história, cultura, religiosidade e belezas cercadas pela Baía de Todos-os-Santos

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Aquele que já foi o principal centro financeiro da capital baiana carrega história, cultura, religiosidade e belezas cercadas pelas águas da Baía de Todos-os-Santos. O turístico Bairro do Comércio, onde ficam as estações inferiores do Elevador Lacerda e Plano Inclinado, na Cidade Baixa, concentra outros importantes monumentos, como Forte de São Marcelo, Basílica da Conceição e Igreja dos Órfãos de São Joaquim, além da Casa da História de Salvador, Capitania dos Portos, Porto de Salvador e Consórcio Doca 1 – Polo de Economia Criativa. Abriga, ainda, a Cidade da Música da Bahia, espaço que conta a trajetória da música baiana, e a Galeria Mercado, que traz a história do Mercado Modelo e da capital baiana, por meio de fotografias e obras de artistas locais.

Instalada no Casarão dos Azulejos Azuis, próximo ao Elevador Lacerda e o Mercado Modelo, em uma área construída de quase dois mil m², a Cidade da Música da Bahia proporciona uma imersão cultural através de moderna tecnologia.

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Pelos quatro pavimentos do equipamento gerenciado pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult), o visitante é convidado à uma viagem no universo sonoro soteropolitano e nos acervos permanentes, que estão sob as curadorias do antropólogo Antonio Risério e do arquiteto e artista visual Gringo Cardia, bem como nas exposições, como a intitulada “História da Música na Bahia”.

Seja MPB, samba-reggae, rock, pagode ou axé, entre diversos outros gêneros e ritmos, Salvador tem na música uma de suas mais fortes manifestações culturais. Na Cidade da Música, essa representatividade é celebrada e difundida desde 2021, após a recuperação do imóvel que sedia o equipamento cultural. Através de recursos audiovisuais, a história da música, desde os tempos da colonização da primeira capital do Brasil até a explosão de diversidades sonoras na atualidade, é contada. O centro cultural proporciona, ainda, a produção de novas linguagens musicais, com aparelhamento técnico e estúdios para promover outros movimentos, como o do rap.

Cidade da Música da Bahia | Foto: Denisse Salazar/AG.A TARDE

Ao programar sua primeira vinda à capital baiana, o professor universitário de Artes, Luiz Antônio Mendonça, conta que em suas pesquisas a Cidade da Música aparecia como destaque. Interessado em arte, moda, ilustração, desenho, cinema e música, o turista paulista diz ter se deparado, na internet, com um conteúdo do museu que despertou a sua atenção.

“Eu assisti a alguns vídeos no YouTube e o chat GPT também ajuda a formatar seu itinerário. Não cheguei a ver muitas imagens, mas o que vi foi o suficiente para me interessar por esta visita à Cidade da Música, justamente pelo seu contexto cultural relacionado à história musical da Bahia”, relatou, durante seu passeio pelo local.

Adri Gomes, mediadora cultural da Cidade da Música, conta que sua experiência no espaço, onde atua há oito meses, tem sido enriquecedora.

“Eu sou da Suburbana. Então, durante muito tempo, foi muito difícil acessar o Centro Histórico de Salvador. Só quando me tornei adolescente que fui conhecer mais essa área da cidade. Estar aqui, neste lugar, fez com que eu entendesse um pouco mais da história da minha própria cidade e da minha história de vida, porque são pessoas que se parecem comigo, que cantam coisas que eu vivo e que, de certa forma, estão me representando e lutando por mim, pelo nosso povo”, relata Adri, que também é MC de Batalha (artista de rap ou hip-hop que participa de competições de rima improvisada) e estudante de Bacharelado Interdisciplinar em Artes, na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

A música, considera Adri, é uma forma de resistência e de combate às violências sistêmicas e estruturais.

“Acho que o fato de a Cidade da Música ter sido implantada neste território, que carrega muito da nossa história, é muito importante para que a população de Salvador se entenda como pertencente, se veja, se sinta feliz e celebre a nossa diversidade, que é além da música. E como MC de Batalha, participo de uma atividade que acontece aqui, às quartas-feiras. É muito importante este espaço também para mostrar que a capital baiana tem muita cultura e que há espaço pra todo mundo falar e se expressar. Acho que a música é isso: vida”.

