A participação do senador Flávio Bolsonaro (PL), apontado como pré-candidato do partido à Presidência da República, na tradicional Romaria do Divino Pai Eterno, em Trindade (GO), nesta sexta-feira (26), acabou sendo ofuscada pela crise familiar envolvendo a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Antes mesmo de seguir para a caminhada religiosa, o parlamentar conversou rapidamente com jornalistas e garantiu que, da parte dele, o desentendimento com a madrasta ficou no passado.
Flávio contou que visitou o pai durante a tarde e disse que Jair Bolsonaro segue em recuperação. Segundo ele, apesar dos cuidados médicos ainda serem necessários, o ex-presidente apresentava melhora em relação aos últimos dias. “Conversei com ele hoje, está tudo bem. A saúde ainda exige atenção, mas pelo menos ele já estava sem os soluços. Da minha parte é bola pra frente, página virada. Vim até de branco, simbolizando paz”, declarou.
Apesar do discurso conciliador do senador, a temperatura entre os integrantes da família Bolsonaro continua alta. Isso porque poucas horas antes, Michelle Bolsonaro voltou a publicar uma mensagem nas redes sociais interpretada por aliados como uma indireta ao enteado e ao grupo político que o acompanha.
Na publicação, Michelle compartilhou um trecho da Bíblia dizendo que “a falsa testemunha não ficará impune, e o que profere mentiras perecerá”. A mensagem rapidamente ganhou repercussão entre apoiadores e adversários, alimentando ainda mais os rumores de que a disputa interna no PL está longe de acabar.
A resposta veio quase imediatamente, mas não pelas palavras de Flávio. Quem entrou na discussão foi Fernanda Bolsonaro, esposa do senador. A dentista também utilizou um versículo bíblico para rebater a ex-primeira-dama. Na passagem escolhida, aparecem expressões como “língua mentirosa”, “testemunha falsa” e “o que semeia contenda entre irmãos”, interpretação que muitos enxergaram como uma resposta direta à publicação feita por Michelle.
Nos bastidores, pessoas próximas ao senador afirmam que a decisão de deixar Fernanda responder não foi por acaso. A avaliação seria de que Flávio tenta evitar novos desgastes públicos, principalmente junto ao eleitorado feminino, onde pesquisas recentes apontam crescimento da rejeição ao seu nome.
Mesmo assim, Michelle demonstra que não pretende recuar. Depois da divulgação do vídeo em que acusa Flávio de machismo, autoritarismo e falta de respeito, ela segue usando as redes sociais para reforçar sua versão da história. Em outra publicação feita durante a madrugada, voltou a compartilhar um versículo bíblico com tom considerado por aliados do senador como um novo aviso.
Dias antes, Michelle havia publicado uma mensagem dizendo que não guardava raiva de ninguém e que apenas esclareceu fatos que, segundo ela, estavam sendo distorcidos. O encerramento do texto com a frase “fiquem em paz” chegou a ser interpretado como um gesto de trégua. Mas as novas postagens mostraram que dificilmente haverá uma reconciliação em curto prazo.
Segundo informações divulgadas nos bastidores da política, Michelle teria recebido apoio do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, que elogiou sua postura ao expor publicamente o conflito. Também circula entre aliados a informação de que Jair Bolsonaro foi avisado previamente sobre o vídeo divulgado pela esposa. Embora não tenha incentivado diretamente a iniciativa, pessoas próximas afirmam que ele compreendeu a decisão de Michelle e não tentou impedir a divulgação.
Toda essa disputa acabou produzindo reflexos na estratégia eleitoral do partido. Integrantes da pré-campanha defendem que a chapa presidencial passe a contar com uma mulher na vice-presidência para tentar reduzir o desgaste junto ao eleitorado feminino e também entre os evangélicos, segmentos considerados fundamentais para qualquer candidatura competitiva.
O estopim da crise aconteceu após Michelle divulgar um vídeo relatando que teria sido humilhada por Flávio durante uma ligação telefônica. Segundo ela, o senador afirmou que ela havia “chegado ontem” na política e que não deveria interferir nas decisões partidárias. Michelle classificou o episódio como uma verdadeira “punhalada” e disse ter se sentido profundamente desrespeitada.
Além da discussão, ela acusou Flávio e integrantes da coordenação política de barrar indicações femininas ao Senado, entre elas Carol De Toni, Bia Kicis e Priscila Costa. Para Michelle, a resistência às candidaturas revela um comportamento machista dentro da cúpula do partido.
Enquanto isso, pesquisas de intenção de voto mostram um cenário mais complicado para Flávio Bolsonaro. Levantamentos recentes apontam aumento na rejeição, especialmente entre mulheres e evangélicos, justamente os grupos onde Michelle possui maior influência política. Analistas avaliam que a combinação entre a crise familiar e as polêmicas envolvendo o senador criou um desafio difícil de ser superado durante a pré-campanha, tornando o ambiente dentro do PL cada vez mais delicado.