como o 2 de Julho virou termômetro político na Bahia

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O cortejo da Independência do Brasil na Bahia por si só já é um dos maiores eventos políticos do país. Como uma tradição, as festividades costumam trazer manifestações, cobranças e protestos da população à classe política.

Por outro lado, sentindo a “temperatura”, seja em razão das vaias, acúmulo de apoiadores e até aplausos, as presenças dos próprios políticos no desfile cívico têm se tornado cada vez mais comum e, na verdade, vem fazendo parte de uma estratégia eleitoral.

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Manifestações políticas são tradição no 2 de Julho
Manifestações políticas são tradição no 2 de Julho – Foto: Olga Leiria | Ag. A Tarde

2 de Julho como verdadeiro termômetro político

Eventos públicos, de maneira geral, são usados durante as campanhas eleitorais como uma forma de termômetro, medindo a satisfação da população sobre a atuação do político A, B ou C.

O 2 de Julho, no entanto, por ser um evento forjado na política e que tem ganho um reconhecimento nacional, tem se tornado cada vez mais uma verdadeira vitrine política eleitoral.

Pensando em todas as nuances que envolvem a Independência do Brasil na Bahia, o portal A TARDE consultou especialistas para saber:

  • Quando as festividades do 2 de Julho passaram a ser consideradas uma festa política, ter a presença dos políticos e funcionar como um termômetro eleitoral para os pré-candidatos?

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O nascimento do cortejo

Antes de se aprofundar na classe política, primeiro, é preciso entender como o desfile cívico começou em Salvador. Como dito nesta reportagem, o 2 de Julho já nasceu na política, afinal, a festa começou em comemoração pela Independência do Brasil na Bahia.

Os festejos começaram em 1824, um ano após a expulsão das tropas portuguesas após uma batalha sangrenta que teve a participação do próprio povo baiano.

De acordo com o livro “Algazarra nas Ruas: Comemorações da Independência na Bahia”, da historiadora Wlamyra Albuquerque, o ritual de desfilar do bairro da Lapinha até o Terreiro de Jesus repete o trajeto da entrada triunfal das tropas brasileiras libertadoras na cidade.

Entenda a presença do Caboclo no 2 de Julho

A figura do Caboclo veio dois anos depois, em referência à vitória na Batalha de Pirajá, que ocorreu em 1822.

Quando venceram o combate, os baianos tomaram uma carreta dos portugueses e a transformaram em um troféu, enfeitando-a com folhas de café, cana e fumo para simbolizar os frutos da terra.

Inicialmente, um descendente indígena foi colocado sobre a carreta, sendo posteriormente substituído por uma escultura de indígena, que simbolizava a “raça brasileira” e a vitória sobre a tirania.

São perceptíveis as referências históricas e políticas que o cortejo trazia desde a sua origem, mas o início da tradição do cortejo vai além disso.

Imagem do Caboclo durante cortejo em 2023
Imagem do Caboclo durante cortejo em 2023 – Foto: Olga Leiria | Ag. A Tarde

2 de Julho x disputa entre classes

O 2 de Julho também representou um embate entre as classes, com a elite visando um cortejo mais “civilizado”, enquanto a população lutava pela permanência das tradições.

Com a Proclamação da República, a elite intelectual baiana — representada pelo Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB) tentou usar a festa para “civilizar” a população.

2 de Julho: o samba como elemento “bárbaro”

De acordo com Wlamyra Albuquerque, as elites de Salvador tentaram eliminar elementos como sambas e batuques, que consideravam “bárbaros”, para impor um desfile militar e acadêmico de padrão europeu.

2 de Julho sem caboclo? Entenda a tentativa de mudança do símbolo da festa

Também houve tentativas de trocar os Caboclos da Lapinha por um monumento de bronze no Campo Grande ou por figuras como uma “Atenas baiana”, pois o Caboclo, sendo popular e negro, incomodava quem desejava o branqueamento da sociedade.