A também mediadora cultural da instituição, Maria Clara Fortunê, destaca as práticas musicais, “através das quais o visitante pode explorar as conexões que a Cidade da Música oferece”.

Das atrações do último pavimento, ela chama a atenção das três salas de karaokê, nas quais o público é convidado a cantar, se expressar, se divertir, bem como a Sala do Rap e Trap, espaço dedicado aos talentos da cena local, sob a curadoria do rapper baiano Dade Vandal.

“Ali o visitante também pode se expressar e conhecer um pouco sobre a história soteropolitana do rap e trap. Há, ainda, cabines interativas voltadas a projetos educacionais/musicais, como o Neojibá e Ilê Ayiê, à história da percussão e à experiência da mixagem. A cereja do bolo é o nosso estúdio de percussão, que oferece instrumentos musicais e efeitos sonoplásticos, além de workshops de percussão”, relata.

Economia criativa – Outro equipamento do Comércio que atrai baianos e turistas é o Doca 1 – Polo de Economia Criativa, situado na Avenida da França. A instituição foi inaugurada em 2022, com a missão de impulsionar a economia criativa de Salvador. O ambiente colaborativo é destinado a artistas e criadores desenvolverem suas ideias e projetos, visando uma interação entre diferentes áreas e estimular o desenvolvimento cultural e econômico da cidade, como explicou o produtor do espaço, Guilherme Muniz.

O Doca1 funciona, portanto, como um centro de convergência para talentos e empreendedores, dentro de uma infraestrutura moderna. O local abriga restaurante, café-literário, loja colaborativa, coworking (espécie de escritório compartilhado, onde profissionais autônomos, freelancers e empresas dividem um mesmo espaço físico e recursos). Além disso, oferece oportunidades comerciais, como a realização de eventos corporativos e a produção de conteúdo audiovisual, como sessões fotográficas, gravação de comerciais e filmes, entre outros.

“Este equipamento é importante para Salvador por ser um polo que estimula o desenvolvimento cultural e econômico da cidade, abrigando eventos corporativos, confraternizações, reuniões e projetos audiovisuais. É um o espaço que foi criado para concentrar e fomentar a cadeia produtiva criativa local; incentivar novos talentos; promover a qualificação de mão de obra criativa da cidade; e aproximar empresas e trabalhadores envolvidos com o capital intelectual, criativo e inovador”, pontua Muniz, destacando eventos sediados no lugar, como a Feira Preta e a Feira da Solidariedade.

Doca 1 – Polo de Economia Criativa

Doca 1 – Polo de Economia Criativa | Foto: Denisse Salazar/AG.A TARDE

Igrejas do Comércio representam identidade cultural baiana

A expressão da religiosidade no Comércio é considerada um dos pilares da identidade cultural baiana. A fé católica e a arquitetura barroca são representadas por históricos santuários, como a Basílica Santuário Nossa Senhora da Conceição da Praia, e pelas celebrações populares ali preservadas, como a de 8 de dezembro, em homenagem à Imaculada Conceição de Maria, padroeira da Bahia. A Igreja dos Órfãos de São Joaquim, espaço de casamentos da elite soteropolitana, também representa a história de Salvador, assim como a Matriz de Nossa Senhora do Pilar e Santa Luzia, famosa pela sua gruta de água milagrosa.

Construída a partir de 1739, a Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia é uma das paróquias mais antigas da Arquidiocese de São Salvador da Bahia. Sua construção, em estilo barroco, foi feita toda de Pedra de Lioz trazida de Portugal e o título de sacrossanta basílica se deu em 1946. O papa Pio XII declarou Nossa Senhora da Conceição padroeira única e secular do Estado da Bahia, celebrada em 8 de dezembro. A igreja, erguida no local onde havia uma capela de taipa de pilão, por determinação do primeiro governador-geral do Brasil, Tomé de Sousa, teve obras importantes executadas no século XX, como as mesas de mármore dos altares laterais, datadas de 1947, e o piso marmóreo da nave.

