Da luta de Juliano Moreira aos CAPS, psiquiatria aprende a escutar território

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A mente humana, quando entra em colapso, raramente avisa com antecedência. Ela vai acumulando silêncios, dores miúdas e fraturas invisíveis até que o chão simplesmente desaparece. Para o baiano Denilson Santos, o abismo chegou na forma de um quadro de depressão profunda.

Quando a dor se tornou insuportável, vieram as tentativas de suicídio, quatro delas, em uma sequência dolorosa que deixou sua família sem chão e sem respostas. No limite absoluto da exaustão emocional, o único caminho que restou foi bater à porta do
Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).

“Foi o que eu tive para recorrer e o que me ajudou. A primeira vez que eu fui no CAPS, já estava nesse quadro de tentativa de suicídio. Já estava numa situação extrema. Minha família já não sabia o que fazer, a gente recorreu a esse meio”, conta o jovem, ao
portal A TARDE.

Denilson passou pelo atendimento em Salvador e, posteriormente, pela unidade na Ilha de Itaparica. Ele recorda a rotina de consultas semanais com psicólogos, a escuta psicanalítica e a avaliação mensal com psiquiatras para o ajuste de medicações.

“O mecanismo na minha mente funcionava de uma forma diferente da qual funciona hoje. Conseguiu mudar algumas coisas, fez parte do meu processo e do meu progresso. Eu ia toda semana ao psicólogo. E uma vez por mês um psiquiatra fazer psicanálise. Fui muito bem tratado, muito bem recebido, muito bem acolhido”, relata o jovem.

A trajetória de Denilson revela uma verdade desconfortável para a medicina tradicional: o comprimido que atenua o sintoma quimicamente não tem a capacidade de apagar o mundo que existe do lado de fora do consultório. A medicação pode reorganizar os neurotransmissores, mas não resolve o
isolamento, a pobreza ou a falta de perspectivas.

Para compreender por que o sofrimento psíquico recusa respostas simplistas, é preciso voltar no tempo. Mais precisamente para o final do século XIX, quando outro baiano olhou para as celas escuras dos manicômios e decidiu que a loucura não poderia continuar sendo tratada como um desvio moral ou uma sina biológica.

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O garoto de Salvador que desafiou a ciência do preconceito

Salvador, 6 de janeiro de 1872. O Brasil ainda era um país escravocrata, no qual a liberdade de corpos negros era exceção e as teorias de eugenia começavam a ganhar roupagem de ciência nas academias europeias e brasileiras. Foi nesse cenário que nasceu Juliano Moreira.

Filho de Galdina Joaquina do Amaral, uma ex-escravizada que trabalhava na residência do
Barão de Itapuã, e do funcionário público português Manoel do Carmo Moreira Junior, o menino cresceu cercado pelas contradições de um Império que insistia em rebaixar a população negra.

Juliano Moreira
Juliano Moreira – Foto: Reprodução

Abalado pelo abandono paterno, Juliano encontrou no apadrinhamento do Barão de Itapuã, que era médico e professor, a brecha institucional para acessar o ambiente acadêmico. Prodígio, ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia aos 14 anos de idade, formando-se médico antes de completar duas décadas de vida.

“Ele nasce nesse contexto no Brasil de escravidão, de racismo, de preconceito, de darwinismo social, de teorias científicas, que iam comprovar cientificamente a diferença entre as antigas raças, como assim se falava no período”, conta o professor de história da Bahia, Murilo Mello.

A trajetória brilhante levou o jovem médico a cruzar o Atlântico para estudar na Europa, onde absorveu as discussões mais avançadas do campo psiquiátrico e travou contato inicial com os conceitos da
psicanálise freudiana.

O ponto central da trajetória de Juliano Moreira, contudo, esteve na coragem de combater a tese dominante da época: a de que o
mestiçamento populacional era a causa primária do atraso mental e da degeneração social do povo brasileiro.

Nomes de peso da medicina e da criminologia, como o italiano Cesare Lombroso, defendiam que traços anatômicos e pertencimento racial determinavam a tendência ao crime e à loucura. Juliano usou o próprio rigor científico para desmontar essa premissa.

“Ele provou que não é uma condição racial. O que está associado à questão psíquica vai ser uma questão social, econômica e familiar, e não um determinismo racial, contribuindo para diluir o racismo da época”, explica Mello.

A revolução dentro dos hospícios: do ferro às oficinas

Ao assumir a direção do Hospital Nacional de Alienados, no Rio de Janeiro, em 1903, Juliano Moreira encontrou um cenário que se assemelhava mais a um depósito humano do que a uma instituição de saúde. Pacientes eram encarcerados em celas frias, amarrados em camisas de força e mantidos sob violência cotidiana.

