igrejas evangélicas se tornam polos decisivos na hora do voto

6

Fé e política devem caminhar de mãos dadas? A pergunta, que sempre gera discussões nas rodas de conversa, volta à tona em 2026, faltando poucos meses para a eleição presidencial. O avanço das igrejas evangélicas no país, nos últimos anos, é parte essencial para entender e discutir o tema.

O A TARDE Destaque desta semana mergulha no universo das igrejas evangélicas e no papel delas dentro do debate político.

Tudo sobre Política em primeira mão! Entre no canal do WhatsApp.

Os evangélicos na política e relação de poder

O envolvimento dos evangélicos com o mundo da política ganhou novos contornos a partir do século XXI, quando os pastores, principais líderes na hierarquia dos templos, passaram a atuar de maneira mais contundente.

No processo de redemocratização do país, no entanto, grupos protestantes já faziam parte da formação de partidos políticos de vários espectros.

Também nos anos 1980, o pastor Silas Malafaia, hoje um dos principais nomes do bolsonarismo, importante interlocutor do clã com a direita conservadora, atuou na campanha do pedetista Leonel Brizola (PDT), ex-governador do Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, nas eleições presidenciais de 1989.

Malafaia também apoiou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de 2002, quando o petista foi eleito presidente da República pela primeira vez. Nos anos seguintes, o líder religioso esteve nos palanques de políticos de outras vertentes, como Marina Silva (PSB) e Aécio Neves (PSDB), até chegar ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

“A igreja sempre soube lidar muito com o poder. A maioria dos estados do mundo eram teocráticos. Egito, Mesopotâmia, quase todos esses estados eram teocráticas, e o poder se governava com a palavra de Deus. A religião sempre foi um braço forte do poder. Quando o Brasil começa a ser construído, essa relação continua, apesar da gente não ter um estado teocrático […] Com a formação do Brasil, desde a colonização vai ter a presença da igreja”, pontua o historiador Murilo Mello, em entrevista ao portal A TARDE.

Bancada evangélica e jogos de interesse

Formada em 2003, a Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional, conhecida como Bancada Evangélica, conta com uma maioria avassaladora de políticos ligados ao campo conservador, com uma tendência ideológica maior à direita.

Ao todo, são 209 deputados federais e 26 senadores que formam a frente parlamentar, que atua em defesa agenda conservadora, grande parte delas ligadas aos dogmas bíblicos.

Mais do que a defesa de pautas ligadas aos valores cristãos e a fé, a bancada também alimenta um jogo de interesses, aprovando projetos e propostas que atendam aos grupos evangélicos e pastores.

Na última semana, por exemplo, a Câmara dos Deputados aprovou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC 5/2023), que garante o aumento da chamada “imunidade tributária”.

A PEC é de autoria do deputado federal Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), bispo da Igreja Universal do Reino de Deus e sobrinho do fundador da associação religiosa, o bispo Edir Macedo.

O texto amplia o entendimento sobre a imunidade, abrangendo a “aquisição de bens e serviços necessários à formação do patrimônio, à geração de renda e à prestação de serviços”.

Outro exemplo recente, de 2024, é o chamado PL do Estupro, como ficou conhecido o Projeto de Lei 1904/2024, de autoria do deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), pertencente à Assembleia de Deus Vitória em Cristo, de Malafaia, e também integrante da linha de frente da Bancada Evangélica.

O texto, que tentava equiparar o aborto ao crime de homicídio, tinha como objetivo vetar a prática até para gestantes vítima de estupro, hoje permitido até determinada fase da gravidez.

“Embora as Normas Técnicas do Ministério da Saúde estabeleçam que, nos casos de gravidez decorrente de estupro, o aborto somente deva ser realizado até a vigésima semana, tem sido divulgado nestes anos póspandemia que tais normas devem ser interpretadas de acordo com as leis e que, neste sentido, como o Código Penal não estabelece limites máximos de idade gestacional para a realização da interrupção da gestação, o aborto poderia ser praticado em qualquer idade gestacional, mesmo quando o nascituro já seja viável”, dizia trecho do projeto, que acabou não sendo aprovado pela Casa.

Contradições e controvérsias

Na contramão do discurso, algumas dessas lideranças religiosas já estiveram no centro de polêmicas, escândalos e acusações, estampando páginas policiais e protagonizando episódios polêmicos.