Circundada pelas ladeiras da Montanha e da Preguiça, próximo ao Elevador Lacerda e Mercado Modelo, a Basílica da Conceição é um dos mais frequentados pontos turísticos baianos. Seu interior possui a primeira demonstração mais completa do barroco de Dom João V no Brasil, com destaque para a pintura do teto da nave, que obedece à concepção ilusionista barroca de origem italiana de autoria de José Joaquim da Rocha. A monumentalidade de sua fachada, de características neoclássicas, é realçada pela implantação das torres em diagonal.

O templo foi inaugurado em 1765, mas suas obras só foram concluídas em 1849. A construção compreende, além da igreja, dois corpos laterais que abrigam atividades das Irmandades do Santíssimo Sacramento e da Imaculada Conceição. Tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) desde 1938, é da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia que partem os cortejos das festas do Senhor Bom Jesus dos Navegantes (1º de janeiro), Conceição da Praia (8 de dezembro) e de Santa Luzia (13 de dezembro).

Os historiadores destacam que a Basília da Conceição é uma igreja pré-fabricada em Portugal, que chegou ao Brasil em pedaços separados e numerados. O “quebra-cabeças arquitetônico” foi montado por Eugênio da Mota. A pintura do forro da nave é um vasto quadro aceito como obra de José Joaquim da Rocha e está classificada na categoria chamada de “pintura de perspectiva ou ilusionista”. A temática da arte é a glorificação da santíssima Virgem da Imaculada Conceição, que aparece coroada de estrelas, em cima do seu símbolo particular: a Lua Nova.

Bairro do Comércio

Bairro do Comércio | Foto: José Simões/Ag A TARDE

Casamentos chiques – Localizada na Avenida Jequitaia, a Igreja dos Órfãos de São Joaquim tem origem no antigo Noviciado Jesuíta do século 18, que foi transformado, no século seguinte, após a expulsão dos jesuítas, na Casa Pia e Colégio dos Órfãos de São Joaquim, espaço inaugurado em 1825 pelo Irmão Joaquim Francisco do Livramento, destinado a acolher órfãos e meninos desamparados, oferecendo educação primária e oficinas profissionalizantes, como de sapateiro e pedreiro, visando inseri-los no mercado de trabalho, após a abolição da escravatura. Funcionou como orfanato até 2004.

A capela, toda em dourado, com talha neoclássica e mobiliário de jacarandá, é rica em história e arte, como a pintura do teto da “Anunciação da Virgem” (1826), de autoria do baiano José Teófilo. Durante as décadas de 1980 e 1990, o ambiente era disputado para a realização de casamentos chiques, jantares e formaturas.

Pertencente ao Centro Histórico de Salvador, elevado a Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), o complexo (Casa Pia e Igreja dos Órfãos de São Joaquim) foi tombado pelo IPHAN, em 1938. As cerimonias de casamentos, entre outros eventos sociais, bem como culturais, acadêmicos e corporativos, que acontecem na Casa Pia de São Joaquim, contribuem para a manutenção da instituição. O patrimônio histórico e cultural, restaurado em 2021, é aberto à visitação pública.

Pilar e Santa Luzia – Outra igreja de importância histórico-cultural, no Comércio, é a Matriz de Nossa Senhora do Pilar e Santa Luzia, originalmente chamada de Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar. A junção se deu quando a Capela de Santa Luzia, que era sediada no espaço que hoje é o Solar do Unhão, na Avenida Contorno, foi destruída por um incêndio, por volta de 1902. A partir daí, os fiéis levaram a imagem de Santa Luzia para o templo vizinho, unindo as duas devoções no mesmo espaço.

A Igreja do Santíssimo Sacramento Nossa Senhora do Pilar foi construída pelos espanhóis, em 1700, como templo de devoção da Virgem do Pilar, padroeira da Espanha. Adornada com estrelas douradas por todo lado até o teto, a igreja possui nas paredes azulejos espanhóis pintados em azul.

A água que mina desde o século 17, quando o templo ainda era uma pequena capela, é buscada pelos devotos da Santa Luzia, que, além de lavarem os olhos, levam em uma garrafa um pouco da “água milagrosa”. O ritual se intensifica em 13 de dezembro, dia dedicado à Santa Luzia, protetora dos olhos. O ponto alto da festa é a missa solene, seguida de procissão pelas principais ruas do Comércio. O andor sai da Igreja do Pilar e segue até a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, retornando até a matriz.

