As 1.214 colônias de corais saudáveis em 2007 da região do Litoral Norte viraram 99 em 2024 e 62 em 2025, conforme levantamento do professor de ecologia marinha da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Francisco Kelmo. Os números alarmantes apontam para o risco de um futuro com o desaparecimento dessas espécies e de outras que dependem dessas estruturas.
Duas ecorregiões de recifes de corais da Bahia foram classificadas como criticamente em perigo pela Lista Vermelha de Ecossistemas, lançada na 17ª Conferência das Partes das Nações Unidas (COP17) da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), na Armênia.
As áreas da Baía de Todos os Santos/Baixo Sul e de Abrolhos são os pontos que foram avaliados e receberam a classificação no estado. A projeção para os próximos anos é a continuidade na perda de corais vivos, enfraquecimento dos recifes e, consequentemente, o desaparecimento de espécies. As ecorregiões citadas foram as que haviam dados suficientes para receber a classificação de situação crítica, contudo outros ambientes de recifes de corais do estado também apresentam condição preocupante, como o Litoral Norte.
“Nosso Litoral Norte está em situação crítica também e quando perdemos um recife de coral colocamos em risco uma série de outras espécies que dependem do recife para sua sobrevivência”, comenta Francisco Kelmo. A definição “criticamente em perigo” utilizada pela Lista Vermelha retrata a presença de corais vivos e que atuam como ecossistemas recifais, mas que necessitam de proteção com urgência pois apresentam risco de colapso. Para determinar a classificação dessas ecorregiões foram analisadas as mudanças ocorridas nos últimos 50 anos e as projeções para os próximos 50.
Além das duas ecorregiões de recifes de corais classificadas como criticamente em perigo da Bahia, a Lista Vermelha de Ecossistemas conta com mais três áreas situadas no país: Parrachos, Atol das Rocas e Fernando de Noronha, e Costa dos Corais. Outras três regiões do Brasil foram analisadas, mas não havia dados suficientes para serem classificadas – o que não significa falta de risco. Essa foi a primeira avaliação global desses ecossistemas promovida pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).
Os recifes de corais são responsáveis por uma série de benefícios para natureza e para sociedade, que podem ser impactados com sua degradação, aponta o professor da Ufba e coordenador do Programa Ecológico de Longa Duração dos Ecossistemas Marinhos da Baía de Todos os Santos (PELD-BTS), Igor Cruz. Ele indica que a produção de pescado pode ser reduzida com a morte dos recifes e o turismo seria impactado com a perda de um atrativo, já que turistas não viajariam para mergulhar em um recife morto.
“Mas há muitos outros prejuízos, por exemplo, podemos deixar de descobrir curas para doenças com base em compostos de organismos que vivem no recife e a longo prazo podemos perder a proteção contra a erosão costeira que eles conferem à linha da praia”, argumenta Igor.
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Fatores de ameaças

Com base no histórico dos últimos 50 anos, a Baía de Todos os Santos, Baixo Sul e Abrolhos ficariam classificados como “em perigo”, todavia a expectativa para os próximos anos garantiu a posição de “criticamente em perigo”. O cenário é diferente das outras ecorregiões do Brasil que apenas com base em seu passado já receberam a indicação de situação crítica. A professora aposentada da Ufba e membro da Academia de Ciências da Bahia (ACB), Zelinda Nery, indica os fatores que ameaçam os corais.
A poluição costeira que provoca redução da qualidade da água, as espécies invasoras que provocam a competição nessas áreas e a predação nas comunidades naturais são alguns dos fatores indicados pela estudiosa. Ela cita ainda a sobrepesca e pesca predatória por causarem o desequilíbrio ecológico das comunidades recifais e o desenvolvimento costeiro desordenado e o turismo inadequado por provocarem pressão física sobre o ecossistema recifal.
Ainda assim, o principal fator de risco para os recifes brasileiros são as ondas marinhas de calor, que são responsáveis por eventos de estresse térmico e resultam no branqueamento e mortalidade de espécies de corais. O pesquisador Francisco Kelmo destaca que as espécies de corais registradas no Brasil são resistentes às condições que o nosso oceano oferece, contudo o volume de incidentes prejudiciais à sua existência tem impactado de forma severa essas espécies.
“Aconteciam eventos estressantes e nossos corais não respondiam tão fortemente ou sofriam um pouco de estresse e se recuperavam, mas o intervalo entre um estresse e outro se tornou mais curto e isso reduziu o tempo de recuperação dos corais”, comenta. O aumento da temperatura das águas e as ondas de calor marítimas, além dos episódios causados pela interferência humana, como o derramamento de óleo que atingiu a costa baiana entre 2019 e 2020, são as causas do estresse dos corais e têm dificultado sua recuperação.
O pesquisador explica que o impacto desses eventos é perceptível nos registros de mortalidade, adoecimento e complicações reprodutivas nos corais. E a tendência é piorar. “Não digo que vá acontecer em um ou dois anos, mas existe um risco de dentro de alguns anos termos perda de espécies, inclusive algumas que só existem no Brasil”, afirma. Diante deste cenário, ele reforça a necessidade de maior investimento em pesquisas para acompanhar o que está acontecendo com os recifes e políticas públicas destinadas à conservação desses ambientes.