Com a autoridade de quem ocuparia a presidência da Academia Brasileira de Ciências e fundaria a Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal, ele iniciou uma reforma radical. Retirou as grades das janelas, aboliu o uso de travas físicas, separou adultos de crianças e criou
colônias agrícolas e oficinas de trabalho para que os internos tivessem utilidade social e dignidade.

Internos do Juliano Moreira colhem rabanetes na horta do hospital | 21 / 11/ 1995
Internos do Juliano Moreira colhem rabanetes na horta do hospital | 21 / 11/ 1995 – Foto: CEDOC / Ag A Tarde

“No tempo de Juliano, a psiquiatria padecia dessa doença moral que era o racismo. Juliano foi quem deu uma nova forma ao Hospital Nacional de Alienados do Rio de Janeiro. Nomeado pelo presidente Rodrigues Alves por indicação de Afrânio Peixoto, ele era apenas professor assistente na Bahia, o que para a época foi uma façanha e uma proeza”, destaca o Dr. William Dunningham, médico psiquiatra e um dos fundadores da Residência Médica do Hospital Juliano Moreira (HJM).

A mudança implementada por Juliano não foi apenas formal; ela alterou a lógica clínica do acolhimento. A atenção voltou-se para a individualidade de cada sujeito.

“O nome ‘clinoterapia’ foi criado para o paciente que tinha direito a ter um leito no quarto, pois até então as pessoas se aglomeravam no chão. Além de grande psiquiatra, foi um grande administrador e trouxe oficinas de marcenaria e atividades terapêuticas supervisionadas”, detalha o Dr. Dunningham.

Do “campo de concentração” em Brotas à sede moderna em Narandiba

Se no Rio de Janeiro o legado de Juliano frutificou, na Bahia a história do hospital que acabou levando seu nome atravessou momentos sombrios. Fundado em 24 de junho de 1874 na chácara Boa Vista, no bairro de Brotas, terreno que pertenceu ao pai do poeta Castro Alves, o espaço nasceu sob o nome de “Asylo São Jorge de Deus“.

Em maio de 1922, após sucessivas denúncias de violências internas, a instituição se tornou pública e virou
Hospício São João de Deus. Apenas em agosto de 1936, três anos após a morte do psiquiatra em Petrópolis devido a complicações da tuberculose, o Governo da Bahia rebatizou o local como Hospital Juliano Moreira.

No início, o hospital seguia a lógica manicomial. Décadas depois, a instituição chegou aos anos 1970 e 1980 em meio à deterioração de hospitais públicos e à mobilização de trabalhadores e setores da sociedade civil que defendiam a humanização da assistência psiquiátrica.

Internos no Hospital Juliano Moreira em 1989
Internos no Hospital Juliano Moreira em 1989 – Foto: Geraldo Ataíde / CEDOC / Ag A Tarde

Em determinado momento, a situação do antigo Hospital Juliano Moreira em Brotas chegou a ser denunciada por psiquiatras como semelhante a um “campo de concentração”. O médico Dunningham estava entre os profissionais que participaram daquela mobilização.

“Nós fizemos essa denúncia, inclusive
A TARDE na época noticiou. Foi algo como ‘psiquiatras consideram o Juliano Moreira como um campo de concentração’. Todos os órgãos de imprensa foram convidados na época, nós denunciamos e o governo da época se comprometeu a construir um novo hospital e construir até em tempo recorde”, pontua o Dr. William.

O novo Hospital Juliano Moreira foi inaugurado em 1982 e, na ocasião, se tornou a unidade
mais moderna do segmento no continente. A mudança física, entretanto, fazia parte de uma transformação maior: a própria ideia de que uma pessoa em sofrimento psíquico precisava ser retirada permanentemente da sociedade começava a ser questionada.

A lógica de isolamento prolongado deu lugar à contenção de crises agudas. Se no início da nova sede a estrutura contava com 240 leitos, atualmente o hospital trabalha com
88 leitos ativos. O tempo de permanência passou a ser reduzido, variando em média entre 15 e 20 dias, focado em estabilizar o paciente para que ele possa retornar ao ambiente familiar.

“É a residência médica que oxigena o espaço: começamos com 4 residentes em 1983 e hoje temos 27 no total. O hospital é concebido exclusivamente para situações agudas em que a pessoa não pode ficar em casa”, explica o psiquiatra.