“Era a imagem da Bahia como extensão desta civilização européia que os agremiados do IGHB se empenhavam em promover ao propor a ‘Atenas aclimatada’ no monumento a ser erguido no Rio de Janeiro. Assim, os sulistas saberiam que a Bahia estava mais para a atlética e bela guerreira do que para a preta gorda quituteira”, diz a historiadora.

O então governador José Joaquim Seabra, que comandou o estado em dois mandatos (1912-1916 e 1920-1924), foi o grande impulsionador de reformas urbanas —- como a Avenida Sete de Setembro que buscavam “civilizar” a festa para a comemoração do centenário de 1923. Ele utilizou o 2 de Julho como vitrine para mostrar uma Bahia moderna e europeizada aos visitantes do Sul.

Ex-governador J.J. Seabra
Ex-governador J.J. Seabra – Foto: Arquivo A TARDE

O livro cita, inclusive, que jornais de oposição atacavam o governo de Seabra e, inclusive, usavam a organização do desfile para questionar o sucesso das reformas urbanas e o “provincianismo” da cidade, servindo como porta-vozes do descontentamento político.

Aliado às críticas, o Major Cosme de Farias, que foi deputado estadual e vereador durante o período, representava uma vertente mais popular da política.

Ele liderava comissões para garantir a saída dos carros dos Caboclos mesmo quando não havia apoio oficial e mantinha a tradição política de solicitar a soltura de presos durante a festa, um ato simbólico que ligava a liberdade da pátria à liberdade individual.

Cosme de Farias foi defensor do cortejo popular
Cosme de Farias foi defensor do cortejo popular – Foto: 29/06/1992 | Cedoc A TARDE

Assim, para fugir do controle das autoridades e da elite letrada, a população organizava suas próprias celebrações em locais periféricos:

  • Cidade de Palha: atualmente é o bairro de Cidade Nova;
  • Beco do Gilu: era um beco na Cidade Baixa;
  • Cruz do Cosme: atualmente é o bairro da Caixa D’Água.

Nestes “Dois de Julho temporãos”, que ocorriam em datas diferentes da oficial, o povo mantinha hábitos considerados “arcaicos” e “grotescos” pelos reformistas, como o uso de máscaras, desfiles com bonecos de madeira e muita informalidade.

O início da participação efetiva dos políticos

Agora, com a ciência de que a festa de 2 de Julho nasceu da política, quando foi que ela passou a contar com a presença dos próprios políticos?

Ao A TARDE, o professor de História da Bahia, Murilo Mello, esclareceu que a participação dos partidos no cortejo ocorreu desde os princípios do desfile e, além disso, contou que a incorporação político-partidária nas festividades não é um fenômeno exclusivo da Bahia.

A participação partidária política no 2 de Julho, acontece de uma maneira espontânea. Onde tem manifestação humana em grande quantidade, a política partidária se faz presente para ser vista

Ele completou: “Onde tem algo ligado à vitória de um povo, a construção de uma narrativa, de uma independência, as pessoas querem levar o louro dessa vitória. Ele não tinha nem nascido, mas é assim que se faz com todas as independências mundo afora em qualquer período da história. Então, naturalmente, vai acontecer isso com o 2 de Julho”.

Historiador Murilo Mello
Historiador Murilo Mello – Foto: Olga Leiria | Ag. A Tarde

Segundo o historiador, a Independência do Brasil na Bahia sempre funcionou como um termômetro político e, em razão da crescente popularização da festa, inclusive com reconhecimento nacional, tem sido mais buscada nas agendas eleitorais dos políticos.

No entanto, mesmo com a recente “nacionalização” do cortejo, Mello também reforçou que o debate político dentro do 2 de Julho vai além das questões partidárias.

“A partir do momento que tem grande quantidade de gente, o político fareja e quer estar dentro ali pra levar o louro da vitória, para ser visto. Alguns que estão mal não querem ser vistos, se escondem. O 2 de Julho sempre foi um termômetro político. Então, ao longo do tempo, quanto mais ela foi se tornando popular, mais a política foi tomando conta daquilo, participando, fincando seus pés ali”.

