Há lugares que podem ser visitados. E há outros que precisam ser vividos e escutados. No bairro do Uruguai, na Península Itapagipana de Salvador, a visita, a vivência e a escuta se misturam e se encontram por meio do turismo comunitário.
Para quem decide visitar a comunidade estar lá não significa apenas conhecer o local, mas é também estar disposto a ouvir as histórias, as memórias e as experiências de quem vive no território.
É nesse encontro entre quem chega e quem guarda as histórias, entre as ruas e as memórias, entre o passado que permanece e o presente que se transforma, que surge o Alagados Turismo Comunitário – iniciativa que leva os visitantes a vivenciar a comunidade a partir das vozes de quem a constrói todos os dias.
Tatiane dos Anjos, uma das fundadoras do Alagados Turismo Comunitário, contou que a ideia surgiu em 2007 a partir do apoio da Estrela Brasil, agência da Inglaterra. Ela lembrou que o processo de construção da iniciativa revelou o que já existia: a própria comunidade já fazia turismo comunitário antes mesmo de conhecer essa definição.

“Na verdade, a gente já fazia turismo comunitário sem saber que era turismo comunitário. Então, a agência chegou em um momento muito ímpar para a nossa comunidade. E nesse processo do surgimento do Alagados Turismo Comunitário, a gente começou fazer parceria com outras agências. Hoje, a gente tem a parceria com a Tours Bahia e recebemos turistas estrangeiros, mais franceses. E a partir desse processo, a gente apresenta a nossa comunidade”, esclarece.

Tatiane conta que, por mês, o bairro recebe cerca de cinco visitas, uma média de 2 mil pessoas por ano. “A gente tem mais de 15 atrativos no bairro do Uruguai. Dentre esses 15, um dos pontos fortes principais é a visita à escola comunitária Luísa Mahin, a Associação de Moradores do Conjunto Santa Luzia, a nossa caminhada social no Porto dos Estanheiros, visitamos a casa de Dona Madalena – que é uma matriarca antiga da comunidade, que contextualiza a história do bairro”, elenca ela.
Além disso, durante o tour, Tatiane diz que os visitantes tem a oportunidade de conhecer o Banco Comunitário Santa Luzia – responsável por gerir a moeda local – Umoja-, fazem visitas ao Espaço Cultural Alagados, onde é contada a trajetória da arte e da cultura do bairro , e onde também são ofertadas aulas de percussão e dança afro.

