Tecnologia
Mãos, sombras, reflexos e até a origem da publicação podem revelar inconsistências; especialista ensina como verificar imagens antes de acreditar ou compartilhar

Uma imagem pode parecer tão real quanto uma fotografia, mesmo sem retratar algo que aconteceu de verdade. Com o avanço da inteligência artificial (IA) generativa, imagens sintéticas estão cada vez mais convincentes, e confiar apenas na impressão visual pode não ser suficiente para identificar conteúdos falsos.
Um experimento com 32 analistas de inteligência mostrou o tamanho desse desafio: antes de receberem treinamento específico, os participantes identificaram corretamente imagens reais e geradas por IA em 72% dos casos. Após uma sessão de 30 minutos sobre padrões visuais, a precisão aumentou nove pontos percentuais.
Para Igor Baliberdin, designer estratégico e fundador da LOOOP, com mais de 20 anos de experiência na interseção entre design, negócios e tecnologia, não existe mais um único defeito visual que permita reconhecer todas as imagens artificiais. Segundo ele, o caminho é combinar diferentes sinais e investigar o contexto em que o conteúdo foi publicado.
Confira seis cuidados indicados pelo especialista para avaliar imagens suspeitas
1. Observe mãos, olhos, dentes e outros detalhes
Partes do corpo podem revelar inconsistências, especialmente em cenas complexas. Dedos desproporcionais, acessórios que parecem se fundir à pele, dentes excessivamente uniformes e reflexos incompatíveis nos olhos são exemplos de detalhes que merecem atenção.
Isso não significa, porém, que qualquer falha visual comprove o uso de IA. Fotografias reais também podem apresentar distorções, desfoque e problemas de iluminação. O sinal de alerta está na combinação de várias inconsistências.
2. Amplie a imagem e examine o fundo
Uma imagem pode parecer natural na tela do celular, mas revelar problemas quando ampliada. Texturas da pele, fios de cabelo, bordas de objetos, estampas, letras e elementos ao fundo merecem uma observação mais cuidadosa. Em alguns casos, a inteligência artificial reproduz bem o elemento principal, mas apresenta falhas na relação entre os objetos. Por isso, vale olhar também para as partes da cena que normalmente passam despercebidas.
3. Confira a luz, as sombras e os reflexos
A iluminação é outro ponto que pode ajudar a identificar inconsistências. Observe se a direção da luz faz sentido, se as sombras acompanham os objetos e se os reflexos em espelhos, vidros e superfícies metálicas correspondem à cena. Esses elementos precisam ser coerentes entre si. Quando há contradições, a imagem merece uma investigação mais aprofundada, embora uma falha isolada não seja suficiente para confirmar que o conteúdo foi gerado artificialmente.
4. Desconfie de textos e objetos que parecem corretos à primeira vista
Placas, embalagens, telas, documentos e letreiros também merecem atenção. Algumas imagens geradas por IA podem apresentar caracteres estranhos, palavras sem sentido ou informações incompatíveis com o contexto. Além de observar a aparência, é importante ler o que está escrito e verificar se os elementos fazem sentido na situação apresentada. Uma imagem visualmente convincente não garante que as informações exibidas sejam verdadeiras.
5. Investigue a origem da imagem
Antes de tentar descobrir se uma imagem parece ter sido criada por IA, procure saber quem a publicou, quando começou a circular e em qual contexto foi apresentada. Verifique se existe uma versão original e se outros veículos ou perfis confiáveis divulgaram a mesma cena. A busca reversa de imagens pode ajudar a localizar publicações anteriores e identificar possíveis usos fora do contexto original. Para Baliberdin, a procedência do conteúdo é um elemento central da verificação, sobretudo quando a imagem circula sem informações que permitam confirmar sua autenticidade.
6. Não confie apenas na própria percepção
Mesmo imagens convincentes devem ser avaliadas com cuidado, especialmente quando estão relacionadas a notícias, saúde, segurança ou denúncias. Nesses casos, combine a observação visual com a investigação da origem e a confirmação das informações em fontes confiáveis.
A pergunta, segundo o especialista, não deve ser apenas se alguém consegue perceber que uma imagem foi criada por IA, mas quais evidências existem de que ela representa um acontecimento real.
Desafio vai além de identificar imagens falsas
A evolução da inteligência artificial generativa está transformando a produção de conteúdo e a maneira como as pessoas avaliam o que veem na internet. Uma pesquisa da Gartner divulgada em junho de 2026 apontou que 49% dos consumidores americanos acreditam que a IA generativa piorou a qualidade do conteúdo disponível. Entre integrantes da Geração Z e millennials, o percentual chega a 57%.
Para Baliberdin, a resposta não é presumir que todas as imagens sejam falsas, mas desenvolver uma postura crítica diante do conteúdo digital. Isso significa considerar a origem, a coerência e a intenção da publicação antes de acreditar ou compartilhar. Em um cenário no qual imagens artificiais podem se tornar cada vez mais difíceis de distinguir de fotografias reais, a verificação depende menos de encontrar um defeito isolado e mais de reunir evidências sobre o conteúdo.