Marcelo Crivella, por exemplo, foi denunciado pelo Ministério Público em janeiro deste ano por improbidade administrativa, referente ao período em que foi prefeito do Rio de Janeiro.

Na mesma denúncia, Crivella também foi apontado como suspeito de coordenar um esquema de fraude dentro da estrutura municipal, movimentando cerca de R$ 32 milhões. Sua gestão, entre 2017 e 2020, também ficou marcada por acusações de uso de integrantes da Igreja Universal como ‘fiscais’ da Prefeitura.

Outro nome ligado ao bloco evangélico que coleciona polêmicas no mundo político é o deputado federal Pastor Marco Feliciano, do PL de São Paulo.

No ‘hall’ de controvérsias envolvendo o pastor e deputado, está a acusação de estupro por parte da jornalista Patrícia Lélis, a tentativa de aprovar junto ao deputado João Campos (PSDB-GO) o projeto que ficou conhecido como ‘cura gay’, e a movimentação recente para amenizar as punições aos líderes evangélicos acusados de racismo religioso.

Sóstenes Cavalcante, ligado a Silas Malafaia, também esteve no centro de um escândalo recente, após a Polícia Federal encontrar R$ 400 mil em dinheiro vivo em uma das suas residências, um flat no Rio de Janeiro, em dezembro de 2025. Na época, Sóstenes alegou que a quantia se tratava da venda de um imóvel, e que não havia depositado o valor em uma conta bancária por falta de tempo.

Parcela significativa

Em um país de 203.080.756 de habitantes, 47.418.024 deles se declaram evangélicos. Os números divulgados pelo Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), representam 26.9% da população brasileira.

Hoje, os evangélicos formam o segundo maior bloco religioso do país, atrás apenas dos que se consideram católicos apostólicos romanos, que são 56.7% (100.216.153).

A nível de comparação, o Censo de 2000, o primeiro realizado pelo IBGE no século XXI, apontava que 15.01% dos brasileiros se identificavam como evangélicos, número que cresceu no levantamento seguinte, em 2010, quando já eram 21.6% da população.

Como se dividem os grupos

O relatório da Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação Regulação e Infraestrutura (Diset), vinculada ao Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado em novembro de 2023, divide os evangélicos em tradicionais e pentecostais (ou neopentecostais).

  • Evangélicos tradicionais:
  • Batista;
  • Metodista;
  • Presbiteriana;
  • Luterana;
  • Anglicana.
  • Evangélicos pentecostais e neopentecostais:
  • Assembleia de Deus;
  • Universal do Reino de Deus;
  • Quadrangular;
  • Viver em Cristo;
  • Associação Missionária Vida Nova.

Mais do que dados, os números explicam o crescimento da influência de lideranças religiosas do segmento no meio político.

Valores conservadores

O alinhamento com os chamados valores conservadores, que versam sobre temas como gênero e configuração familiar, ajudaram a aproximar as igrejas evangélicas de grupos políticos ligados ao campo da direita.

A relação ganhou força a partir de 2018, quando algumas das principais lideranças evangélicas do país passaram a defender a candidatura do então deputado Jair Bolsonaro (PL) à presidência da República.

Outro episódio que marca a ascensão dos evangélicos na política nacional é a vitória de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara dos Deputados.

“Como os vários grupos sociais têm os seus representantes, os fazendeiros, os latifundiários, os operários, cada setor numeroso da sociedade vai ter seu poder. A igreja evangélica tem uma história relativamente recente no Brasil, ela vai ganhar força com a vinda dos evangélicos, dos imigrantes europeus para cá no final do século XIX. Então, esse fenômeno evangélico no ponto de vista macro, é até então recente na história do Brasil”, destaca o historiador Murilo Mello.

No caso da eleição de Bolsonaro, essas lideranças argumentavam que o candidato, que adotou um discurso de defesa do que considerava ‘família tradicional’, era quem mais se aproximava dos valores e padrão de vida pregados nos templos religiosos.

Jair Bolsonaro (PL) em culto na Igreja Batista Caminho das Árvores
Jair Bolsonaro (PL) em culto na Igreja Batista Caminho das Árvores – Foto: Uendel Galter | AG. A TARDE

Nomes como Pastor Everaldo, candidato ao Planalto em 2014, o próprio Silas Malafaia, que seria peça fundamental do governo Bolsonaro, mesmo sem cargos, e Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, caminharam ao lado do político de extrema-direita.

Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Lucas Santos explica como seu deu esse processo de aproximação, que fortaleceu um discurso de combate a algumas pautas na contramão da fração progressista dos eleitores e dos políticos.

“Do ponto de vista dos temas que mobilizam o debate eleitoral, os evangélicos ultrapassam com folga a capacidade de incidência pública dos grupos católicos. Nas eleições de 2018 e 2022, pautas como ‘kit gay’, ‘mamadeira de piroca’, ‘ideologia de gênero nas escolas’, ‘Jesus travesti’, ‘PT a favor da pedofilia’ […] Entre outras, foram amplamente difundidas por lideranças de segmentos reacionários do campo evangélico e tiveram forte repercussão eleitoral”, explica o cientista social.

“Mais do que no peso numérico em si, a força política dos evangélicos parece residir na capacidade de capilarizar determinadas pautas morais na sociedade, sobretudo por meio de suas lideranças religiosas e midiáticas que geram pânico moral”, pontua.

O contraponto

O cientista social, no entanto, cita casos de políticos evangélicos que vão na contramão do discurso conservador, embora tenham menos destaque. Entre os nomes citados, estão os deputados Pastor Henrique Vieira (Psol-RJ) e Marina Silva (PSB-SP).

Fora das urnas, mas dentro da política, existem casos de pastores evangélicos progressistas notáveis, como Caio Fábio, fundador da Associação Evangélica Brasileira (AEVB), e Ariovaldo Ramos, líder da Igreja Comunidade Cristã Renovada.

O caso mais conhecido, entretanto, é do pastor e cantor gospel Kleber Lucas. Autor do hit ‘Deus Cuida de Mim’, um dos hinos evangélicos mais famosos dos anos 1990, ele é declaradamente apoiador do presidente Lula e contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Kleber, inclusive, participou da campanha presidencial de Lula, participando da regravação do jingle ‘Lula lá’, de 1989, reaproveitado pelo petista em 2022.

Um dos casos mais lembrados no meio é o do pastor Sérgio Dusilek, que por participar da campanha do presidente Lula, em 2022, precisou deixar a presidência da Convenção Batista Carioca. Na época, ele foi alvo de críticas por participar de eventos com o então candidato do Partido dos Trabalhadores.

Evidentemente, esses atores não possuem, no próprio meio evangélico, a mesma projeção de figuras como Silas Malafaia, Marco Feliciano, André Valadão e Edir Macedo. Ainda assim, eles existem e produzem fissuras em um setor que, à primeira vista, parece intransponível

Lucas Santos – mestre em Ciências Sociais pela UFBA

Ele também discorda da tese de que as chamadas ‘megaigrejas’ possuem influência na maioria dos eleitores do mesmo perfil, indicando a atuação de pastores de igrejas menores, constituídas nas periferias do país.

“O crescimento pentecostal brasileiro ocorreu sobretudo por meio de pequenas congregações periféricas, muitas vezes instaladas em antigos pontos comerciais, anexos residenciais ou “igrejas de esquina”, com forte autonomia pastoral, administrativa e até teológica. Em muitos desses espaços, a autoridade cotidiana do pastor local possui mais peso do que pronunciamentos de lideranças nacionais”, defende.

Tendência

Os números do levantamento AtlasIntel divulgado no mês de maio reforçam a preferência do eleitorado por perfis que defendam publicamente as agendas conservadoras.

Na pesquisa, que ouviu 5.032 eleitores, 50.9% dos evangélicos indicaram intenção de voto no senador Flávio Bolsonaro, que tem buscado repetir os passos do pai e manter o apoio das igrejas.

Bolsonaro e Silas Malafaia, pastor da Assembleia de Deus
Bolsonaro e Silas Malafaia, pastor da Assembleia de Deus – Foto: Fernando Frazão | Agência Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem buscado movimentos para atrair o eleitorado evangélico, aparece com 25% da preferência do nicho.

“O fato é que se trata, hoje, de um eleitorado que não pode ser ignorado, não apenas pelos números absolutos que representa, mas sobretudo pela forma como atua na arena pública, produzindo narrativas e engajamentos com forte impacto eleitoral. Falo dos números absolutos porque, dentre as pesquisas para a eleição de 2026 que segmentam o voto por religião, no cenário mais favorável ao bolsonarismo, os evangélicos que declaram voto nesse campo político representam cerca de 17% do eleitorado total. Já o bloco católico que declara voto em Lula chega a representar até 24,5%”, explica o cientista social Lucas Santos.