A história que envolve a Igreja do Pilar e Santa Luzia, passada de geração em geração, é que um senhor banhou os olhos nessa fonte e ficou curado de um problema de visão. A partir daí, a irmandade que administrava o templo mandou fazer a gruta, canalizou a água e ela nunca mais parou de jorrar. O local é visitado, também, pelos turistas, que aderem à “água milagrosa” e se encantam com a beleza da igreja.

Fachada da Igreja Nossa Senhora do Pilar e Santa Luzia

Fachada da Igreja Nossa Senhora do Pilar e Santa Luzia | Foto: Rafaela Araújo/ Ag. A Tarde

Outros pontos histórico-culturais

Casa das Histórias de Salvador: experiência imersiva

Localizada na Rua da Bélgica, a Casa das Histórias de Salvador abriga a memória de Salvador por meio de reproduções, conteúdos digitais e/ou linguagens interativas. O material busca estimular a interação com o visitante nesse espaço de saberes e reflexão sobre a história e as dinâmicas que constroem a cidade no seu dia a dia e que vêm a transformando ao longo de quase cinco séculos. O espaço busca reforçar a capital baiana como um dos principais centros urbanos, paisagísticos, arquitetônicos e culturais do país, valorizando seu patrimônio e estimulando ainda mais seu potencial turístico. Concebida como Centro de Interpretação do Patrimônio, o equipamento se propõe a promover uma experiência imersiva capaz de provocar sentidos e estimular conexões sobre a cidade.

Casa das Histórias de Salvador

Casa das Histórias de Salvador | Foto: José Simões/Ag A TARDE.

Arquivo Público de Salvador: memória e difusão cultural

Integrado à Casa das Histórias de Salvador e sediado no mesmo espaço físico, o Arquivo Público de Salvador abriga um vasto acervo documental, sendo um espaço para pesquisa, memória e difusão cultural, funcionando com agendamento para acesso ao seu acervo histórico. O ambiente foi projetado e erguido para hospedar um dos maiores acervos documentais das Américas, que foi reorganizado, restaurado e digitalizado. Aberto à visitação e às consultas públicas, o local tem como objetivo revelar a memória da primeira capital do Brasil por meio de mais de quatro milhões de documentos que compõem um arquivo de peças raras.

Monumento à Cidade do Salvador: Fonte da Rampa do Mercado

Criado por Mário Cravo Júnior, o Monumento à Cidade do Salvador, também conhecido como Fonte da Rampa do Mercado, é um cartão-postal de Salvador de valorização da arte moderna e da memória do autor. Trata-se de uma icônica escultura modernista, implantada em 1970, com uma fonte luminosa, na Praça Visconde de Cairu, próxima ao Mercado do Modelo. A obra é tombada e teve sua estrutura reconstruída e reinaugurada em 2023, após um incêndio em 2019.

Fonte da Rampa do Mercado

Fonte da Rampa do Mercado | Foto: Olga Leiria / Ag. A TARDE

Galeria Mercado: mergulho na história

Equipamento cultural instalado no subsolo do Mercado Modelo, a Galeria do Mercado foi entregue pela Prefeitura de Salvador em janeiro de 2024 com a proposta de proporcionar ao visitante um mergulho na história de Salvador, através da contemporaneidade das exposições permanentes. A galeria de arte abriga obras como as esculturas de Exu, da série “Cabeças de Tempo”, de Mário Cravo Jr.; as obras em concreto de Rubem Valentim, da série “Templos de Oxalá”; a instalação “Lágrimas”, de Vinícius S.A.; e a escultura “São José”, do artista Zé Eugênio. Além disso, um conjunto de 16 imagens contam a história do local, a partir de sua construção ao incêndio de 1984. As fotografias passam por festas que aconteceram no lugar e personalidades importantes, como Maria de São Pedro e o comerciante conhecido como Camafeu de Oxóssi, que dão nome aos restaurantes do Mercado Modelo, Mãe Menininha do Gantois, Mãe Senhora e o músico Raimundo Nonato da Cruz (Chocolate da Bahia). A curadoria do espaço é assinada por Thaís Darzé.



Fonte: A Tarde

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