Unidade atual do Hospital Juliano Moreira
Unidade atual do Hospital Juliano Moreira – Foto: Luciano da Matta | Ag. A TARDE

Do diagnóstico ao território: o que a rua ensina sobre a dor

Se o hospital de retaguarda atua quando o quadro clínico exige estabilização imediata, a porta de entrada diária da saúde mental na rede pública localiza-se nos CAPS. No Pelourinho, coração do Centro Histórico de Salvador, o CAPSad II Gregório de Matos lida rotineiramente com os efeitos da marginalização social sobre o uso de substâncias psicoativas.

O psicólogo Paulo Gonzaga, que atuou na unidade, desenha um mapa claro de quem são as pessoas que chegam ao serviço em busca de ajuda.

“A maioria das pessoas que a gente atendia eram homens pretos com baixa escolaridade nessa condição. Eles nos procuravam quando a situação já estava muito agravada e tinha causado algum impacto negativo, como descontrole financeiro, conflitos nas ruas com companheiros ou intoxicações graves que exigiam intervenção”, relata o profissional.

CAPSad II Gregório De Mattos
CAPSad II Gregório De Mattos – Foto: Reprodução | FESFSUS

Nesse cenário, o transtorno mental ou o abuso de drogas não surgem de forma isolada no organismo do indivíduo; aparecem atrelados a perdas afetivas, desamparo de renda e ausência de direitos constitucionais básicos.

“Por trás do uso de substâncias surgem sofrimentos ligados a conflitos familiares, isolamento, episódios depressivos, sofrimento ligado ao desamparo enquanto direito mesmo: a falta de renda, a dificuldade de acesso ao trabalho ou a perda do emprego, que afeta principalmente os homens”, detalha Gonzaga.

A distinção econômica dita, inclusive, o tipo de substância consumida e o destino assistencial de cada classe social. Enquanto as drogas ilícitas de menor custo concentram-se na população vulnerabilizada, as classes de maior poder aquisitivo mantêm o consumo reservado ao espaço privado.

“A maioria das pessoas que eu atendia vinha da pobreza e do difícil acesso a trabalhos formais. O crack, o álcool e a maconha eram muito voltados às pessoas com menor condição financeira, enquanto a cocaína e drogas sintéticas ficavam com quem tinha maior poder aquisitivo”, explica Paulo.

Quando um usuário chega ao CAPS em situação de surto ou intoxicação aguda, o manejo clínico exige uma intervenção em rede que ultrapassa a simples administração de sedativos.

“A crise é manejada pelos profissionais do equipamento e, depois disso, fazemos os encaminhamentos necessários. Podemos articular com a família para que venha buscá-lo ou garantir o acesso ao medicamento necessário. Se a pessoa ainda não é acompanhada, passa pelo acolhimento para a construção do PTS, o Plano Terapêutico Singular, definindo a necessidade de psiquiatra, psicólogo, assistente social ou grupos de apoio”, detalha o profissional.

Tratamento adequado para doentes mentais | 18/07/2002
Tratamento adequado para doentes mentais | 18/07/2002 – Foto: Manu Dias / CEDOC / Ag A Tarde

Para o psicólogo, o grande divisor de águas na recuperação do paciente não está concentrado apenas na farmácia, mas na reconstrução dos laços sociais por meio do convívio comunitário e das oficinas terapêuticas.

“A medicação trata o processo sintomático do transtorno, a dor, a insônia ou a ansiedade. Mas são as atividades coletivas, as práticas corporais e os atendimentos com a psicologia, serviço social e educação física que constroem reflexões para o sujeito compreender o lugar da substância na sua vida. Nesses espaços ele pode repensar seu lugar como sujeito de direitos e elaborar violências sociais atravessadas”, ressalta Paulo.

O corpo que carrega o estresse: racismo e neurofisiologia

A análise sobre os determinantes sociais ganha contornos específicos quando aplicada ao racismo estrutural. A psicóloga Laíse Brito pontua que o sofrimento emocional gerado pelas desigualdades decorre do estado permanente de insegurança vivenciado por populações vulnerabilizadas.

“As desigualdades sociais intensificam o sofrimento emocional, pois faltas essenciais geram sensação de insuficiência, desamparo e abandono, colaborando para transtornos como ansiedade e depressão. Uma pessoa que vive em estado de alerta em períodos de chuva e já teve a casa afetada terá seus níveis de ansiedade elevados. Isso se soma à violência racial, policial e de gênero que atinge moradores de favelas e comunidades vulneráveis”, explica Laíse.

Do ponto de vista biológico, a exposição contínua a episódios de discriminação mantém o sistema nervoso em constante estado de prontidão para o perigo. Essa hiperativação fisiológica prolongada sobrecarrega o organismo humano.