Tem a política partidária, tem a política das minorias no 2 de Julho, a gente tem professores aposentados, enfim, torcedores que já foram pedir saída de presidente do clube no 2 de Julho, enfim, a gente já teve de tudo

Murilo Mello – Professor de História da Bahia pós-graduado na UFBA

O ápice da nacionalização e o cenário em 2026

O auge da transformação do 2 de Julho em vitrine presidencialista ocorreu no pleito de 2022, quando quatro pré-candidatos à Presidência da República desembarcaram simultaneamente em Salvador.

Na oportunidade, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Simone Tebet (PSB), Ciro Gomes (PSDB) e Jair Bolsonaro (PL) concentraram as atenções da mídia nacional no circuito soteropolitano.

Bolsonaro, que disputava a reeleição, optou por uma estratégia distinta dos adversários: não realizou a tradicional caminhada a pé entre a Lapinha e o Centro Histórico, preferindo liderar uma motociata com apoiadores a partir do Farol da Barra.

Jair Bolsonaro e João Roma em motociata na Barra
Jair Bolsonaro e João Roma em motociata na Barra – Foto: Raphael Muller | Ag. A TARDE

No mesmo dia, os então postulantes ao Palácio de Ondina — ACM Neto, Jerônimo Rodrigues e João Roma — também mediram forças arrastando suas respectivas militâncias.

Lula e Jerônimo no cortejo de 2022
Lula e Jerônimo no cortejo de 2022 – Foto: Uendel Galter | Ag A TARDE

A consolidação do 2 de Julho no calendário fixo das grandes campanhas nacionais é um movimento recente, impulsionado pela nacionalização da data.

Lula será ausência no 2 de Julho de 2026

O presidente Lula éapontado como o primeiro chefe do Executivo federal a estabelecer uma presença sistemática, tendo comparecido por quatro anos consecutivos (de 2022 a 2025). Para o cortejo deste ano, contudo, o petista estará ausente devido a recomendações médicas de preservação da saúde.

Políticos esvaziam cortejo: apenas Zema estará no desfile

Diante do cenário de 2026, o desenho das forças políticas se encontra mais apagado. Entre os nomes de projeção nacional, a principal presença confirmada no circuito cívico é a do ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo).

Conforme sua assessoria de comunicação, Zema cumpre agenda partidária na capital baiana na véspera e integrará o cortejo popular na manhã do dia seguinte.

Salvador como capital simbólica da República

O peso histórico e político da data recebeu um reconhecimento legislativo definitivo este ano.

O Congresso Nacional aprovou o projeto de lei que transfere, de forma simbólica, a capital do país para Salvador a cada dia 2 de Julho. Aprovada na Câmara dos Deputados e referendada pelo Senado Federal, a medida confere à capital baiana o status de sede oficial dos atos da memória nacional.

De autoria do deputado federal Leo Prates (Republicanos), o Projeto de Lei nº 5672/25 determina que os três Poderes da República — Executivo, Legislativo e Judiciário — transfiram suas representações e realizem atividades oficiais em Salvador na data, chancelando definitivamente o protagonismo da Bahia na consolidação da independência nacional.

O 2 de Julho vai além da política

A singularidade da data reside justamente na incapacidade de reduzi-la a um único formato. Para Murilo Mello, o cortejo que toma o centro antigo de Salvador é uma síntese rara de diferentes manifestações culturais.

“Ela é uma festa diferente das demais, porque ela é profana, carnavalesca, cívica, e religiosa, porque tem o caboclo, tem a reza, tem o te deum. Esses elementos conviveram sempre no mesmo espaço, não é que ela foi só política, que ela foi só festeira, ela teve as duas intenções, os dois personagens. Sempre tiveram políticos, sempre tiveram um povo que não estava afim de política, que estava afim de esquecer os seus problemas”, reforçou.

Tem relatos em jornais que eu peguei. Pessoas praticando o jogo de azar sendo presa que era proibido o jogo de azar. Namorando em alguns cantos e becos do cortejo, pessoas trepando em cima do caboclo, subindo no caboclo e sempre teve esse conflito com o IGHB, que queria tornar a festa mais civilizada

Murilo Mello – Professor de História da Bahia pós-graduado na UFBA



Fonte: A Tarde

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