. Quando ela ia para reuniões em Salvador, levava a gente também”, contou.

Uma vida dedicada à esperança de dias melhores

Mãe de quatro filhos, três homens e uma mulher, Chiquita acreditava que a organização popular era o caminho para melhorar a vida das pessoas.

Sua dedicação aos movimentos sociais tinha como objetivo conquistar melhorias para a comunidade de São João. Era uma mulher que acreditava na força da união e na capacidade de transformar a realidade por meio da luta coletiva.

A filha Valdenide recordou o compromisso da mãe com o movimento sindical.

Casal Manoel e Chiquita

“Ela gostava do movimento do sindicato. Tinha esperança de que a vida melhorasse. Mas não dependia só dela. Ela fazia parte da luta junto com todos os companheiros”, declarou.

Chiquita partiu aos 85 anos, mas sua trajetória permanece na memória da comunidade, dos familiares e dos movimentos sociais dos quais participou.

A agricultora que enfrentou dificuldades, participou de passeatas, viajou em defesa dos direitos das mulheres e acreditou na força da organização coletiva deixa um legado que ultrapassa sua própria história.

Porque quem faz história não é esquecido pela história. E Chiquita fez história lutando para que outras pessoas pudessem viver melhor.

Amizade com Jerônimo Rodrigues começou no movimento social

A história de Chiquita também se cruzou com a do atual governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), muito antes de ele ingressar na vida política. Quando ainda era estagiário do Movimento de Organização Comunitária (MOC), Jerônimo atuava em municípios do Território do Sisal, incluindo a comunidade de São João, em Conceição do Coité.

Foi nesse período que se aproximou de Chiquita e de Maria José, outra importante liderança comunitária, também já falecida. A amizade permaneceu ao longo dos anos. Mesmo depois de eleito governador, Jerônimo reencontrou Chiquita em pelo menos duas oportunidades. Uma delas aconteceu em Retirolândia, quando fez referência à agricultora durante um pronunciamento público.

Ao ser informado do falecimento de Chiquita por meio de uma mensagem do Calila Notícias, Jerônimo lamentou a perda, recordou também Maria José e destacou a importância das duas mulheres nas lutas sociais que contribuíram para conquistas hoje asseguradas à população rural.


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