Salvador não cabe em um story, mas é nela que uma nova geração de criadores decidiu apostar. Nos últimos anos, perfis dedicados a mostrar praças, praias, restaurantes e histórias da cidade deixaram de ser hobby de fim de semana e viraram trabalho de tempo integral para quem soube transformar o afeto por um lugar em negócio.
Neste Dia Mundial do Turismo, comemorado hoje, 27 de setembro, o fenômeno ganha um contexto a mais para ser observado. Não é exclusivo de Salvador, mas ganhou contornos próprios na capital baiana: perfis como A Vida em Salvador, Destinos Baianos e Ruivo Baiano acumulam, juntos, quase um milhão de seguidores interessados em saber onde comer, para onde ir no fim de semana e o que fazer além do roteiro turístico tradicional.
Por trás das câmeras, no entanto, há uma pergunta que atravessa cada um desses criadores: como divulgar uma cidade bonita sem maquiar a realidade nem alimentar o discurso de que “aqui só tem problema”?
O influenciador Caio Costa, do perfil A Vida em Salvador, não planejou nada disso. Formado em Marketing Digital, ele publicava fotos da cidade em um perfil pessoal que, a princípio, era sobre publicidade. “O engajamento foi lá para baixo, pois os seguidores queriam acompanhar sobre um tema e não ver uma foto sobre Salvador”, lembra. Foi o fracasso do primeiro formato que apontou o caminho.
O nome do perfil surgiu quase por acaso: “Estava disponível”. O sucesso veio devagar. “A página começou a ter êxito por volta de um ano depois, mas passei a viver exclusivamente da criação de conteúdo só em 2022”, conta Caio, que hoje fala para três públicos: turistas, moradores e baianos que vivem longe e sentem saudade de casa.
A trajetória do criador Luiz Eugênio, do Destinos Baianos, começou de um jeito ainda mais inusitado: em uma fila de vestibular. Ele ouviu dois candidatos comentando que não sabiam o que tinha para fazer na Bahia, além do Carnaval.
Luiz comenta que a frase não saiu da cabeça dele: “Aquela pergunta, para mim, que sou apaixonado por minha terra, revelava uma visão muito limitada e estereotipada do nosso estado”.
O perfil nasceu para provar o contrário: repostando fotos de seguidores com a hashtag #DestinosBaianos, o perfil foi crescendo até virar produção própria, com viagens e roteiros autorais por todo o estado. Hoje, Luiz soma mais de 300 mil seguidores. “Com o tempo, o conteúdo se tornou cada vez mais autoral”, resume.
Marcelo Filho, à frente do perfil Ruivo Baiano, teve outro ponto de partida: a sensação de não se ver representado. “Salvador é uma cidade de muitas cidades, cada bairro vive uma cidade diferente, e eu, que sou de Itapuã, sempre senti isso quando assistia os conteúdos sobre a capital”, diz ele. A vontade de mostrar a cidade pelo olhar de quem cresceu longe do Centro Histórico foi o que moveu a criação do canal.
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Amadurecimento
Se antes bastava gostar de fotografar a cidade, hoje o cenário exige estratégia. É o que observa o especialista Gabriel Bomfim, sócio-fundador do Grupo Bando, agência que trabalha com influenciadores baianos. “Vejo o mercado de influência de Salvador em amplo crescimento, com criadores trazendo cada vez mais identidade local nos conteúdos e conseguindo chamar atenção do país inteiro”, avalia.
Para Gabriel, apostar em uma única cidade é um diferencial e não um limitador. “Quando o influenciador torna a sua cidade a sua pauta principal, fortalece o mercado interno e cria novas oportunidades para expandir a sua própria atuação”, diz. Segundo ele, as métricas mostram que esse público hiperlocal alcança até seguidores de outros estados, curiosos sobre um lugar que talvez nunca tenham visitado.
A estrategista em Comunicação e Branding, Rebecca Lyrio, tem mais de 20 anos de mercado e reforça a leitura de Gabriel. “A lógica do hiperlocal mostra que relevância não é apenas escala”, afirma. Para ela, um criador “pode não ter a maior audiência, mas ser a primeira pessoa que alguém procura quando quer saber onde comer, o que fazer ou qual experiência conhecer em uma cidade”.
Mas transformar isso em sustento é outra conversa. Gabriel é direto: “Construir uma carreira sustentável nesse nicho é, sim, possível”, aponta. “Mas isso exige preparação, profissionalismo, organização financeira e também uma dose de incômodo para o criador olhar além das parcerias e diversificar suas formas de monetização”.
