Exposição gratuita usa imagens para discutir violência contra a mulher

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“Dada a natureza das imagens não se exibem fotos” é uma frase que, à primeira vista, parece impedir aquilo que uma exposição deveria fazer. Na mostra de mesmo nome, em cartaz no Goethe-Institut Salvador-Bahia até 24 de outubro, Patrícia Paixão parte justamente dessa contradição para reunir imagens da imprensa, do cinema e da pornografia e investigar como o feminino é construído.

A mostra reúne 13 trabalhos construídos a partir da apropriação, manipulação e deslocamento do olhar sobre essas imagens e coincide com os 20 anos da Lei Federal nº 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha.

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De certa forma, Patrícia expõe aquilo que não deveria ser exposto. Ao retirar imagens de seus contextos originais e reorganizá-las, a artista coloca diante do público registros de violência, referências pornográficas e representações de corpos femininos que já fazem parte do cotidiano visual. O objetivo da artista não é reproduzir essas narrativas, mas observar como elas são construídas e consumidas.

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O título da exposição também parte de uma contradição entre o que pode ser visto e o que deveria permanecer oculto. A frase foi encontrada por Patrícia em uma placa de divulgação de um filme pornográfico em um sebo.

“Achei muito curioso o jogo de palavras entre imagem/foto; o vídeo era explícito, mas as fotos da placa não. O pornográfico tem esse jogo de tentar se aproximar tanto do real que vira uma fantasia da qual todos que consomem sublimam a ficção sabida para viver a fantasia, acho que esses jogos têm muito a ver com a exposição”, afirma Patrícia.

A pesquisa da artista parte de uma coleta lenta de imagens. Antes de buscá-las, ela acumula referências e identifica repetições em materiais que encontra no cotidiano e na internet. Entre os trabalhos está uma investigação sobre Ofélia, personagem de Hamlet, de William Shakespeare.

Na tragédia, a jovem enlouquece após uma sequência de perdas e conflitos e morre afogada. Sua imagem, frequentemente representada como um corpo feminino submerso e passivo, tornou-se um símbolo recorrente na arte ocidental.

Conforme explica a professora da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia e responsável pelo texto crítico da exposição, Alejandra Muñoz, a representação de Ofélia também foi analisada por Márcia Tiburi, uma das referências mobilizadas por Patrícia, segundo o texto.

Para Márcia, a personagem ajuda a estabelecer uma relação entre a romantização da morte feminina, a loucura e a objetificação do corpo da mulher. Na exposição, essa referência aparece relacionada à busca por imagens de feminicídios em que os corpos das vítimas foram encontrados em rios.

Outra referência importante apontada no texto crítico é a pesquisadora Elisabeth Bronfen, que investiga como a cultura ocidental construiu sentidos sobre a vida, a morte e a subjetividade a partir do corpo feminino.

Não são só imagens

A relação de Patrícia com imagens de violência também passa por sua experiência profissional. Antes de se dedicar à pesquisa artística, ela trabalhou durante um ano como fotojornalista em uma redação, cobrindo diferentes pautas, com exceção das policiais. Na época, chamou sua atenção a forma como um colega produzia e distribuía imagens de ocorrências policiais.

“Havia uma certa obsessão pela produção dessas imagens, e isso sempre me chamou muita atenção. O que se pode ver além em uma foto de um crime? Que relações mentais eu estabeleço? Acho que fiquei com essas perguntas até hoje”, conta.

Na exposição, algumas imagens relacionadas a feminicídios são retiradas da lógica jornalística e reorganizadas em novos conjuntos. Patrícia não busca reconstruir a história de cada caso. Seu interesse está na forma como essas imagens existem, circulam e são vistas. O trabalho também envolve uma preocupação com a identidade das vítimas.

“Minha tentativa ao trabalhar com essas imagens é preservar a identidade das vítimas, que por muitas vezes não possuem nem nome nas reportagens e tentar levar para um lugar de uma certa dignidade, talvez”, afirma.

A relação entre violência, pornografia e romantismo também é investigada por Patrícia. O foco da artista está nos discursos e representações que podem aproximar esses campos: “muitos agressores justificam seus atos através do amor. A obsessão e o ciúme são estados trazidos pelo amor romântico, e o erótico, especialmente o pornográfico, se expressa imageticamente através da violência”, afirma.

O procedimento se aproxima daquilo que Alejandra Muñoz identifica como um arquivo imagético. Segundo ela, cada trabalho estabelece relações entre “violência, pornografia, romantismo”, formando um conjunto que não pretende organizar uma história linear, mas criar conexões por meio das próprias imagens.

Para Alejandra, a quantidade de imagens a que as pessoas são submetidas diariamente também modifica a maneira de olhar para elas.

“Segundo um ditado popular ‘o que os olhos não veem, o coração não sente’, sugerindo que a ignorância, em certos casos, preserva a paz emocional e evita preocupações. Porém, que acontece quando vemos demais?”, questiona.

Em sua leitura, a exposição aborda justamente esse excesso, que pode produzir uma espécie de anestesiamento diante de imagens que continuam carregando violência e sofrimento.

A mostra também marca um momento simbólico por coincidir com os 20 anos da Lei Maria da Penha, criada em 2006 como instrumento de enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher. Nesse contexto, as obras colocam em discussão a distância entre os mecanismos de proteção construídos socialmente e a permanência de imagens que naturalizam ou banalizam a violência.

Diretor-geral do Goethe-Institut Salvador-Bahia, Dr. Matthias Makowski afirma que a instituição não pretende determinar uma leitura para os trabalhos.

“Não acreditamos que uma exposição deva transmitir mensagens prontas ou conduzir interpretações. A arte não oferece respostas definitivas para os grandes desafios da sociedade, mas pode abrir caminhos para a reflexão. A obra de Patricia Paixão convida o público a pensar sobre a condição da mulher, sua dignidade, sua vulnerabilidade e a atualidade de pautas fundamentais do feminismo”, afirma.

No fim, Patrícia propõe que o público olhe novamente para aquilo que o excesso de circulação pode ter tornado familiar. Para ela, o conjunto da exposição pode ser resumido em uma definição própria, “uma fritação imagética tragicômica”.

Exposição: ‘Dada a natureza das imagens não se exibem fotos’, de Patrícia Paixão

  • Visitação: até 24 de outubro
  • Horário: segunda-feira a sábado, das 9h às 18h30
  • Onde: Goethe-Institut
  • Gratuito

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.



Fonte: A Tarde

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