Em 2022, quando venceu o então presidente Jair Bolsonaro, Lula fez visitas a templos evangélicos, chegando a lançar uma carta voltada ao setor. No texto, o então candidato faz um gesto aos evangélicos, refutando as acusações de que adotaria uma postura de conflito com o grupo, caso fosse eleito.

“Declaro meu respeito e minha admiração pela fé, dedicação e amor com que os evangélicos realizam sua missão, seja na área da difusão do evangelho, seja na área da assistência social, proteção da infância, da juventude, das mulheres, dos idosos e das pessoas com deficiência. Da mesma forma é bem-vinda a participação de Evangélicos nas diversas formas de participação social no Governo, como Conselhos Setoriais e Conferências Públicas.”

Lula participa de encontro com evangélicos durante campanha de 2022
Lula participa de encontro com evangélicos durante campanha de 2022 – Foto: Ricardo Stuckert | PR

E a igreja?

Pastor da Igreja Batista Salim, em Simões Filho, Região Metropolitana de Salvador (RMS), Samuelson dos Santos defende o uso das escrituras bíblicas na hora de escolher o voto.

Ao portal A TARDE, o líder religioso define a bíblia como “regra de fé e prática”, citando o livro sagrado do cristianismo como base de construção da organização da sociedade.

“Eu acredito que a melhor maneira de se viver e enxergar o mundo é através das escrituras sagradas. A bíblia é a nossa regra de fé e prática. Quando em Gênesis diz para o homem cultivar e cuidar da terra, entendo que Deus requer que o homem trabalhe, organize, cuide e desenvolva essa terra. Faz parte desse cuidado, a organização e administração de comunidades, e não somente isso, mas também tudo aquilo que o homem produz nessa interação com seu habitat; ciência, cultura, arte, política”, defende o pastor.

Apesar de achar inevitável discutir o tema dentro dos templos religiosos, o pastor alerta que o compromisso das igrejas deve ser com a defesa de interesses comunitários, não bíblicos.

Ele ainda pontua que o papel das igrejas evangélicas é o de pregar o que considera “verdade bíblica”, que deve servir de ‘guia’ para a vida humana.

“A política não é algo sujo do qual devemos manter distância, até porque pagamos impostos, e diga-se de passagem altos impostos, para que homens e mulheres cuidem do que é precioso para nós e que nos afetará profundamente no dia a dia. O nosso compromisso deve ser contribuir para o cuidado e desenvolvimento das nossas comunidades e, inescapavelmente, passará pela política. A igreja é um lugar para pregar a verdade bíblica, que deve nortear toda a vida humana, inclusive na política”, destaca o líder religioso.

O que diz a AtlasIntel?

A AtlasIntel/Bloomberg divulgada em maio deste ano, que detalha a disputa presidencial, em primeiro e segundo turno, traz o recorte sobre diferentes grupos religiosos.

Entre os evangélicos, Flávio Bolsonaro (PL) lidera as intenções de voto, com 58.6%. O menos votado entre o grupo é Aldo Rebelo (DC), ex-ministro da Defesa.

Intenções de voto entre os evangélicos

  • Flávio Bolsonaro (PL) – 58.6%;
  • Lula (PT) – 23.7%;
  • Renan Santos (Missão) – 10.1%;
  • Romeu Zema (Novo) – 3.1%;
  • Ronaldo Caiado (PSD) – 2%.



Fonte: A Tarde

Artigos relacionados

Últimas notícias

Mulher comete racismo contra torcida do Vitória na Vila Belmiro; veja vídeo

Além da derrota na partida contra o Santos, na noite deste sábado,...

Últimas notícias

Berrega e Geisa encaram Desafio BGX1 em prova de 5 km na Grotinha, em Jacobina

Na manhã deste domingo, 31 de maio de 2026, foi dada a...

Últimas notícias

Homem é assassinado no Oeste da Bahia; Filho é suspeito do assassinato

Um homem de 22 anos foi preso em flagrante na cidade de...

Últimas notícias

Vai voltar? Rogério Ceni revela plano do Bahia para Marcos Felipe

Em meio a um momento conturbado na posição de goleiro, o técnico...