Desenhe uma capivara surfando

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Entre o sufoco do buzu e o escape da IA: “Desenhe uma capivara surfando” –

No ônibus lotado, o sujeito ao meu lado assiste um telejornal no celular. O telejornal mostra aparatos e viaturas policiais, mas nunca fala das pessoas amontoadas em ônibus lotados, presas num engarrafamento.

Todo dia esse sufoco. Na Cidade Baixa e em Cajazeiras é até pior, porque o coletivo dá voltas em todas as ruas, leva no mínimo uma hora para chegar a alguma estação do metrô. No caminho, as pessoas vão ouvindo orações com voz de Inteligência Artificial. Certamente as orações também foram escritas pela IA, um monte de orações que acalmam os sentimentos do ouvinte.

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Ao chegar ao metrô vemos um grande painel eletrônico anunciando um aplicativo que parece divertido. Você diz para o aplicativo: “Desenhe uma capivara surfando” e logo aparece uma imagem com um bichinho em cima de uma prancha no mar. Talvez isso possa melhorar o cotidiano das pessoas. Algo tão singelo, e ao mesmo tempo tão tecnológico. Quando chegar em casa, à noite, vou instalar essa maravilha e ser mais feliz.

No trem do metrô, jovens cheios de tatuagens e velhos cheios de cicatrizes. Admiro as tatuagens, respeito as cicatrizes. Os velhos também têm rugas, que são outro tipo de traços, feitos até em quem se cuida muito.

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De repente a porta do trem se abre em alguma estação e entra uma multidão. Os que vêm atrás reclamam porque quem entrou primeiro não avançou para o fundo do carro, ficou bloqueando a passagem. “Vocês estão fazendo uma parede”, diz um rapaz mais exaltado. Alguém responde irritado e os passageiros esperam uma briga, mas uma mulher que também protestou contra a dificuldade de acesso encerra o assunto: “Vocês têm que ter sensibilidade!”. Uma palavra grande dessas, com seis sílabas, confere autoridade a quem a pronuncia. A viagem prossegue com os celulares vazando novas orações de IA.

Fico imaginando uma capivara surfando. Depois penso se haverá no universo algum planeta dominado por capivaras e como seriam os ônibus urbanos por lá. Se haveria muitos capivaras motoristas que param distante do ponto, no meio da rua. Se o prefeito capivara deixaria circular ônibus com escadas altíssimas que os idosos capivaras sobem com imensa dificuldade. Será que naquele planeta os pontos de ônibus seriam um lixo, e o transporte público seria sucateado para dar lugar à condução clandestina? Com que propósito? E, por lá, o ar-condicionado dos ônibus molharia os assentos?

Depois abandono essas dúvidas porque, afinal, a minha capivara apenas surfa, não dá expediente de segunda a sábado e é feliz num mar azulíssimo, o tempo todo. É mesmo incrível como esse mundo perfeito não se materializa para nós, com a tecnologia que vamos desenvolvendo. Pelo contrário, quanto mais o ser humano parece brilhar nas redes, mais se destroça no cotidiano real. Ou o contrário. Talvez a regra seja sofrer mais para sonhar melhor. A velha disputa entre cicatrizes e tatuagens.

Recordo ainda de quando cheguei na cidade grande, há uns 40 anos, e só havia umas latas velhas fazendo o transporte urbano. Naquele tempo era normal um passageiro fumar um cigarro fumacento a bordo. As pessoas que saíam das feiras livres carregavam galinhas vivas e cestos de peixes entre os bancos. No entanto, toda essa fauna rural foi proibida e a única tradição que se manteve foram os ônibus precários e lentos.

Nos novos tempos pelo menos nos dão a possibilidade de desenhar capivaras. Mas, ora, isso também é coisa antiga, que os homens da pré-história faziam nas paredes das cavernas.

Então chego à conclusão de que lá longe, no planeta das capivaras, elas também devem nos rabiscar, mas são mais felizes e mais racionais.

*Franklin Carvalho é autor de Tesserato – A tempestade a caminho (Ed. Noir)



Fonte: A Tarde

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