“O racismo tem um impacto severo na neurofisiologia de pessoas negras e indígenas, pois o sistema de alerta do corpo fica sempre acionado, cronificando a experiência de estresse. Isso é fator de risco para adoecimentos psíquicos, doenças cardiovasculares e até suicídio”, destaca a psicóloga.

Hospital Juliano Moreira | 16/03/82
Hospital Juliano Moreira | 16/03/82 – Foto: CEDOC / Ag A Tarde

A urgência de uma escuta clínica racializada reside na prevenção de diagnósticos precipitados que reduzem questões sociais complexas a simples patologias individuais.

“Não é possível fazer um trabalho ético em saúde mental isolando o contexto social em que o paciente vive. É comum que pessoas negras levem suas dores ao ambiente profissional e sejam executadas apenas pelo sintoma, configurando uma hipótese diagnóstica precipitada que ignora toda a complexidade da situação”, aponta Laíse.

Essa perspectiva impõe mudanças na própria formação universitária dos profissionais de saúde, que ainda hoje enfrentam o apagamento de saberes produzidos por intelectuais negros e indígenas.

“As formações em saúde mental precisam incluir a real história do Brasil e suas implicações na saúde. O cuidado precisa ter pés fincados no território e conhecer as vivências reais das pessoas. Infelizmente, o epistemicídio, que é o apagamento das produções acadêmicas de negros e indígenas, ainda é uma realidade nos espaços formativos”, completa a psicóloga.

O imperativo de enxergar a vida inteira

Existe uma diferença entre afirmar que pobreza causa automaticamente transtorno mental e reconhecer que condições precárias podem aumentar o sofrimento. A experiência da exclusão ganha traços nítidos no cotidiano das ruas de Salvador, onde o preconceito racial se sobrepõe à vulnerabilidade econômica de forma contínua.

“Racismo, violência e exclusão social aparecem com muita frequência nos relatos de pessoas em situação de rua. Isso traz um olhar discriminatório e estigmatizado, onde elas são vistas como pessoas ruins ou que não merecem respeito. Todo esse olhar discriminatório produz violência e coloca esses sujeitos em um lugar de invisibilidade, menorizando seus comportamentos e suas potencialidades”, aponta Paulo Gonzaga.

Diante disso, a atuação clínica contra-hegemônica busca desconstruir a culpa individual que frequentemente recai sobre o indivíduo adoecido, resgatando a história social da população negra no Brasil.

“Uma das formas de trabalhar isso é trazer o assunto para as oficinas e atendimentos individuais sob uma perspectiva contra-hegemônica da história do negro no Brasil. Contextualizamos por que a população negra está em maior número nas periferias e nas ruas, sem culpabilizar o indivíduo, mas mostrando que existe uma estrutura racista que produz essa violência, ao mesmo tempo em que resgatamos a sua força e resistência”, explica o psicólogo.

Atividade com internos no Hospital Juliano Moreia | 17/02/98
Atividade com internos no Hospital Juliano Moreia | 17/02/98 – Foto: Antonio Queiros / CEDOC / Ag A Tarde

A constatação dos profissionais que atuam no dia a dia da saúde mental pública converge para a síntese apresentada pelo Dr. William Dunningham.

“A conjuntura social tem diferenças étnicas, mas é eminentemente social. O maior gargalo é a questão social, que é abissal. O que predomina no discurso dos pacientes são as desigualdades sociais e a pobreza. Enquanto os indivíduos com recursos procuram clínicas privadas, a população sem recursos depende do serviço público e enfrenta a escassez do dia a dia”, destaca o Dr. Dunningham.

A virada histórica iniciada por Juliano Moreira no final do século XIX, ao provar que a loucura não dependia da raça, encontra desdobramento na psiquiatria contemporânea: o desafio ético de enxergar o paciente em sua totalidade, sem reduzi-lo a um número de prontuário ou a uma CID de diagnóstico.

“É preciso que o profissional enxergue toda a produção de cuidado, todo o esforço, todo o desejo de mudança e todas as estratégias de sobrevivência que o paciente produziu e continua produzindo. O profissional precisa enxergar e ratificar essas possibilidades e construções de estratégias do indivíduo”, ressalta Paulo Gonzaga.

Mais de cem anos depois de o jovem médico baiano mandar retirar as grades do Hospital Nacional de Alienados no Rio de Janeiro, o cuidado em saúde mental continua exigindo a derrubada de outros muros invisíveis. Trata-se da urgência de olhar para além da patologia e reconhecer a casa onde o paciente mora, o trabalho que ele perdeu, o prato que faltou na mesa, o preconceito que enfrentou na rua e todas as estratégias que ele precisou inventar para continuar existindo.



Fonte: A Tarde

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