Rebecca segue a mesma linha e amplia o leque de possibilidades. “Existem possibilidades com produção de conteúdo para marcas, projetos especiais, experiências, eventos, afiliados, produtos próprios e parcerias com toda a cadeia de turismo e economia criativa”, enumera. Publicidade, segundo ela, deve ser uma fonte de receita, mas não a única.
Luiz Eugênio vive essa realidade na prática. Hoje concilia o Destinos Baianos com a faculdade de Medicina e ainda não vive exclusivamente da página. “Existe muito trabalho que não aparece: planejamento, criatividade, pesquisa, viagens, equipamentos, edição, negociação, relacionamento com marcas, investimento financeiro e, principalmente, tempo”, pontua.

Divulgação
O ponto mais delicado da profissão, porém, não é financeiro, é o ético. Todos os criadores entrevistados dizem lidar, de algum jeito, com o dilema entre vender a beleza da cidade e não esconder o que não funciona.
Caio opta por um recorte mais positivo, mas sem negar a realidade. “Gosto de mostrar que, apesar de questões sobre segurança, é totalmente possível passear pelos pontos turísticos”, diz, lembrando que grava sozinho na rua e que nunca passou por qualquer questão com ele ou seus equipamentos.
Luiz Eugênio prefere não escamotear os percalços. “Não acredito que divulgar a Bahia signifique esconder os problemas que existem”, afirma. “Se um lugar é massa, mas tem uma dificuldade de acesso, uma infraestrutura limitada ou algum ponto que merece atenção, acho importante falar sobre isso”. Para ele, a ideia nunca foi “vender uma Bahia perfeita”.
O Ruivo Baiano enxerga o alerta como parte do próprio trabalho de indicar. “Não acho justo indicar ou falar dos lugares sem apontar seus problemas”, diz. Ele reconhece que opiniões geram atrito. Marcelo já recebeu críticas de moradores de Itapuã, seu próprio bairro, por retratar dificuldades locais. Ele defende o direito à divergência: “São recortes, nada é algo 100% cravado”.
Expectativas
Essa tensão também aparece quando a recomendação dá errado. Rebecca lembra que a credibilidade do criador está em jogo sempre que uma indicação não corresponde à expectativa do seguidor. “Recomenda-se que a relação do influenciador com a marca seja sempre verdadeira e transparente, com serviços e produtos que realmente sejam usados pelo influenciador”, diz.
Gabriel concorda que testar antes de indicar é inegociável. “O criador precisa fazer uma curadoria, avaliar com verdade e, a partir daí, recomendar pelas suas impressões”, afirma. “O desejo por monetizar precisa estar de mãos dadas com a verdade, porque a relação com a audiência é uma relação de longo prazo”.
Caio já viveu a pressão de perto: uma indicação sua chegou a lotar um restaurante por semanas. Por isso, hoje é seletivo antes de fechar parcerias e confere avaliações e comentários. “Se por acaso eu fechasse uma publi [a publicidade] com restaurante e eu atestasse que não vale a pena, eu explicaria e devolveria o dinheiro justamente para manter a credibilidade da página”, garante.

Novidades
Passados anos de perfil no ar, o desafio de todos parece ser o mesmo: continuar encontrando o que contar sobre um lugar que já parecia conhecido de cor. Luiz Eugênio resume o sentimento ao falar do estado inteiro, não só da capital: “Quanto mais eu conheço, mais percebo o quanto ainda falta conhecer”.
Recentemente, ele destacou a Praia de Monte Cristo, em Saubara, pouco conhecida do público, e uma travessia a pé entre Boipeba e Moreré — conteúdos que fugiram do roteiro batido e surpreenderam pela repercussão. “Existe uma troca muito interessante”, afirma. “Eu apresento lugares para quem me acompanha, mas também descubro lugares através dessas pessoas”.
Caio segue caminho parecido dentro de Salvador, saindo da rota turística tradicional para mostrar bairros populares. Um caso recente foi o vídeo sobre o Porto das Sardinhas, em São João do Cabrito, que rendeu milhares de visualizações em poucas horas. “Salvador sempre será uma boa fonte para contar histórias”, resume.
É essa mistura de afeto, ofício e responsabilidade que parece sustentar o fenômeno. Entre uma indicação de restaurante e um alerta sobre segurança, esses criadores construíram algo que vai além do algoritmo. “É uma forma de contar a cidade por dentro, sem esconder o que ela tem de difícil nem deixar de mostrar por que vale a pena ficar”, conta Marcelo.