“A gente também conhece a colônia de pescadores, a gente visita o nosso mangue – aqui na comunidade do bairro do Uruguai temos um manguezal na área urbana -, a gente traz muito esse contexto histórico do racismo ambiental, que infelizmente, afeta a nossa comunidade. Nosso carro-chefe é o turismo gastronômico, em parceria com a Tours Bahia, a qual a gente oferta também a aula culinária, e os turistas aprendem a fazer uma moqueca baiana. É bem interessante esse trabalho”, complementa.
Fortalecimento da economia local
Para ela, o turismo comunitário é muito mais que simples visitas por pontos importantes do bairro, mas, acima de tudo, é um dos fatores preponderantes para o fortalecimento da economia local.
“O turismo comunitário, de fato, vem fortalecendo o desenvolvimento econômico da comunidade, garantindo com que a renda não saia, mas sim, circule na própria comunidade”, afirma.
Turismo em rede
O Alagados Turismo Comunitário não é a única iniciativa em Salvador. Além do Uruguai, outros bairros da capital baiana também desenvolvem trabalhos dentro de suas comunidades.
“A gente tem parceria com a Rede Batuc, que é a rede de turismo comunitário da Bahia, a qual aqui em Salvador temos seis turismo comunitário urbano. O Giro Tur, na região do Calafate, o turismo comunitário na Boca da Mata, temos também a galera do Alto do Cabrito, que é o Ao Quadrado, temos também o Platatur, que é o de Plataforma, e temos o de Matarandiba, que fica na ilha de Itaparica, na vila de pescadores de Matarandiba, que é Salvador também”, explica Tatiane.
Vozes que ecoam
Diógenes Reis, educador social e condutor do Alagados Turismo Comunitário, é uma das vozes que conduz os turistas pelo bairro. Nascido e criado no Uruguai, hoje, ele ajuda a recontar as narrativas e perpetuar a memória daqueles que vieram antes abrindo e alicerçando os caminhos.
“Aqui no bairro do Uruguai existem mais de 30 mil habitantes. Segundo o IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística], até 2010. É um bairro onde existem memórias vivas e muitas histórias escritas”, afirma ele.
Sem esconder o orgulho do seu lugar no mundo, Dióneges explica o porque o bairro recebeu o nome Uruguai. “Segundo os moradores antigos, foi por conta de uma aposta em 1950, quando o Brasil jogou com a seleção do Uruguai, no Maracanã [estádio no Rio de Janeiro]. E aí, como o Brasil perdeu, o nome do bairro ficou sendo chamado de Uruguai”, conta o educador social, revelando que o bairro é o mais populoso e extenso da Península de Itapagipe.
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“A Península é privilegiada por ter o bairro do Uruguai. Hoje, a gente tem o Espaço Cultural Alagados, que é também um marco histórico. Tem o Cine Alagados, que é o primeiro cinema de bairro. Temos a Escola Comunitária Luíza Mahin, que é a escola de educação antirracista com protagonismo de mulheres”, pontua Reis.
Resistência para continuar lutando
Na fala de Diógenes, o Uruguai aparece como território de histórias que se entrelaçam. A origem do nome do bairro é apresentada a partir da lembrança dos moradores antigos, enquanto os espaços comunitários surgem como parte dessa memória que permanece viva.
Mas nenhuma história de território se sustenta apenas em prédios, ruas ou nomes. Ela também vive nas pessoas.

Marilene da Conceição Nascimento, mais conhecida como Leninha, carrega quase quatro décadas de militância e trabalho na Associação de Moradores. Sua trajetória se mistura à própria história da comunidade.
“Minha família, meus pais moraram aqui. Meu pai trabalhou, praticamente, morreu na fábrica de chocolate. Minha mãe foi empregada doméstica por muitos anos. E foi uma luta muito grande da população em relação ao poder público para acabar com essa situação das águas sob as casas. Então, o governo resolveu construir um conjunto, onde hoje está localizado a Associação [de moradores]”, conta Leninha.
“A gente, além de fazer essa militância na educação, a gente também faz uma militância que é também cuidar da comunidade, cuidar das pessoas, da gente, de certa forma, que nasceu e se criou nesse bairro. Uruguai é um bairro que passou por muita dificuldade, principalmente porque nossa história vem das palafitas – casas de madeiras construídas sobre a maré”, continua a senhora.
Segundo ela, diante de todas as dificuldades que os moradores da comunidade já enfrentaram e ainda enfrentam, são as mulheres, em sua maioria, que estão sempre à frente das reivindicações e melhorias para o bairro.
“Hoje, lutamos por uma UPA ou que seja lá a unidade da família para os moradores não terem que se deslocar do seu bairro para ir para outros bairros”, finaliza Leninha, afirmando que o Uruguai é muito mais que um bairro, é uma comunidade marcada pela resistência, pela luta de seus moradores e pela força que constrói diariamente sua própria trajetória.
Histórias entrelaçadas
Tatiane, Leninha e Diógenes mostram, por meio de suas histórias e experiências, que conhecer o bairro do Uruguai é também compreender as memórias, as lutas e as transformações que fazem parte desse território.
No fim, o que se revela é uma forma de conhecer um lugar que não começa no olhar de quem chega, mas na voz de quem permanece. No bairro do Uruguai, turismo é caminho, mas também é memória. É ouvir antes de fotografar. É conhecer antes de julgar. É atravessar um território deixando que suas histórias conduzam os passos.